Você, que acompanha nossa série “Entidades Místicas do Futebol”, sabe que estamos na segunda temporada, tratando das lendas do futebol europeu. Faremos, porém, uma pausa para tratar de futebol olímpico nesta edição extroardinária. Este texto foi inicialmente enviado na Newsletter da Trivela, na última sexta-feira. Assine agora e não perca nenhuma edição, toda sexta no seu e-mail!

Não podemos crucificar essa geração. O talento existe.  Muitos desses jogadores ainda brilharão com a amarelinha no futuro, e a culpa, convenhamos, é dos dirigentes da CBF. Não fizeram a preparação direito, escolheram o homem errado para comandar os nossos garotos, e o treinador, por sua vez, escolheu os jogadores errados acima de 23 anos. Se bem que eles poderiam ter sido um pouquinho mais decisivos… Não! A culpa é dos dirigentes, da preparação e do técnico. Nessa ordem. Talento existe. Somos pentacampeões mundiais. Nunca fomos campeões olímpicos por um mero acaso. Sabia que Pelé nunca jogou uma Olimpíada? Então! É por isso. Mas aquela falha do goleiro, pelo amor de Deus…

É possível jogar uma pedra para cima e acertar a cabeça desse discurso, que povoa jornais e programas de TV a cada quatro anos, logo em seguida ao fracasso mais recente da seleção masculina de futebol nos Jogos Olímpicos. A medalha de ouro virou obsessão por essas terras, seguindo a lógica de uma criança de cinco anos que teve um desejo recusado pela mãe. Nós queremos a medalha de ouro, afinal, quem não quer?, ela é super legal e estilosa, mas, como não podemos tê-la, nós queremos muito a medalha de ouro. Desculpa. Disse medalha de ouro? Eu me equivoquei. O nome correto é a tão sonhada medalha de ouro.

Nosso pesadelo olímpico começa nos diagnósticos da derrota, mas este momento não passa de um trailer ou de um teaser, porque o assunto cai no esquecimento durante dois ou três anos, com pequenas exceções: especialistas em categorias de base gritando ao vento, campeonatos de seleções sub-alguma coisa e, claro, quem realmente gosta e se importa com o esporte brasileiro. No geral, porém, os Jogos Olímpicos aparecem no radar dos boleiros por volta do fim da Copa do Mundo, um ano depois no mais tardar. O que não é problema nenhum porque cada um se interessa pelo que quiser. O problema é que isso muitas vezes acontece também com a direção do futebol brasileiro.

Uma preparação do time de futebol olímpico competente, bem planejada e executada à perfeição é uma lenda tupiniquim, mais ou menos como o ET de Varginha e o Saci Pererê. Ninguém nunca viu, nem comeu, só ouviu falar.

Quando são marcados amistosos em número suficiente e contra times interessantes para preparar a seleção, não se consegue convocar os jogadores que se vislumbra. Quando se consegue, o comandante do time muda em cima da hora, seja por vaidade do técnico da seleção principal, seja porque o técnico da seleção principal foi demitido. Quando não muda, o elenco precisa ser montado de acordo com a negociação dos nossos dirigentes com os clubes europeus, e vale sempre lembrar que nossos dirigentes são da estirpe de José Maria Marin e Marco Polo Del Nero.

Ao fim dessas negociações, o time que chega à Olimpíada é bem diferente daquele que foi imaginado, com os melhores atletas da categoria e outros três craques incontestáveis. Mesmo assim, pelo nível da competição, uma geração promissora basta para o Brasil ser favorito. Se pelo menos um craque aceitou assumir a bronca, ainda mais favorito. Se a preparação tiver sido feita dentro de algum nível aceitável de competência, ninguém tira a medalha de ouro do escrete canarinho. E é aí que começam os problemas de verdade.

A pressão de conquistar o único título que falta à seleção brasileira costuma ser um fardo pesado a rapazes que ainda não completaram 23 anos – imagina quando o Brasil disputar uma Olimpíada em casa? A estreia costuma ser complicada, com um empate ou uma vitória apertada. Aos poucos, os jogadores vão se soltando e se classificam à próxima fase, mas ainda sem apresentar um grande futebol. Time campeão cresce na reta final, dizem os especialistas, mas nossa seleção olímpica não tem o costume de comer arroz e feijão.

Em algum momento entre o começo das quartas de final e o fim da disputa da medalha de ouro, o Brasil fraqueja. Encontra um time bom demais, um atacante perigoso demais ou faz uma partida ruim demais. A conquista da tão sonhada medalha de ouro foi adiada. Fracassamos novamente. Mas não podemos crucificar essa geração. O talento existe.  Muitos desses jogadores ainda brilharão com a amarelinha no futuro, e a culpa, convenhamos, é dos dirigentes da CBF. Não fizeram a preparação direito, escolheram o homem errado para comandar nossos garotos, etc, etc.