No último sábado, ocorreu a final da AFC Cup 2013, a segunda divisão dos torneios asiáticos, na Cidade do Kuwait, capital daquele país. Sem muita surpresa, estiveram em lados opostos dois times do mesmo país, Al Qadsia e Al Kuwait, que venceu por 2 a 0 e ficou com seu terceiro título da competição – bicampeão consecutivo.

De fato, o melhor time da AFC Cup 2013 foi o Al Kuwait, que liderou sua chave na fase de grupos, atropelou nas quartas a surpresa do torneio, o New Radiant (Ilhas Maldivas), com vitórias de 7 a 2 e 5 a 0, e nas semifinais não tomou conhecimento do East Bengal (Índia), comandado pelo técnico brasileiro Marcos Falopa, fazendo 7 a 2 no placar agregado.

Pena que o Al Qadsia não pôde contar com o atacante kuwaitiano Bader Al-Mutawa, artilheiro do time na AFC Cup, com nove gols, e ganhador do prêmio de atleta mais valioso da competição. Ele compensou na entrevista: “Tomara que possamos jogar a Liga dos Campeões, pois o futebol do Kuwait é bom e merece ter a chance de disputar um torneio de elite”.

Perda de status

O Kuwait já jogou a maior competição de clubes da Ásia, entre 2004 e 2008. A partir daí, o país não conseguiu mais cumprir os critérios da Confederação Asiática de Futebol (AFC) para participar do torneio e teve de se contentar com a AFC Cup. E os kuwaitianos já devem estar cansados de se dar bem na segunda divisão asiática…

A partir de 2009 – cinco edições –, pelo menos um time do Kuwait disputou o título da AFC Cup. No ano de estreia, o Al Kuwait venceu o Al Karamah (Síria), mas em 2010 o Al Qadsia perdeu o título para o Al Ittihad Allepo (Síria), nos pênaltis. Em 2011, o Al Kuwait foi superado pela surpresa Nasaf Qarshi (Uzbequistão), mas não deu chance aos adversários nas duas temporadas seguintes: 4 a 0 sobre o Arbil/Iraque (2012) e os 2 a 0 diante do Al Qadsia. Mas por que tanto domínio não reflete na promoção dos clubes do Kuwait para a LC da Ásia?

Exigências

A Confederação Asiática possui critérios que definem se um país pode jogar a Liga dos Campeões da Ásia e quantas vagas terá. São 11 categorias, cuja valoração máxima é de 1.000 pontos. O mínimo para alcançar uma vaga na fase de grupos é 600 pontos e quanto melhor pontuado o pais for, mais clubes terá na LC da Ásia – máximo de quatro. Veja as principais:

Organização: Os critérios mais importantes são a existência de uma segunda divisão, número de jogos por time na elite nacional (com ida e volta) e sistema de promoção/rebaixamento. Um mínimo de dez times pode jogar, com duração do torneio em oito meses. Total: 50 pontos

Kuwait: o Campeonato Kuwaitiano tem segunda divisão, 14 times disputam a elite, mas em jogos de ida – em 2012/13 foram apenas oito equipes, com três turnos. A competição durará cinco meses, entre agosto e dezembro/2013.

Público: A AFC também se preocupa com o público na liga nacional. A média deve ficar entre 5 mil e 10 mil por jogo, mas deve ser de 15 mil nos torneios continentais. Total: 100 pontos

Kuwait: não há estatísticas de público na liga kuwaitiana mas, na AFC Cup, o Al Kuwait levou média de míseros 638 torcedores por jogo. Já o Al Qadsia é melhor: 1.306 pessoas por partida – detalhe que, no mata-mata, a equipe não jogou em seu estádio.

Política: No quesito, a entidade máxima do futebol asiático quer ter certeza de que não há interferência dos governos na liga nacional e nem manipulação de resultados. É obrigatório que pelo menos um técnico trabalhe só com futebol, que a liga seja uma entidade legal, governada pela confederação nacional, e que tenha um auditor. Total: 50 pontos

Dentro de campo: O desempenho na Liga dos Campeões e na AFC Cup também conta, com bônus por classificação ao mata-mata. A valoração da AFC Cup é 1/3 da LC da Ásia. Até o Ranking Fifa é levado em conta pela entidade, pois somente as 23 melhores da Ásia podem sonhar com um lugar na elite continental – Filipinas, Síria, Tailândia, Palestina, Afeganistão e Coreia do Norte estão dentro deste critério, assim como o Kuwait. Total: 200 pontos

Marketing: Tão atenciosa com o futebol continental, é claro que a AFC não poderia deixar de lado o marketing. A entidade distribui pontos para aquelas ligas que têm campanhas na TV, controle de direitos de transmissão, patrocínio e até website da competição. Pena que a Kuwait Premier Legue desativou sua página na internet… Total: 50 pontos

Finanças: A amada Confederação Asiática também quer saber se a liga nacional está no azul. A receita de liga + clubes deve ser maior que U$S 200 mil e cada time deve arrecadar mínimo de U$S 20 mil. Um plano de negócios da competição também vale ponto. Total: 100 pontos

Operação de jogo: Na organização da partida em si, as ligas nacionais devem se certificar de que os locais onde ficarão alojados atletas, imprensa, público e árbitros sejam seguros, além da presença de um delegado da partida. Total: 50 pontos

Imprensa: Os colegas jornalistas também recebem atenção. Os estádios devem ter tribuna de imprensa nas transmissões de jogos, cada clube tem de ter um assessor. À liga: nº de partidas televisionadas na temporada e até se há cobertura de jornais e revistas. Total: 50 pontos

Estádio: todas praças de jogos dos clubes da elite precisam oferecer mais de 3 mil lugares, com pelo menos dois estádios acima de 5 mil assentos. Total: 140 pontos

Clubes: todos devem ter mínimo de 18 atletas com contrato profissional, categoria de base, técnicos de licença A, entre outras coisas. Total: 200 pontos

Logística: validação rápida dos vistos de entrada no país, voos internacionais (oeste/leste asiáticos) diários, aeroporto adequado e hotéis. Total: 10 pontos

Injusto

Como se pode perceber, os critérios são subjetivos e até meio malucos, e aparentemente Bader Al-Mutawa terá pela frente a AFC Cup 2014, não a Liga dos Campeões. O que é errado, pois esportivamente está provado que o Kuwait merece encarar adversários melhores – as pontuações de cada liga serão conhecidas em novembro/2013. São 38 vagas (32 na fase de grupos e seis na fase preliminar), com as cinco melhores de Oeste e Leste, cada, ficando com 14 vagas, sendo dez nas chaves e quatro na eliminatória. Seria melhor adotar o sistema Uefa…

Curtas

– O Al Kuwait teve o artilheiro da AFC Cup 2013. Trata-se do atacante tunisiano Issam Jemâa, dono de 16 gols, seguido pelo espanhol Jordi Torrés (Kitchee/Hong Kong), com 12. O brasileiro Rogerinho, também do Al Kuwait, marcou sete vezes, uma na final.

– Em 2013/14, o Al Kuwait lidera a liga nacional, com 100% de aproveitamento em sete jogos, seguido por Al Arabi (18), Al Qadsia (17) e Al Jahra (15). O atacante Elias di Oliveira, do Al Tadamon (8º), é o melhor brasileiro no quesito gols marcados (o terceiro no geral), com sete bolas nas redes, em oito jogos.