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Salve, salve, amigos da Trivela! Tudo bem com vocês? Aqui, Felipe Lobo que escreve e quero, antes de tudo, agradecer às muitas contribuições para a nossa série sobre entidades místicas do futebol. Vocês são fantásticos, cheios de grandes ideias que anotamos com carinho. Vocês verão algumas duas suas ideias por aqui nas próximas semanas, porque teremos que estender a série para incluir as ótimas sugestões que vocês nos mandaram. Responderemos a elas uma por uma. E podem continuar mandando! Nosso e-mail (redação@trivela), Facebook e Twitter espera por vocês, que são os melhores leitores do mundo.

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Só você que me ilumina, meu pequeno talismã
Como é doce essa rotina de te amar toda manhã
Nos momentos mais difíceis você é o meu divã

“Por que ele não é titular? Sempre que ele entra vai bem”. Quantas vezes você já ouviu isso falando de um jogador? Há muitos exemplos, no passado e no presente. O talismã normalmente é um jogador que não tem muita qualidade para ser o titular do time. Chega aquele momento que ele começa a entrar, marcar seus golzinhos mesmo com pouco tempo em campo e se torna um xodó da torcida. Se cria uma ilusão que aquele jogador é melhor do que ele é, porque consegue converter em gols ou boas jogadas os poucos minutos que entra em campo.

O Corinthians teve, durante muito tempo, Tupãzinho, um jogador histórico do clube. Autor do gol no jogo decisivo contra o São Paulo, no Brasileirão de 1990, acabou tornando-se reserva. Mas ficou no clube por longos seis anos, até 1996. Quase sempre reserva. Ele se tornou o maior talismã do time. Durante anos, foi um jogador emblemático que vinha do banco de reservas para “colocar fogo no jogo”. Em geral, isso não funcionava. Mas a imagem era que funcionava, porque algumas vezes ele marcava gols, ou fazia a jogada do gol. E aí, a mística se torna maior que o jogador.

O jogador talismã é como o horóscopo que se lê de manhã. Se errar, ninguém se lembra. Mas se acertar, a mística ganha ares de premonição. “Sempre que ele entra, resolve”. E a memória afetiva cria a imagem de um jogador que resolvia, mas que na verdade tinha mais carisma do que qualquer qualidade técnica. Como titular, Tupãzinho nunca se tornou um atacante que realmente se destacava. Não era um jogador cheio de recursos técnicos, estava longe de um grande craque. Mas tinha o carinho da torcida e a mística.

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Caio, nos tempos de Flamengo, comemora gol observado por Romário
Caio, nos tempos de Flamengo, comemora gol observado por Romário

O Flamengo teve uma relação parecida com Caio, atualmente conhecido como Caio Ribeiro, comentarista da Globo. Vestindo a camisa 16 – em uma época que os titulares sempre jogavam com numeração de 1 a 11 -, Caio entrava nos jogos e ganhava a imensa massa rubro-negra com os gols que marcou em finais de jogos e com boas atuações – mas só quando vinha do banco.

Caio tinha sido jogador de seleção (poucos jogos), com passagem pela Europa (um fracasso) e grandes times (sem se destacar mesmo por nenhum). Tinha suas qualidades técnicas, mas nunca pareceu suficiente para ser o titular do Flamengo. Mas entrando durante o jogo, fazia a alegria do povo que frequentava a geral e comemorava com o atacante. Mesmo não tendo feito tantos gols assim. Foram só 17 em 91 jogos pelo Flamengo. Os gols que marcou na final da Copa Mercosul, em 1999 – dois no primeiro jogo, no Maracanã, e um no jogo de volta, no Parque Antártica – deixaram a impressão que Caio era sempre decisiva quando entrava no segundo tempo.

Euller, no Palmeiras de 1999, também viveu uma situação assim, entrando no segundo tempo dos jogos para “colocar fogo no jogo”. No Palmeiras atual, Cristaldo é o xodó, que entra no segundo tempo das partidas, marca gols e acaba caindo nas graças dos torcedores. Mesmo que, quando comece jogando, não consiga ter atuações de destaque. Os gols nem são tantos, mas assim como a temperatura real nem sempre é a mesma da sensação térmica, o jogador talismã costuma ter uma mística muito maior do que o seu real desempenho em campo. Talismã mesmo só na música do Elson do Forrogode (de onde tirei os versos que abrem o texto).

Nós gostamos da mística porque ela não é racional. Nem sempre há motivos para gostar daquele jogador, mas ele nos lembra uma sensação deliciosa de fazer um gol no final do jogo que ele entrou, uma sensação que isso irá acontecer de novo. Um componente de fé. E futebol tem muito de fé. Uma fé que por vezes é cega.

Embora seja um meio cercado de superstições, o futebol é laico.