Na última semana, a coluna terminou com as frases: “(…) bem, na semana que vem a coluna volta a falar de coisa séria. Ela promete”. Era a pretensão. Todavia, novamente a rodada do Campeonato Holandês não ajudou muito a trazer novos assuntos. O PSV até enfrentou certas dificuldades contra o Groningen, no primeiro tempo do último sábado, mas melhorou, fez 3 a 0 e manteve a liderança na Eredivisie, com 65 pontos.

Pressionado, o Ajax precisava vencer o Willem II fora de casa, para seguir apenas um ponto atrás dos Eindhovenaren. E viveu história parecida no domingo: teve alguns problemas na etapa inicial, mas abriu o placar no fim dela, e seguiu tranquilo para golear por 4 a 0, mostrando boas atuações de Arkadiusz “Arek” Milik e Davy Klaassen, que marcaram gols na terceira rodada consecutiva. E os times de Eindhoven e Amsterdã seguem numa disputa renhida pela conquista do título nacional.

Logo abaixo, o Feyenoord venceu o Cambuur, ainda que com alguma dificuldade (3 a 1) e manteve a terceira posição, tendo saldo de gols maior do que o do… AZ, que voltou a vencer (2 a 0 no Excelsior). Outro time que foi tema de coluna recente, o Utrecht, também merece destaque: goleou o Heerenveen fora de casa (0 a 4), e firma-se na zona dos play-offs por vaga na Liga Europa. Enfim, a 26ª rodada da Eredivisie 2015/16 teve até menos novidades.

ENTIDADES MÍSTICAS DO FUTEBOL HOLANDÊS: O atacante do Heerenveen

Aí, novamente um comentário feito por um leitor (sobre “goleiros perebas da Holanda”) deu o que pensar sobre uma entidade mística do futebol holandês. E a semana trouxe uma notícia que definiu tudo: na terça-feira, o VV Noordwijk, clube amador que joga uma das conferências da Hoofdklasse (quarta divisão holandesa), anunciou o retorno de Edwin van der Sar aos campos para jogos oficiais. Pelo menos, neste fim de semana. Aos 45 anos, o atual diretor técnico do Ajax decidiu ajudar o clube em que começou no futebol, graças a uma situação acidental: Mustafa Amezrine, goleiro titular do Noordwijk, lesionou-se. Sem reservas em forma, Van der Sar ofereceu-se ao clube para jogar apenas a partida da próxima rodada da conferência “sábado B” da Hoofdklasse, neste sábado, contra o Jodan Boys.

O interesse pela partida, lógico, disparou após o anúncio: são previstas 2 mil pessoas para assistirem ao fugaz retorno do jogador que mais vezes atuou pela seleção holandesa – sem contar as marcantes passagens por Ajax e Manchester United. Tal interesse (e o comentário do leitor) fazem pensar: num país que gosta tanto de debates, como a Holanda, é curioso ver a unanimidade sobre Van der Sar como o melhor goleiro da história do futebol holandês. Talvez porque o nativo de Voorhout tenha sido o único mais famoso a jogar bem tanto com as mãos quanto com os pés. Porque, desde que a Holanda apareceu no mapa do primeiro nível do futebol mundial, o Futebol Total trouxe a ideia: um goleiro que saiba jogar com os pés é bem mais útil para o time, mesmo que seja inseguro na função básica de um arqueiro (evitar o gol). E aí surgiu a entidade mística do futebol holandês que será abordada aqui: o goleiro seguro… com os pés.

ENTIDADES MÍSTICAS DO FUTEBOL HOLANDÊSo atacante de segunda divisão

Nem sempre foi assim, é verdade. Aliás, se há um estereótipo de goleiro holandês, ele tem mais a ver com a ideia de um jogador até semelhante a Van der Sar: um arqueiro de altura imponente e até certa elasticidade, o que lhe dava ascendência sobre a defesa. Assim foi com Gejus van der Meulen, nas décadas de 1920 e 1930, e com Frans de Munck, nos anos 1950. Ambos foram guarda-valas que caíram em certo esquecimento com o tempo e a ausência de registros visuais, mas tiveram grande valor. O apelido de De Munck (“Zwarte Panter”, a “Pantera Negra”) indica isso.

Após De Munck, outro grande arqueiro fez fama no futebol holandês. Eddy Pieters Graafland foi, indiscutivelmente, o melhor da posição no país em sua época: durante as décadas de 1950 e 1960, impunha tanto respeito que pôde até se dar ao luxo de uma transferência direta entre arquirrivais. Foi do Ajax para o Feyenoord, em 1958, sem perder nada do respeito que impunha. Até hoje, para os mais velhos, “Eddy PG” é considerado o grande goleiro holandês de todos os tempos. Mas cabe lembrar: em todos estes momentos, a Holanda não tinha o menor destaque no futebol mundial. Fosse com De Munck, Van der Meulen ou Pieters Graafland. Por isso, nenhum deles era notado.

Justamente quando a Holanda ganha este protagonismo, nos anos 1970, surge o estereótipo vigente até hoje. Com o fim da carreira de Pieters Graafland, outro goleiro imponente, predominantemente seguro debaixo das traves, despontou como grande candidato a sucessor: Jan van Beveren, do PSV. No entanto, Van Beveren brigou justamente com quem “não poderia” brigar: Johan Cruyff, o destaque maior daquela geração que aparecia. Discreto, o goleiro do PSV se opunha abertamente ao vedetismo, ao ar “blasé” e ao gosto pela polêmica que tinham os protagonistas da Oranje.

