Entenda por que o relatório da Fifa que inocentou a candidatura do Catar-2022 é cara de pau

A Fifa confirmou que a Copa do Mundo de 2022 será mesmo no Catar. O relatório divulgado pela entidade nesta quinta-feira diz que as violações às regras eram de “alcance muito limitado”. Há irregularidades nas candidaturas, mas, segundo o relatório, nada que implique em uma nova votação. O relatório feito a partir da investigação do ex-promotor de Nova York, Michael Garcia e concluído pelo juiz de ética da Fifa, Joachim Eckbert, diz que não há provas suficientes para justificar tirar a Copa do Mundo da Rússia ou do Catar e fazer uma nova votação. Isso não seria nenhum problema se o relatório não apresentasse tantos indícios na direção oposta.

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Segundo o relatório, a candidatura do Catar tinha “fatos e circunstâncias potencialmente problemáticos” e uma “significativa falta de transparência” no uso dos seus consultores. Já a Rússia não cooperou muito com as investigações fornecendo documentos por uma razão curiosa: os computadores usados pelo comitê da candidatura eram alugados e, assim que a candidatura acabou, foram devolvidos e os computadores destruídos. Sim, é isso mesmo: a Rússia disse que os documentos, como e-mails, foram perdidos porque os computadores foram DESTRUÍDOS. Voltaremos a isso logo abaixo.

Só isso já seria motivo para, no mínimo, colocar as duas candidaturas em suspeita, mas a coisa vai além. O sumário de 42 páginas de Eckbert, baseado no relatório de 420 páginas de Garcia, mostra muitas atividades suspeitas, mas inocenta as candidaturas da Rússia e do Catar dizendo que não foram tão importantes assim. “Em particular, os efeitos dessas ocorrências no processo licitatório como um todo estava longe de atingir qualquer limite que exigiria um novo processo de licitação, muito menos reabri-lo”, afirma o juiz do comitê independente de ética da Fifa. Nem mesmo os subornos pagos por Mohamed Bin Hammam, ex-presidente da AFC, a Associação Asiática de Futebol, catariano e que foi figura chave da candidatura em 2009 e 2010. Em 2011, quando ele foi banido do futebol, a candidatura do Catar tratou de afastá-lo do projeto e fez questão de dizer que ele não tinha nenhum cargo oficial ou extra-oficial na campanha.

Eckbert concluiu que Garcia não encontrou nenhuma ligação direta entre a candidatura da Copa do Mundo e pagamentos de suborno feitos por Bin Hammam, banido do futebol justamente por tentativa de compra de votos na eleição presidencial da Fifa em 2011. Segundo o relatório, Bin Hammam pagou US$ 1,2 milhão para Jack Warner, ex-vice presidente da Fifa e ex-membro do comitê executivo da entidade , não testemunhar contra ele. Porém, nenhum desses pagamentos foi associado à candidatura do Catar na Copa do Mundo. Os pagamentos foram associados a uma tentativa de Bin Hammam de comprar votos para se eleger presidente da Fifa contra Blatter, em 2011.

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A suspeita em relação à OFC

Bin Hammam ainda ofereceu pagar os serviços jurídicos para Reynald Temarii, presidente da OFC, a Confederação de Futebol da Oceania, para que ele recorresse da decisão que o baniu do futebol. Ele prometeu votar na Austrália, mas ao recorrer da decisão, ele impediria que seu substituto pudesse votar pelo país rival do Catar na disputa pela sede de 2022. Ou seja: ao pagar os custos legais de Temarii, Bin Hammam estaria prestado um favor a um nobre colega da Fifa que tinha declarado voto em um adversário da candidatura catariana.

Temarii acabou não participando da votação, sendo mesmo banido do futebol. Mas a Fifa diz, no relatório, que não há qualquer indício que o pagamento tenha sido relativo à candidatura do Catar à Copa de 2022. O relatório ainda diz que mesmo que Temarii tivesse participado da votação e escolhesse a Austrália, não faria diferença, porque o Catar teve 14 votos e a Austrália foi eliminada na primeira rodada só com dois.

O caso do amistoso entre Brasil e Argentina no Catar

Uma das suspeitas de Garcia era sobre o amistoso entre Brasil e Argentina no Catar, no dia 17 de novembro de 2010. Foi aquele jogo do “Puta que pariu, Douglas”, quando Mano Menezes ainda era técnico do time, lembra? Segundo a investigação, há um pagamento suspeito feito à AFA, a Associação de Futebol Argentino. Porém, assim como em outros casos, não foi provada nenhuma relação desse dinheiro com a candidatura do Catar para 2022.

Patrocínio suspeito de evento da CAF

O Catar patrocinou um evento da Confederação Africana de Futebol, CAF em Angola, em 2010, com US$ 1,8 milhão. O relatório confirma esse pagamento e diz que isso permitiu que a candidatura tivesse acesso exclusivo a quatro dos 24 membros do comitê executivo da Fifa, que votariam no fim daquele ano para a escolha da sede da Copa. O relatório causou “impressão negativa”, mas “não violou nenhuma regra”.

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O caso dos computadores russos

A Rússia não pode colaborar muito com as investigações, segundo o relatório. A alegação é simples: as provas foram destruídas. Isso deveria ser um problema, certo? Afinal, quem é que destrói provas assim, diz isso e fica tudo bem? Bom, o caso da Rússia ficou. “O comitê da candidatura da Rússia só colocou à disposição um número limitado de documentos para análise, o que foi explicado pelo fato dos computadores usados pela equipe terem sido alugados e devolvidos aos seus donos depois do processo de seleção”, diz o relatório.

