Não há uma fórmula delimitada para se dizer o que é um grande jogo de futebol. Pode ser aquela partida em que os dois times propõem o jogo, vão ao ataque, buscam o gol. Ou mesmo pode ser aquela em que a emoção é disputada à flor da pele, entre o desespero por balançar as redes a qualquer custo e o esforço a evitar o amargor. A Arena do Grêmio recebeu um jogaço nesta quarta-feira, dos melhores do futebol brasileiro na temporada, e de com dois tempos bastante distintos. Nos 45 minutos iniciais, equilíbrio entre as equipes e trocação, com chances lá e cá. No 45 finais, agonia e pressão só de um lado. Ao final, o empate por 1 a 1 deixa o cenário aberto para o reencontro nas quartas de final da Copa do Brasil. O Grêmio fez um ótimo primeiro tempo e lutou o máximo na etapa final. A satisfação maior, de qualquer forma, é do Flamengo – e não apenas pelo gol decisivo no último lance. Os rubro-negros suportaram as dificuldades iniciais, impuseram seu jogo e sufocaram os anfitriões. Apesar de problemas pontuais, foi uma atuação coletiva grandiosa.

O Grêmio impressionou pela fome com que atuou durante os primeiros minutos da partida. Era um time intenso, que precisou de segundos para criar sua primeira chance de gol, em chute de Luan que parou em defesa segura de Diego Alves. Os tricolores jogavam no campo de ataque, buscando os espaços para finalizar e marcando muito forte a saída de bola dos adversários. O Flamengo tentava trabalhar os passes, mas sofria para passar do meio-campo. Enquanto isso, as chances iam aparecendo mais aos tricolores. Em uma cobrança de escanteio perigosa, quase saiu o primeiro tento.

A resposta do Flamengo veio aos dez minutos. Foi o aviso de que o jogo seria mais equilibrado. Com espaço, Marlos Moreno avançou e arriscou de fora da área, exigindo uma boa defesa de Marcelo Grohe. Assim, o duelo ganhou sua tônica, entre dois times bem montados, mas com características diferentes. Enquanto os gremistas marcavam de maneira agressiva, os flamenguistas tinham mais posse de bola e precisavam de paciência. De qualquer maneira, as oportunidades para marcar iam surgindo. Os rubro-negros conseguiam se infiltrar mais em avanços rápidos, com a participação de Marlos. Já os tricolores quase sempre arriscavam de fora da área.

Grohe voltou a fazer milagre aos 30. Rodinei avançou pela direita e chutou prensado, mas a bola desviada exigiu ainda mais do arqueiro, que espalmou para fora. Na sequência, Diego Alves trabalharia. Um dos que mais arriscavam no Grêmio, Cícero soltou a bomba e o camisa 1 fez a ponte para rebater. Os gremistas finalizavam mais, embora o número de oportunidades claras fosse parelho. O gol dependeria de algo diferente. E ele veio aos 37 minutos, entre uma jogadaça dos gaúchos e vacilos dos cariocas.

Pelo lado direito do ataque do Grêmio, Marlos Moreno bobeou na marcação e Léo Moura o deixou na saudade, com um corte seco. Depois, o lateral deu uma finta de corpo no próximo marcador e tabelou com Ramiro. Rodinei, outro a errar, deu condições ao veterano na ultrapassagem à linha de fundo. O cruzamento rasteiro encontrou Luan livre na marca do pênalti e o artilheiro bateu de primeira, sem chances de defesa. Golaço que premiou o ímpeto dos tricolores, que mantiveram a vantagem até o intervalo.

No início do segundo tempo, o Grêmio até esboçou manter a postura. Teve primeiros minutos melhores, com direito a uma boa jogada de Everton que assustou. Porém, logo o Flamengo passaria a mandar na partida. Os tricolores já não tinham mais energia para manter a marcação adiantada e preferiram recuar ao redor de sua área. Então, caberia aos rubro-negros aproveitarem a qualidade de seu meio-campo. Diego não aparecia muito até então, mas começou a chamar mais o jogo, como fazia Everton Ribeiro. Além disso, Lucas Paquetá também tentava, mesmo sem viver a sua noite mais inspirada. A movimentação era o principal meio aos flamenguistas tentarem destrancar a defesa gremista.

O Flamengo promoveu a estreia de Vitinho aos 16 minutos. O novo contratado entrou pelo lado esquerdo do ataque, tentando aproveitar melhor os espaços reduzidos, o que Marlos Moreno não fazia. Já o Grêmio trocou André por Jael. Não teria velocidade nos contra-ataques, mas confiava nas bolas longas ao centroavante. O problema é que Jael não conseguia avançar tanto em campo, com os rubro-negros fazendo bem o trabalho de bloquear as saídas. Cuéllar, em especial, vivia uma partidaça para que o sistema funcionasse.

As dificuldades do Flamengo para finalizar eram claras, embora o time pensasse o jogo. As principais chances vinham pela esquerda, não apenas pela presença de Vitinho, mas também pelo apoio de Renê. Em resposta, Renato Portaluppi tirou Léo Moura para a entrada de Leonardo, bem na marcação. Ainda assim, diante da insistência, era natural que as oportunidades aparecessem ao Fla. O time não ia tão bem nas bolas levantadas, até porque Uribe saiu para a entrada de Lincoln, sem tanto potencial no jogo aéreo. Mas pelo chão, os lances eram melhores. Já do outro lado, os contra-ataques se tornaram mais difíceis. Everton sentiu e Marinho não o substituiu à altura, enquanto Jael torceu o tornozelo quando as três alterações já tinham sido feitas.

Tudo conspirava a favor do Flamengo, mas faltava botar a bola para dentro. Grohe voltou a trabalhar aos 41, em jogada incisiva de Lucas Paquetá. O garoto partiu para cima e bateu cruzado, parando no camisa 1. Depois, seria a vez de Cuéllar fazer uma jogadaça, tal qual um ponta, abrindo a marcação e chegando à linha de fundo. Cruzou para Diego, sozinho no segundo pau, mas o meia cabeceou mal, por cima do travessão. Ainda haveria um escanteio fechado de Diego, que levou muito perigo a Grohe na pequena área. E quando as esperanças se esvaíam, o grito de gol do Flamengo saiu ainda mais forte, nos últimos segundos dos quatro minutos de acréscimos dados pelo árbitro.

Everton Ribeiro, muito ativo, fez ótima jogada pela esquerda. Passou a Renê, em velocidade, e o lateral cruzou rasteiro à pequena área. Lincoln se antecipou à marcação e bateu de primeira, sem chances de defesa a Marcelo Grohe. Muita estrela do garoto em seu segundo gol profissional, o primeiro em uma competição nacional. Depois disso, mal houve tempo para a saída de bola do Grêmio. Prêmio à insistência do Flamengo, que teve mais gás e mais organização no segundo tempo. O tento agonizante não deixa de ser um prêmio saboroso.

Flamengo e Grêmio são fortes candidatos em todas as frentes que disputam, com os rubro-negros sustentando pretensões maiores no Brasileirão até o momento. Só que a maratona em três competições de peso exigirão bastante dos dois times. Nesta quarta, de maneiras distintas, mostraram que podem jogar em alto nível. Os gremistas poderiam ter construído o resultado logo no início e certamente teriam comemorado bastante uma eventual vitória se segurassem a pressão que sofriam ao final. Um lance, porém, pode mudar tudo. E isto deixou em evidência a proposta dos flamenguistas, sem se acuar na casa dos adversários. Noite de futebol excepcional, que aumenta bastante as expectativas para o reencontro no Maracanã, em duas semanas.


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