Nada de novo no front do Campeonato Holandês: Ajax e PSV venceram seus jogos na rodada passada, e a disputa do título da Eredivisie continua(rá) sendo assunto apenas para eles. Bem, pensando melhor, talvez o fim da má sequência do Feyenoord seja uma novidade: o Stadionclub venceu o Utrecht, de virada, fora de casa (1 a 2), e aproveitou as derrotas de AZ e Heracles para voltar à terceira posição da tabela.

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Por sinal, Feyenoord e Utrecht se reencontrarão, no dia 24 de abril, pela final da Copa da Holanda: ambos superaram seus adversários nas semifinais da KNVB Beker, nesta semana. O VVSB, de Noordwijkerhout, até podia fazer história: se superasse o Utrecht na semifinal da quarta passada, seria o primeiro time amador a chegar à final da copa nacional desde que o futebol holandês adotou o profissionalismo. Mas os Utregs salvaram-se do “crime”, fazendo 3 a 0, enquanto o Feyenoord eliminou o AZ.

Sendo assim, a semana do futebol holandês não viveu muitas novidades. De modo que, antes de voltar a falar de coisas sérias, a coluna decidiu agradar seu caro (e raro) público, fazendo mais uma edição das entidades místicas do futebol holandês. Atendendo a um pedido de leitor, nos comentários, ela vai se debruçar sobre mais um tipo curioso de atacante que pulula pela terra das tulipas, dos moinhos e de Carice van Houten: o atacante do Heerenveen.

É esquisito. Deve ser a água disponível na Frísia, uma das províncias dos Países Baixos – província, aliás, que tem um dialeto próprio. No entanto, é uma tendência histórica, que se tornou mais forte com o passar do tempo: basta o cidadão ser atacante e vestir aquela camisa listrada em azul e branco, com folhas de lírio vermelhas (pois é, aqueles enfeites na camisa do Fean não são corações!), que desata a fazer gols aos borbotões.

Basta dizer que, nas últimas dez temporadas, o clube de Heerenveen é o que mais teve goleadores no Campeonato Holandês (três vezes). Mais do que isso: em toda a história da divisão de elite no país, fora o trio de grandes, o “Orgulho da Frísia” é a agremiação que mais vezes teve artilheiros (quatro). O mais curioso: esse fenômeno é recente. Ainda assim, é preciso mencionar os valorosos precursores que o “Hearrenfean” (Heerenveen em frísio) teve na tarefa de colocar a forma esférica de couro no filó do adversário.

O mais importante deles dá nome ao estádio do clube. É, aliás, um dos grandes ídolos da fase amadora do futebol holandês. Abe Lenstra nasceu (1920), cresceu, viveu e morreu (1985) em Heerenveen. Além de ser bom no futebol, Lenstra também praticava atletismo e patinação. Só que seu destino foi mesmo o gramado: tão logo foi descoberto pelo clube, Abe virou atacante, estreando pelo Heerenveen aos 15 anos de idade. Habilidoso com as duas pernas e dono de potente chute, foi o destaque no eneacampeonato do clube na divisão norte do futebol holandês (de 1940/41 a 1950/51).

De quebra, nas duas vezes (1946/47 e 1947/48) em que o Heerenveen foi vice-campeão holandês, na fase amadora – os vencedores das divisões regionais disputavam um hexagonal final -, Lenstra também foi o destaque. Chegou a receber propostas profissionais do futebol italiano (Internazionale e Fiorentina), mas recusou-se a deixar o clube do coração. Não impressiona que Lenstra tenha sido homenageado com o estádio, nem que seu apelido seja “Us Abe” (em frísio, “nosso Abe”). É, até hoje, o maior goleador que o Heerenveen já teve: pelos dados do clube, foram 523 gols em 454 jogos.

De quebra, Abe já tinha lugar cativo na seleção holandesa. Jogou pela Oranje entre 1940 e 1959, com boa marca: 33 gols em 47 jogos. É o sexto maior goleador da equipe laranja, empatado com Johan Cruyff. E virou ídolo no país. A ponto de ter motivado a criação de um personagem dos quadrinhos na Holanda: “Kick Wilstra”, de autoria de Henk Sprenger, encantou as crianças holandesas na década de 1950, sendo nomeado com uma fusão dos três craques batavos da época (KICK Smit, Faas WILkes e Abe LenSTRA).

