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O filho tem só 13 anos, mas já saiu matéria em programa de televisão sobre o seu talento e como um determinado time grande está fazendo esforços para mantê-lo. Capas de jornais do exterior já o estampam em suas capas o chamando de “fenômeno” ou algum adjetivo do tipo para descrevê-lo. Nesses momentos, aparece uma figura bastante comum: o pai do garoto.

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Quando um jovem como esse, de 13, 14, 15 anos pinta como uma promessa, é comum que a família abandone tudo para viver em função do garoto. Alguns casos, o jogador, mesmo com essa idade adolescente, já recebe salário maior que os pais por ter o rótulo de promessa na testa. E o pai do jogador vê o próprio sonho realizado pelo seu filho. E, assim, passa a gerenciar a carreira do garoto, cuidar daquele salário de alguns poucos milhares de reais e dar uma grana ao moleque como mesada.

O pai da promessa gosta de aparecer. Dá entrevistas contando causos do garoto de quando era criança, que ele gostava de bola desde sempre e que “sempre acreditou que ele seria jogador” (muito embora ele ainda não seja). É nessas entrevistas também que ele conta sobre o assédio dos clubes do exterior, que oferecem mundos e fundos à família. E, claro, em pouco tempo começa a reclamar do tratamento que o clube dá ao seu filho. Ele quer mais dinheiro, quer que o seu filho suba para o profissional, quer tudo e mais um pouco, de preferência com champanhe porque ele é chique, bem.

A pressão é tanta que o clube acaba não renovando o contrato e o garoto acaba deixando a equipe. Vai para algum clube meia boca do exterior, como uma promessa de craque. Lá, o pai do jogador revelação também resolve agir, porque o técnico, que claramente não gosta de brasileiros, não o coloca para jogar.

O garoto volta ao Brasil para algum time da Série B, mas o pai continua com uma empáfia que parece que o garoto veio da base do Barcelona. A atuação do pai é criticada pelos dirigentes, pelos colegas do garoto e até pelo menino mesmo, que começa a achar que o pai dele “enche o saco”. Sim, porque se nas entrevistas o pai é um mala, com o garoto também é: ele cobra isso e aquilo, como se entendesse mais de futebol que qualquer um. O garoto sente a pressão do pai, do treinador e do clube, que, por causa do pai, passou a pagar mais dinheiro do que ele realmente vale.

Aí que o pai do jogador às vezes é pego entornando o pote de mel, com uma pequena irregularidade aqui, um delito leve ali, um pedala na Receita Federal acolá, uma grana embolsada em uma negociação, uma sonegação marota e assim caminha a humanidade. Em passos de formiga e sem vontade. Até que o filho, que se tornou uma eterna promessa, chega ao 25º clube em cinco anos de carreira profissional. Agora, com barba na cara, ele ganha menos do que quando tinha 15 anos e era considerado um fenômeno. O pai reclama de uma jogada que ele fez em um clube pequeno, jogando um estadual irrelevante, e ele diz: “É tudo culpa sua”. E é mesmo.