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Depois da edição do camisa 10 clássico na semana passada, nós resolvemos criar uma série: entidades místicas do futebol brasileiro. Escreveremos sobre algumas delas nas próximas semanas. Tem alguma sugestão? Mande para nós por e-mail (redacao@trivela.com), Facebook ou Twitter. A edição de hoje tratará de uma que você conhece: o lateral que não sabe marcar.

O que é um bom lateral no Brasil? A primeira coisa que se pensa é que ele tem que apoiar bem. A cobrança é pra isso. Um lateral que guarde posição e feche o seu lado na defesa dificilmente chegará aos profissionais se não tiver um bom desempenho ofensivo. Lateral defensivo? Pode esquecer. Não vinga.

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Isso tem a ver com o que se cobra na formação do jogador, mas também com o que a imprensa cobra que os laterais façam. Basta olhar nas avaliações dos jogadores naquelas notas de jornais ou sites: “Tímido no apoio. 5,5”. Mas espera aí, o lateral marcou bem o adversário, fechou os espaços e não apareceu muito no ataque e por isso ganha nota baixa? Sim, é isso.

Quantos casos de laterais que vemos chegar ao profissional e são logo taxados de: “Bom jogador, mas marca mal”? É só pegar os exemplos que temos atualmente. Marcos Rocha, do líder Atlético Mineiro, recebeu muitas críticas durante a carreira por não ser um bom marcador. Ao mesmo tempo, se cobrava dele o apoio intenso pelo qual ele se caracterizou. A crítica à pobreza defensiva é constante, mas se o lateral for defensivamente muito bom e “tímido” no ataque, não tem vez. Vai entender… E nós tentamos.

Quando um jogador sobe da base e atua na lateral, a primeira crítica normalmente é essa: não sabe marcar. Auro, do São Paulo, brilhou por seleções de base e nos times das categorias de base do clube. Quando chegou ao profissional, logo foi taxado como um lateral que não sabe marcar e se cogitou até a mudança de posição para jogar mais à frente. Mas ele se destacou justamente por ser um lateral ofensivo, rápido, habilidoso, que chegava bem ao ataque e fazia assistências para gols. No profissional, é cobrado que ele marque bem. Desde que continue atacando bem.

Há de se perceber uma mudança tática também. Os laterais brasileiros ganharam muita liberdade a partir do momento que os pontas deixaram de ser usados, entre o final dos anos 1980 e início dos 1990. Quando o 4-4-2 com dois volantes e dois meias se consagrou no Brasil, foi preciso criar alternativas de jogo pelos lados do campo – sim, eles mesmos, os laterais. Só que o mundo voltou a usar jogadores pelos lados, o futebol ficou com espaços mais reduzidos e os laterais – vejam só – precisam marcar, porque muitos times resgataram os pontas ou jogadores de ataque pelos lados do campo. E aí ouvimos que lateral brasileiro não sabe marcar.

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Cafu e Roberto Carlos surgiram como laterais que se destacavam ofensivamente. Cafu, inclusive, jogava como meia no São Paulo de Telê Santana – no Mundial de 1992, ele é o camisa 11 que ajeita a bola para Raí marcar o gol do título naquela falta ensaiada. Na Europa, tornou-se também um marcador. Roberto Carlos se consagrou pelo seu chute forte e preciso, mas não ficou 10 anos como titular do Real Madrid só por isso. Tornou-se um grande marcador também, uma qualidade que não era muito ressaltada na sua carreira. É, talvez, o melhor lateral esquerdo brasileiro de todos os tempos, um dos melhores da história.

Cobramos que os laterais apoiem o ataque, apareçam nas pontas, cruzem bem, sejam técnicos, mas também sejam grandes marcadores, mesmo subindo da base e os formando como jogadores ofensivos. No Brasil, raramente se usa um zagueiro como lateral. Em outros países, como na Argentina, por exemplo, é comum que os laterais também saibam jogar como zagueiros. São defensores, antes de tudo. No Brasil, isso é raro e, em geral, os zagueiros que jogam como laterais são criticados pela falta de velocidade e… Por não serem ofensivos. Pois é.

Laterais que não sabem marcar, mais uma instituição mística do futebol brasileiro.