Mas Abe Lenstra foi único na história do clube. O passar do tempo foi delineando o estereótipo do “atacante do Heerenveen”: alto e corpulento, tendo na finalização a sua maior qualidade (cá entre nós: às vezes, a única qualidade), nem sempre dando certo fora dali. Nos anos 1970, surgiu no clube Kees Kist, que depois virou ídolo – e até goleador da Eredivisie – no AZ; a década de 1980 teve em Jan de Jonge o grande destaque no ataque do Heerenveen; mas seria a década de 1990 que nos traria o início desta história que vincula intimamente os atacantes do alviazul com as redes.

Primeiro, entre 1994 e 1997, houve Jon Dahl Tomasson, que depois teve relativo sucesso no Feyenoord e no Milan. Mas em 1997 surgiu um novo prodígio. O clube comprou do Den Bosch um atacante com certa margem de evolução: Rutgerus Johannes Martinus van Nistelrooy – isso, o Ruud (que você vê na foto que abre este post). Pois bem: na temporada 1997/98, Van Nistelrooy fez 13 gols em 31 jogos. Nada assombroso, em números. Mas a técnica que mostrava na área impressionou a ponto dele já estrear na seleção holandesa sub-21, em 1998. Tão logo aquela temporada acabou, o PSV o trouxe. E o resto é história, porque como o intrépido leitor sabe, Van Nistelrooy teve carreira próspera em colocar a bola “na caixinha”.

História semelhante aconteceu com um jovem da cidade de Drempt, vindo do AGOVV Apeldoorn (fora emprestado pelo PSV). Em 2004, chegou ao Heerenveen Klaas-Jan Huntelaar. E ele não precisou de muito tempo: já na Eredivisie 2004/05, foram 17 gols pelo clube. Mais: na temporada 2005/06, seu desempenho no primeiro turno foi assombroso a ponto do Ajax já o contratar no meio da temporada, em janeiro de 2006. E daí Huntelaar seguiu para uma carreira que é menos do que prometeu um dia, tem até mais sorte do que talento, mas que não deixa de merecer elogios.

Huntelaar brilhou com a camisa cheia de lírios do Heerenveen
Huntelaar brilhou com a camisa cheia de lírios do Heerenveen

Mas o Heerenveen precisava de alguém para ser seu “atacante”, após Huntelaar. E naquele 2006, chegou ele: Anton… ops, Afonso Alves, taxi… ops de novo, Afonso Alves! O brasileiro veio do Malmö-SUE para impressionar a Holanda. Na temporada 2006/07, viveu o auge de sua estranha carreira: em 31 jogos, 34 gols! Goleador supremo da Eredivisie daquela temporada, Afonso teve seu apogeu contra o Heracles Almelo, pela sétima rodada do Campeonato Holandês 2007/08: no 9 a 0 dos frísios, fez sete gols, estabelecendo o recorde de tentos de um jogador numa única partida, na história do torneio. Então, foi convocado para a Seleção Brasileira. E, tempos depois, até brigado com o clube, foi para o Middlesbrough-ING. Sabe-se o que deu.

Seja como for, o tempo passa, o tempo voa, e os atacantes do Heerenveen continuaram numa boa. No meio de 2010, Bas Dost chegou, vindo do Heracles. E na temporada 2011/12, foi a vez dele ter o seu lugar ao sol pelos “Superfriezen”: 32 gols em 34 jogos! Tão logo a temporada acabou, veio a chance no Wolfsburg, para seguir com a carreira que até hoje não explodiu como se espera.

E para substituir Dost no ataque, foi contratado o islandês Alfred Finnbogason. Mudou o atacante, não o saudável hábito de balançar as redes pelo Holandesão: Finnbogason fez 24 gols em 33 jogos, em 2012/13, e se notabilizou de vez em 2013/14: 29 gols em 32 jogos. Goleador daquela Eredivisie (e maior goleador histórico do Heerenveen na competição – 53 gols), o islandês foi para a Real Sociedad-ESP. Já foi emprestado duas vezes, a Olympiacos-GRE e Augsburg-ALE, mas ainda espera a volta da boa forma dos tempos que passou com a camisa listrada em azul e branco (e as folhas de lírio, não se esqueça delas!).

Finnbogason saiu, e entrou o alemão Mark Uth, voltando de empréstimo ao Heracles. E mesmo sem ter sido artilheiro na temporada passada, Uth não fez feio: 15 gols. Já deu para garantir um lugar no Hoffenheim de sua pátria natal. Agora, o Heerenveen tenta se virar com Mitchell te Vrede, vindo do Feyenoord. Não impressionou pela qualidade, mas convém não desprezar. Afinal, talvez um dia a água da Frísia ajude a formar mais um grande goleador (pelo menos no Campeonato Holandês). Ou talvez a camisa do Fean tenha poderes secretos, nunca se sabe… bem, na semana que vem a coluna volta a falar de coisa séria. Ela promete.