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Os anos 1990 consagraram uma formação tática baseada no 4-4-2. No Brasil, passamos a chamar de “quadrado” do meio-campo: dois volantes defensivos e dois meias ofensivos. Mesmo nos tempos de 4-3-3 com dois meias, era comum ter um meio-campo mais organizador e um mais meia-atacante.

Com o 4-4-2 dos anos 1990, as funções ficaram mais definidas. Quem marcava bem era volante; quem atacava bem era meia. Vez ou outra aparecia uma figura que não era nem tão bom marcador para ser volante nem tão habilidoso para ser meia. Com isso, surgiu mais uma entidade mística do futebol brasileiro: o terceiro homem de meio-campo. E ela continua nos gramados até hoje.

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Em geral, o terceiro homem de meio-campo se encaixava no esquema como um segundo volante mais habilidoso, armador. Como não era um marcador muito firme, muitas vezes era improvisado como meia ou assumia essa função durante o jogo. Outras vezes, quando estava jogando como meia, era recuado para a volância por causa da pegada, para dar a famosa “leveza ao meio campo”. O nó é que ele não desempenhava nenhuma dessas funções muito bem. Era um híbrido.

Quando há um jogador desses no elenco, e ele tem técnica, os técnicos não titubeiam. Eles dizem que esse jogador precisa atuar “protegido” para render. Para isso, o professor coloca dois volantes atrás e, pimba: este jogador vira o “terceiro homem” de meio campo.

Em tese, é uma boa ideia. Ter um armador, um jogador que não é tão atacante, que não chega tanto de cabeça na área (proj. Muricy), mas que dá qualidade à faixa central do gramado, olha, é ótimo. Ainda no mundo ideal, o terceiro homem de meio-campo é aquele jogador que dá a ilusão de TOQUE DE CLASSE. Só que o mundo ideal não existe. O terceiro homem não marca, não cria, não organiza, não ataca, não marca gols. Mas “bate bem na bola” e “é muito técnico”. Bingo!

Um exemplo disso era Martinez, que passou por Guarani, Palmeiras, Cruzeiro e Náutico, entre outros tantos clubes no futebol brasileiro. Canhoto, surgiu como um meia de criação, foi recuado para volante, mas também não era um marcador tão firme. Então, o meio-campo era armado para que ele fosse um terceiro volante ou um meia recuado – ou um pouco dos dois. Na teoria, um conceito de modernidade, de um jogador que marca e ataca. Na prática, um jogador que marca pior que um volante e ataca pior que um meia. É um homem à procura de um lugar. Martinez só rendeu quando o time jogava em torno dele, como o Náutico de 2012 e 2013.

Rosinei, cria do terrão do Corinthians, também foi um deles. Meia de origem, não conseguia render tão bem e acabou recuando para volante. Também não era a sua melhor posição. Acabou vestindo a camisa do famoso terceiro homem de meio-campo, podendo não atacar tão bem como meia e não defender tão bem como volante. Funcionou tão bem quanto uma mobilete numa rodovia: é a motor, mas não rende na estrada.

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Teve também o caso de Fabiano, que surgiu no São Paulo e rodou por diversos clubes, como Santos e Atlético Mineiro, e esteve na seleção durante a Olimpíada de 2000. Gostava de vestir a camisa 7, número que usou nos Jogos de Sidney. Como meia, criava poucas chances. Como volante, não marcava tão bem. O resto você já sabe: acabava tendo que atuar como terceiro homem do meio-campo. Sem marcar e nem criar tão bem (virou um mantra…)

E como não lembrar de Corrêa, que atuou por Palmeiras, Flamengo e Atlético Mineiro? Era sempre lembrado por ser um jogador que “batia bem na bola”, “técnico”, mas que deixa o time exposto se joga de volante e que não cria nada quando joga como meia. Vira o tal terceiro homem de meio-campo, que não tem a responsabilidade de fazer nenhuma das duas coisas. E não faz mesmo – exceto quando, ao bater bem na bola, faz um golaço e justifica toda a euforia em torno da sua técnica (palmeirenses vão sempre lembrar do seu golaço de falta contra o Fluminense, em 2005, que carimbou a ida do clube à Libertadores).

Poucos times se beneficiam dos terceiros homens. Mas, quando eles chegam durante a janela de transferência, dão um baita ânimo à torcida. Afinal, repita comigo no replay: “Eles são técnicos e batem bem na bola”. O terceiro homem é um talento em busca de uma função.

Um agradecimento a todos os leitores que enviaram esta sugestão! Continuem mandando! 😉

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