Quem esperava uma chuva de gols se enganou redondamente. Borussia Dortmund e Paris Saint-Germain fizeram uma partida de muita concentração e poucos espaços, especialmente se tratando de quem se tratava. Depois de um primeiro tempo sem gols, eles vieram na segunda etapa. Foi um placar apertado, 2 a 1, mas suficiente ao Dortmund para coroar uma atuação quase irrepreensível, com Erling Haaland estendendo sua lenda instantânea. O triunfo coloca os aurinegros à frente nestas oitavas de final da Champions League.

Condicionados por seu histórico defensivo poroso na temporada, ambas as equipes entraram muito concentradas e preocupadas em não repetir os erros cometidos na atual campanha. Nesta disputa, o BVB se sobressaiu no primeiro tempo por encontrar melhor equilíbrio entre defesa e ataque, enquanto o PSG esteve nulo.

Com as fragilidades defensivas e as forças ofensivas das duas equipes, este confronto sempre seria muito sobre concentração. Ambas demonstraram isso na primeira parte, mas o PSG pareceu tão concentrado que, quando teve a bola, não conseguiu se soltar da rigidez com que defendia para ter fluidez no ataque.

O clube parisiense basicamente não atacou espaço algum nas costas da defesa do Dortmund. Abdicou da posse de bola para explorar lacunas deixadas pelo time da casa, mas quando a recuperava demorava demais para construir seu jogo. Piorando ainda mais suas oportunidades, concentrava os escassos ataques pelo centro, claramente bem povoado e intransponível.

Por sua vez, os anfitriões também foram cautelosos. Diferentemente de suas partidas malucas na Bundesliga, não avançou muito seus alas na primeira etapa. Isso tirou bastante do poder de criação da equipe, mas ofereceu à equipe o equilíbrio necessário para não ser vazado pelo PSG.

Individualmente falando, o melhor nome do primeiro tempo foi Jadon Sancho. Normalmente, o inglês combina com Achraf Hakimi pela direita. Porém, sem espaço neste flanco, optou por flutuar por todo o ataque e cair bastante pela esquerda. Lá, encontrou lacunas – ou melhor, as criou. Na melhor das oportunidades, o único chute a gol de qualquer uma das equipes antes do intervalo, o ponta forçou Keylor Navas a fazer grande defesa, aos 27 minutos.

Ao fim do primeiro tempo, o saldo do domínio do Borussia Dortmund se expressava bem nas finalizações, com sete para os anfitriões e apenas duas aos visitantes. A mudança tática e a cautela exagerada (retroativamente falando, é claro) se provaram erros estratégicos de Tuchel e não foram os únicos.

Foi só aos 20 minutos da segunda etapa que o PSG chegou à sua primeira finalização a gol. Mbappé recebeu pelo alto, nas costas da defesa do Dortmund, e bateu forte para boa defesa de Roman Bürki. Um minuto mais tarde, o francês combinou bem com Di María e Neymar e, recebendo belo passe do brasileiro, finalizou mais uma vez com força em cima do goleiro do time alemão.

Apesar de criar em um intervalo de dois minutos mais chances do que havia feito em todo o jogo, a equipe de Paris teve que testemunhar a primeira grande intervenção do fenômeno Erling Haaland ao resultado.

Aos 24 minutos do segundo tempo, o BVB trabalhou bem a bola pé a pé, começando pela esquerda. Haaland serviu de pivô para que a bola atravessasse o campo até a direita. De lá, Hakimi cruzou para o meio da área e, depois de uma primeira tentativa de um companheiro, o atacante norueguês pegou a sobra e se atirou à bola para fazer 1 a 0.

Uma das grandes falhas táticas de Tuchel no jogo foi a maneira como isolou Mbappé no ataque, limitado por seu papel central no terço ofensivo. Em uma das situações em que escapou disso, o francês provou a influência que pode exercer quando tem maior espaço de mobilidade. Aos 30 minutos da segunda etapa, o camisa 7 fez grande jogada individual pela direita e cruzou para Neymar, sozinho, empurrar para a rede e empatar.

Mal o PSG retornou ao jogo, e Haaland mais uma vez alterou a história do jogo, com um chute improvável. Aos 34 minutos de etapa final, recebeu na intermediária e, apesar do impulso limitado e da marcação, acertou uma finalização de potência impressionante para vencer Keylor Navas e decretar o 2 a 1.

Dois minutos mais tarde, o PSG respondeu com Neymar, que acertou o travessão. Do outro lado, Hakimi esteve perto de ampliar o placar cinco minutos depois, mas não conseguiu. Por fim, após cobrança de escanteio, Thiago Silva cabeceou com perigo por cima do gol, assustando a torcida aurinegra por um momento, logo substituído pelo alívio do apito final.

Com toda a preocupação defensiva que cercava o jogo, ambas as equipes se saíram muito bem neste quesito, mas o Dortmund foi um vencedor claro e merecido. Anulou na maior parte do tempo a influência que Neymar pode exercer, tornou o poderoso ataque do PSG quase inofensivo e soube calibrar para cima seu jogo ofensivo na segunda etapa.

Do lado parisiense, é difícil condenar demais as escolhas de Tuchel. Quem assistisse o que Sancho e Haaland têm feito e não adotasse uma postura cautelosa para enfrentá-los como visitante seria tolo. De qualquer forma, com o elenco que tem e a pressão consequente, precisava ter conseguido oferecer mais ofensivamente.

Escalando três zagueiros e jogando em um 3-4-3, isolando Mbappé e fazendo apenas uma alteração – a entrada de Sarabia no lugar de Di María aos 31 do segundo tempo – enquanto tinha Cavani e Icardi no banco, o alemão pagou pela prioridade defensiva.

O resultado e a maneira como ele ocorreu pavimenta um caminho para um jogo bastante aberto na volta, em Paris, daqui a três semanas. A reação inicial da imprensa francesa é de críticas pesadas à suposta covardia de Tuchel. Pressionado pelo resultado e também pelo sonho da Champions League, o técnico precisará responder com ataque, ataque e mais ataque – sem poder contar com a contribuição de Verratti, suspenso para o duelo na França. E no espaço que os parisienses deverão deixar, Haaland, Sancho e companhia estão prontos para fazerem seu estrago.