Uma lesão às vésperas da Copa de 1974 “livrou” Rinus Michels do incômodo de ter que cortar Van Beveren da equipe convocada para o torneio. Então, surgiam aí os dois representantes do novo estilo de ser goleiro na Holanda. Alguns (?) quilos acima do peso, Piet Schrijvers (Twente) era melhor “goleiro-goleiro”; mas exatamente por saber jogar melhor com os pés do que com as mãos, o já então veterano Jan Jongbloed (33 anos, do hoje extinto FC Amsterdam) foi escolhido como o goleiro perfeito para o estilo da equipe que fez história naquela Copa. Por sinal, repetindo a história de Heinz Stuy, goleiro do Ajax campeoníssimo no início daquela década: bom na saída de bola. Para defender os chutes adversários, nem tanto.

Mas nem Schrijvers nem Jongbloed traziam segurança. Van Beveren jogou mais duas partidas em 1975, mas novamente entrou em conflito com Cruyff. Resultado: mais um jogo pela Oranje, em 1977, e ele largou definitivamente a seleção. Continuou marcando época no PSV (foi o titular na conquista da Copa Uefa 1977/78), mas logo foi viver nova fase nos Estados Unidos, a partir de 1980. Primeiro, jogando, no Fort Lauderdale Strikers e no Dallas Sidekicks. Depois, vivendo: fixou residência em Beaumont, no Texas, até falecer, em 2011. Até hoje, muitos pensam: Van Beveren foi o melhor goleiro da história da Holanda, melhor até do que Van der Sar. Mas não teve chances…

Restou confiar desconfiando tanto em Schrijvers quanto em Jongbloed. Os dois se revezaram na Copa de 1978. Com 37 anos nas costas, Jongbloed sabia trocar passes e até iniciar jogadas, mas nunca foi um goleiro de quem se esperasse muito (suas saídas de gol se assemelhavam mais às de um jogador de linha). Tanto que Schrijvers – fora de forma, mas mais confiável – foi titular na maioria dos jogos disputados naquele Mundial. Só que lesionou-se contra a Itália, na partida que decidiu a vaga na final – e por isso, só por isso, Jongbloed jogou a segunda decisão de Copa em sua carreira.

Pior: os veteranos inconstantes não viam sucessores à altura. Certo, Jongbloed largou a Oranje após a Copa (e seguiu jogando até os 45 anos, quando parou, no Go Ahead Eagles). Mas Schrijvers seguiu como titular pelo início da década de 1980, mesmo com os reflexos cada vez mais abatidos pelo tempo. O porte físico era avantajado a ponto de lhe render o apelido “De Beer van de Meer” (“O urso de De Meer”, referência ao estádio do Ajax), mas que não se contasse com ele para saídas de gol mais arrojadas, que dirá para saídas de bola com os pés.

Só em 1984 o reserva de Schrijvers ganhou constância suficiente para atuar pela Oranje. E Hans van Breukelen tentou levar o estilo do goleiro holandês para outro extremo: embora fizesse apenas o básico no jogo com os pés, Van Breukelen voltou a trazer segurança embaixo das três traves. A ponto de ter sido o melhor da posição na Euro 1988 – até pênalti na final defendeu. Todavia, não só o arqueiro do PSV ficava apagado diante de outros arqueiros melhores na mesma geração (Harald Schumacher, Walter Zenga, Rinat Dasaev), mas também não chegou a marcar época. Muito menos seus reservas imediatos: Joop Hiele, do Feyenoord, e Stanley Menzo, do Ajax.

Com a saída de Van Breukelen, após a Euro 1992, Menzo voltou a trazer o estereótipo de goleiro “mais seguro com os pés do que com as mãos”. Excessivamente elétrico, não durou muito na Oranje. Seu sucessor na equipe nacional, Ed de Goey, seguiu o estilo de Van Breukelen: muito bom goleiro, até, mas nada que impressionasse o mundo. No entanto, quase simultaneamente, surgia Van der Sar. Que tomara a titularidade de Menzo no Ajax, em 1993, e já era reserva de De Goey na Copa de 1994. Não demorou muito para notarem que aquele jovem magrelo era o que o futebol holandês buscava havia tanto tempo: confiável tanto na saída de bola quanto nas defesas.

Iniciou-se o domínio de Van der Sar na seleção holandesa. E ele durou tanto (1995 a 2008) que seu estilo virou o padrão exigido. Porém, nenhum de seus sucessores satisfez e satisfaz. Mesmo que todos saibam jogar até melhor com os pés, ninguém se consolidou ainda. Maarten Stekelenburg, Michel Vorm, Tim Krul, Jasper Cillessen, Kenneth Vermeer, Jeroen Zoet… a todos eles falta a qualidade dupla, no jogo com os pés e com as mãos. O que fez de Edwin van der Sar personagem único, rara unanimidade dentro de campo no futebol holandês. Aos outros, se são bons com os pés, falta algo com as mãos, ainda. Ou vice-versa. Fica a cargo do leitor.

E agora, vamos terminar com isso de “entidade mística”: o próximo fim de semana após este é de PSV x Ajax, na Eredivisie. Já dá para falar novamente de temas atuais.