O texto abaixo foi divulgado inicialmente na newsletter da Trivela, no dia 07/08. Assine agora e não perca nenhuma edição, toda sexta no seu e-mail!

Salve, salve, amigos da Trivela! Como vocês estão? Aqui estou mais um dia, sob o olhar sanguinário do vigia (nosso vigia chama Cícero e até ajuda para não ter trânsito aqui na rua, é fera). Quero, antes de tudo, agradecer a participação de vocês nesta nossa série de entidades místicas do futebol brasileiro. Depois do camisa 10 clássico e do lateral que não sabe marcar, é a vez de darmos vida a mais um desses personagens fantásticos.

A entidade de hoje é uma figura emblemática, mal visto por grande parte dos torcedores, que também são os primeiros a pedir por ele quando o time está mal, especialmente na defesa. Basta tomar um gol com toques pelo meio que vem a corneta: “Falta alguém ali no meio que marque. Não dá para ter um meio-campo assim!”. Seja na seleção, seja nos clubes, dos times mais técnicos as mais toscos, o volante brucutu parece sempre ter um lugarzinho. Porque mesmo os que mais falam sobre ter um meio-campo que jogue, que pense, que tenha técnica e habilidade, basta uma derrota para a crítica vir. “Falta alguém que marque, equilibre o meio”. É ele: o volante brucutu.

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Este tipo de jogador é o responsável por expressões consagradas no rádio esportivo brasileiro como “cada machadada, uma minhoca” ou “ele não perde a viagem”. É aquele jogador que divide todas – às vezes pega até a bola. Um tipo de jogador que normalmente é líder em estatísticas de desarmes, mas que não consegue fazer um passe mais longo que o próprio braço. É aquele jogador que passa meses sem dar um chute no gol e anos sem balançar a rede. Quando sai um gol dele, a torcida até faz graça. É um símbolo de um futebol viril, que não deixa de dar um tapa na orelha (ou algo um pouco pior) no adversário que for mais folgado. É aquele tipo de jogador que normalmente é muito valorizado em disputa de Copa Libertadores.

É uma espécie de patinho feio do futebol. Porque mesmo que ninguém diga abertamente, mas ele é sempre um dos mais pedidos, um dos mais queridos e frequentemente cai nas graças da torcida. É aquele que grita, xinga, marca. Alguns técnicos não conseguem montar um time sem ele. Basta um técnico da seleção colocar uma meiúca com dois volantes leves e técnicos que logo vem a crítica que falta “pegada” no meio-campo. Afinal, se o lateral não marca, alguém tem que marcar, né?

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Ele é uma espécie de complemento a outras entidades místicas, como o camisa 10 clássico (que precisa fazer tudo, mas não marca) e que pode cobrir os laterais que não sabem marcar. Um volantão, pegados, mordedor de tornozelo, aquele que entra em campo para destruir, recordista de cartões do time (a não ser que o Luís Fabiano ou o Kléber Gladiador estejam na sua equipe). É aquele cara especialista em fazer faltas para matar contra-ataques, um totozinho de leve, um puxão de camisa, um empurrão nas costas…

Alguns até são injustiçados. Muitos dos volantes que ganham a fama de brucutu não são toscos que não sabem passar a bola, mas assumem um papel tático de jogador de destruição por um pedido do técnico ou por uma necessidade do time. Dinho, ex-Grêmio, que ilustra a nossa newsletter, é um desses. É um volante brucutu por essência, mas estava longe de ser ruim com a bola nos pés. Podemos dizer o mesmo de jogadores como Ralf ou Luiz Gustavo, que fizeram esses papéis no Corinthians e na seleção brasileira, respectivamente, porque era o que se precisava deles naqueles times.

O volante brucutu é uma espécie em extinção no mundo. É mais do que uma característica, é um papel tático, é uma função, é um destino. O futebol de alto nível cada vez dá menos espaço a esse tipo de jogador. Mas o Brasil é um país complexo, que adora olhar para o meio-campo da Alemanha, sem um “camisa 5” autêntico e desejar isso, mas secretamente ter como ídolo esse tipo de jogador. Nós adoramos falar sobre como o futebol brasileiro precisa de um meio-campo que jogue, como vemos nos melhores times do mundo, mas no fundo, nós amamos esse tipo de jogador.

Não foi a entidade mística que você sugeriu? Calma que pode ser na semana que vem. Quer sugerir outro? Pode mandar que a gente quer te ouvir! Nosso e-mail (redacao@trivela.com), Facebook e Twitter está esperando por você =)

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