Você que ainda não aceitou o fim da série “Entidades Místicas do Futebol Brasileiro”, fique ligado na segunda temporada. Agora, falaremos sobre as lendas do futebol europeu. Este texto foi inicialmente enviado na Newsletter da Trivela, na última sexta-feira. Assine agora e não perca nenhuma edição, toda sexta no seu e-mail!

Pode ser um atacante que emendou dois campeonatos como artilheiro ou aquele ponta rápido e habilidoso. Um meia que não participa tanto do jogo, mas decide com dois passes preciosos. Um volante carregador de piano clássico que desarma tudo que vê pela frente. Em comum, ele tem que ter qualidade suficiente para se destacar no futebol brasileiro e chamar a atenção de clubes europeus de relativa importância. No entanto, uma vez no estrangeiro, não consegue o mesmo protagonismo. Vira reserva. É encostado. É emprestado. Diante da incapacidade de compreender por que aquele garoto que ia mudar o mundo não consegue nem dez minutos de bola, o diagnóstico é que ele está sendo injustiçado.

Quando excluímos tudo que é impossível, o que resta, embora improvável, tem que ser verdade. E é impossível que o campeonato daquele país que nunca ganhou Copa do Mundo – ou só uma ou duas – seja, em alguns aspectos, mais exigente que o futebol pentacampeão mundial. Ou que um inglês duro, mas cumpridor, seja coletivamente mais importante do que o nosso talento indolente. Ou que alguns times não tenham titulares absolutos e, em alguns jogos, o craque sentará no banco de reservas. A única explicação é que o treinador não sabe apreciar a ginga do brasileiro. Quer saber? Na verdade, ele não sabe nada de futebol.

Ele, no caso, o perpetrador da injustiça, pode ser algum diretor, presidente do clube ou o técnico. Geralmente é o treinador, linha dura, disciplinador, que se transforma em uma sub-entidade mística: o técnico que não gosta de brasileiros. O que é curioso considerando que, apesar de não saber nada de futebol, seu currículo tem trabalhos em que montou times vencedores com brasileiros protagonistas. Mas não vamos deixar que os fatos atrapalhem as lendas.

O que escapa da percepção geral são os bastidores da tragédia grega (ou russa, ou espanhola, ou alemã ou inglesa) do brasileiro injustiçado. Por trás dos panos, vários motivos podem ajudar a explicar a falta de prestígio no novo clube europeu. Um deles, o mais simples, é que o futebol brasileiro, com todas suas idas e vindas, desorganizações, fragilidades e carências, comporta destaques que não têm potencial e nem bola para repetir as atuações no primeiro nível mundial.

E, como já foi falado por vários atletas, a exigência tática do futebol europeu é totalmente diferente. Tem menos espaço para a liberdade criativa anárquica do lateral esquerdo que aparece na ponta direita. Se a adaptação a uma nova realidade estratégica é difícil, inserir-se em uma cultura distinta da brasileira pode ser ainda mais. Tanto no trato com técnicos dirigentes e companheiros de equipe quanto em aspectos da vida pessoal, como alimentação, inverno rigoroso ou opções de lazer, que trocam o pandeiro por guitarras elétricas.

Nem todo mundo tem a disposição de encarar as pedras pelo caminho em nome do sucesso profissional. Às vezes, a felicidade fala mais alto e isso não é nenhum demérito. Mas, ao retornar ao Brasil, ganhando três ou quatro vezes a mais do que antes de sair, a explicação do injustiçado não é bem essa. Costuma conter uma conspiração envolvendo o mais alto comando da Interpol para favorecer jogadores europeus em detrimento de jogadores brasileiros. O treinador recebe o tratamento de um vilão de desenho animado, cuja grande missão na terra é tornar a vida do nosso herói um inferno. Quando, às vezes, um simples prato de arroz e feijão bem temperado resolveria o problema.