Entre a cruz e a espada

Aos cinco minutos de jogo válido pela quinta rodada do Campeonato Paulista, o Corinthians já vencia o Palmeiras por 1 a 0, com Jorge Henrique tendo completado para as redes, de cabeça, cobrança de falta de Tcheco. Porém, os planos de levar o jogo de modo tranquilo foram duramente encerrados, três minutos depois, na dura falta de Roberto Carlos sobre João Arthur, que causou o cartão vermelho (algo exagerado, mas justo, pela imprudência) ao lateral-esquerdo corintiano.

E aí, a equipe de Mano Menezes foi forçada a suportar 82 minutos de ataque palmeirense. Mas conseguiu passar por eles incólume – em parte, graças à boa performance de Felipe, que fez pelo menos três defesas importantes. E a vitória final apontou a realidade: após cinco rodadas, o time do Parque São Jorge lidera o Campeonato Paulista. Claro, isso deu motivo para alegria mais do que justa à torcida, que já até acalenta o sonho do bicampeonato estadual.

É claro que, num ano de centenário, a torcida do Corinthians deseja bastante ganhar tudo, quantos títulos sejam possíveis. Mas é exatamente em momentos como estes que a frieza no pensamento deve se sobrepor à vontade corintiana de fazer de 2010 o apogeu da história do clube. E uma análise mais calma mostra: o ideal seria focar o trabalho feito para a tão sonhada conquista da Libertadores.

Por enquanto, o trabalho parece satisfatório. A diretoria consegue controlar arroubos megalomaníacos, e Mano Menezes é um técnico com boa experiência na Copa Libertadores – como comprovado em 2007, quando, mesmo mais inexperiente, conduziu o Grêmio à decisão. O trabalho em relação aos reforços para o elenco também foi bem feito: mesmo que ainda faltem jogadores para outros setores além do meio-campo, o elenco corintiano está claramente fortalecido.

No gol, Felipe parece um jogador razoável: mesmo com alguns momentos de baixa (como os sustos dados contra Monte Azul e Bragantino), o goleiro já parece ter segurança e imponência suficientes para suportar a pressão por que certamente passará neste ano. A questão é para as posições de linha. Não que Alessandro, William, Chicão e Roberto Carlos sejam jogadores ruins – não são, longe disso.

A questão é que os reservas ainda não inspiram tanta confiança. Balbuena e Escudero não demonstraram estarem acima de qualquer suspeita, por algumas performances ruins – como a do reserva de Alessandro, contra o Avaí, pelo Campeonato Brasileiro do ano passado. Não quer dizer muito, mas é um mau histórico recente. E, para o miolo de zaga, Paulo André e Leandro Castan não ostentam o mesmo entrosamento fino de William e Chicão – algo mais do que compreensível, até pela chegada recente de Leandro.

No meio-campo, porém, não faltam opções. Marcelo Mattos, Ralf, Jucilei, Edu Gaspar, Danilo, Tcheco, Elias, Defederico: todos os citados são jogadores de nível satisfatório o suficiente para não fazerem feio. A questão é como Mano Menezes armará esse setor. E deve dar prioridade a armadores que pensem mais nas jogadas, casos de Danilo e Tcheco. Aliás, o ex-gremista tem sido bastante criticado, por suposta lentidão. Porém, há o esquecimento de que o jogador foi contratado nem tanto por seu aspecto técnico, mas pela ampla confiança que Mano tem nele.

E, de mais a mais, os problemas de marcação são minorados pela velocidade de Elias e, principalmente, de Jorge Henrique – o grande destaque alvinegro no início de 2010, sem a menor dúvida. Algo que até compensa a lentidão de Ronaldo. Por sua vez, também compensada pelo senso de posicionamento do atacante.

Por enquanto, ainda sem a Libertadores como compromisso, o Corinthians consegue desempenho razoável no Paulista. A questão é ver como agirá como as duas competições estiverem juntas no calendário. E é preciso agir com parcimônia: nem valorizar excessivamente as duas competições, indo na linha do “ganhar tudo”, nem valorizar excessivamente apenas a Libertadores, correndo o risco de ver o trabalho desmoronar com eventual perda. Mas, aí, é problema apenas do Corinthians.