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Seu time anda mal das pernas. Aquela 14ª colocação não é condizente com o tamanho do clube, e a fase poderia ser muito melhor se a criação de jogadas fosse melhor (ou se ela ao menos existisse). Pressionados por contratações, os dirigentes buscam nomes disponíveis no mercado brasileiro, mas não encontram nada. O jeito é recorrer aos países vizinhos. Afinal, assim como nós, eles também sabem produzir jogadores de qualidade, e nossa economia normalmente melhor que a deles nos possibilita oferecer salários maiores aos destaques.

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Então ele chega. Nunca despertou o interesse de grandes clubes europeus, mas já passou pelas seleções de base de seu país e brilhou em algum Apertura por aí, deu umas assistências, fez uns golaços. O suficiente para chegar com status de salvador ao seu clube. Ele, o gringo craque que ninguém nunca viu jogar.

É um cara que joga no terço final do campo. Supostamente, é ofensivo, veloz, tem um bom passe, bons dribles… Falta não é sua especialidade, mas ele é gringo e é craque, provavelmente consegue guardar uma ou outra cobrança.

Logo que as especulações sobre sua chegada começaram a pipocar, você já foi procurar seu nome no Google. Os números não empolgam: ele não fez nem cinco gols no Campeonato Argentino passado, e as assistências também não são nada demais. Hora de ir para o Youtube. Fiel a seu clube, você faz o esforço de tentar ignorar a música ruim de fundo e se empolga com uma corrida aqui, um drible ali e aquele golaço, na gaveta. Parece que é craque mesmo.

O gringo craque pode não ter conseguido uma chance em um grande clube antes, mas talvez seja por falha dos olheiros dessas equipes. Ainda bem que o seu clube achou. Vai poder usufruir de seu futebol por uns dois anos e depois conseguir a maior nota que o clube formador não soube conseguir.

Então o gringo craque é relacionado pela primeira vez para um jogo. Mais um empate chato sem gols vai se desenhando, a partida já passou da metade do segundo tempo, e todo o mundo começa a cantar o nome do recém-contratado. Ele entra, toca uma ou duas vezes na bola, mas não faz nada. No jogo seguinte, mais uma vez é pedido pelos torcedores, sai do banco e não altera o jogo.

O torcedor então argumenta: “É que ele está tendo pouco tempo em campo, precisa jogar os 90 minutos”. A chance no time titular chega, de fato o gringo craque apresenta um futebol um pouco melhor, mas nada que justifique o apelido de “Novo Fulano” que recebeu.

Os primeiros jogos ruins são sempre relevados. Ele precisa se acostumar ao futebol brasileiro, se encaixar melhor no esquema do treinador. Não, o problema é o treinador! O time está bagunçado, como é que o futebol do cara vai deslanchar?

O time está arrumadinho? Tudo bem, é o posicionamento que está errado. Se o gringo craque vem sendo escalado pela ponta, na Argentina ele jogava pelo centro. Colocado no centro? Ô, professor, ele rende melhor pela ponta, descendo em diagonal!

O tempo passou, o gringo craque ainda está longe de render o que dele se esperava, e a torcida começa a perder a paciência. E é justamente quando ela está a ponto de se desiludir completamente que ele vai lá e anota aquele golaço marcante. Confiança renovada para mais alguns meses de decepção.

O gol salvador de reputação não volta a aparecer, e a torcida pede um chá de banco para o gringo craque. Depois de alguns jogos, o técnico acata a demanda popular e dá a vaga de titular para aquele meio-campista reserva que veio de um time do interior. Tão ruim quanto o gringo, mas que em algum momento pareceu ser uma opção melhor do que aquele enganador. O substituto em nada muda a equipe, e o torcedor se vê sem alternativas, senão esquecer a primeira desilusão com o gringo e pedi-lo de volta no time. Ele é o “Novo Fulano”, não é? Vai que agora deslancha de vez?!

Ele nunca deslancha, afinal não era craque coisa alguma. Havia um motivo pelo qual ninguém o havia visto antes. Com a paciência de comissão técnica, torcedores, dirigentes e imprensa esgotada, o gringo craque vai jogar na Série B ou encontra outro time em algum outro país na América do Sul. E não é que é capaz de ele aprontar contra o seu time em uma fase de grupos da Libertadores?