“O dono confirmou que os computadores foram destruídos. O comitê da candidatura russa tentou obter acesso às contas Gmail usadas durante o processo de candidatura com o Google dos Estados Unidos. Contudo, o comitê da candidatura russa confirmou que o Google Estados Unidos não respondeu aos pedidos”, afirma ainda o relatório. O curioso do caso é o seguinte: por que os funcionários que usaram as contas de e-mail não simplesmente o acessaram com senhas senhas, já que eles que se cadastraram? Precisava pedir para o Google as informações?

Alexei Sorokin, atual presidente do Comitê Organizador Local da Copa de 2018, rechaçou qualquer violação e disse que cooperaram como puderam. “Nós temos certeza que a nossa candidatura foi transparente. Nós não cometemos nenhuma violação. Nós sempre tivemos certeza que não achariam nada fora da lei”, declarou Sorokin. “Nós enviamos tudo que tínhamos. Vocês tem que entender que quatro anos se passaram e algumas informações são simplesmente esquecidas”, justificou ainda o russo.

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Duras críticas à candidatura da Inglaterra

Se a candidatura do Catar tem problemas que foram contornados sem muitos problemas pela Fifa, o mesmo não se pode dizer da candidatura da Inglaterra para 2018. O relatório faz duras críticas aos ingleses, que teriam se envolvido com Jack Warner, então vice-presidente da Fifa e presidente da Concacaf, banido do futebol por envolvimento em escândalos de corrupção. “As respostas da Inglaterra às demandas impróprias do senhor Warner, no mínimo, tentando satisfazê-lo de alguma forma, prejudicaram o processo de eleição. No entanto, tal dano foi novamente de extensão bastante limitada”, diz o texto.

Warner teria forçado, em 2009 e 2010, para que a candidatura inglesa conseguisse um emprego em meio-período para uma pessoa indicada por Warner. O emprego, segundo o relatório, foi conseguido e foi uma forma dos ingleses satisfazerem as vontades de Warner. Além disso, houve o pagamento de um jantar de gala para a Confederação Caribenha de Futebol no valor de US$ 55 mil. A Football Association, FA, teria ainda dado uma “ajuda substancial” ao time sub-20 de Trinidad e Tobago, país de Warner, para que treinassem na Inglaterra.

Lord Triesman, que chefiou a campanha da Inglaterra, afirmou no parlamento inglês que Warner pediu £ 2,5 milhões, dinheiro para comprar os direitos da Copa do Mundo no Haiti e mais um centro de educação em Trinidad e Tobago para votar pelos ingleses. Triesman foi acusado no relatório de não cooperar com as investigações. O resto da equipe da campanha inglesa, porém, foi elogiado pelo envio de documentos e pela cooperação.

Ao ser perguntado se a FA tinha prejudicado a imagem da Fifa, o presidente da entidade que comanda o futebol inglês, Greg Dyke, respondeu de forma dura. “Eu acho que é bem difícil prejudicar a imagem da Fifa. O que diz é que as pessoas que mais colaboraram foram mais criticadas e quem não cooperou de jeito algum, o que parece estranho para os padrões de qualquer pessoa”, disse o dirigente.

Ex-membros do Comitê Executivo, que participaram da votação, sumiram

O Comitê Executivo da Fifa já mudou muito desde a votação que elegeu Rússia e Catar como sedes da Copa. Dos 11 que já saíram do comitê desde aquela época, só cinco responderam às solicitações da investigação. Dois deles sequer foram localizados. Muitos deles foram afastados exatamente por corrupção, como foi o caso e Jack Warner e Mohamed Bin Hammam.

Fifa diz que o caso está encerrado

Com tudo isso em mãos, a Fifa parece satisfeita com a investigação e a encerrou. Não acha que há qualquer indício de corrupção que manche o processo seletivo que levou a Copa do Mundo à Rússia em 2018 e ao Catar em 2022. Isso mesmo com a própria Fifa, através de Joseph Blatter, admitir que o processo de escolha das sedes precisa ser aprimorado.

“Os fatos e circunstâncias potencialmente problemáticos identificados pelo relatório relativos à candidatura do Catar 2022 não foram, apesar de tudo, suficientes para comprometer a integridade do processe de licitação da votação de 2018/22 como um todo”, diz o texto publicado pela Fifa.

“No que diz respeito ao quadro processual para a realização de procedimentos licitatórios que deram o direito de sediar a Copa do Mundo da Fifa, a Câmara de Investigação do Comitê de Ética da Fifa não encontrou nenhuma violação ou infração das regras e regulamentos pertinentes”, afirma Eckert no relatório. Todo o processo, para Eckert, foi “bem pensado, robusto e profissional”. E, assim, a Fifa espera por um ponto final nessa história. Mas ela está longe de terminar. A começar pelo próprio processo de votação, que deve incluir todos os 209 membros na próxima escolha de sede, e não só o Comitê Executivo, como foi em 2010.

Garcia, chefe da investigação, acusa Fifa de esconder informações

Se Eckert mostra que a Fifa está satisfeita com a conclusão das investigações, Michael Garcia não está. O investigador chefe do caso acusou a Fifa de esconder informações e irá tomar providências para que o seu relatório seja exposto.

“A decisão de hoje [de Eckert] contém numerosas representações materialmente incompletas e errôneas dos fatos e conclusões detalhadas no relatório da Câmara de Investigação”, disse Garcia em um comunicado. “Eu pretendo recorrer dessa decisão no Comitê de Recurso da Fifa”, afirmou ainda o americano, que sempre foi favorável à publicação integral do relatório de 430 páginas.

Quando o sujeito que liderou a investigação fica insatisfeito do resultado, é para se pensar. A disputa entre Garcia e a Fifa não é de hoje, com acusações que o advogado americano “quer aparecer”, quando Garcia, por sua vez, diz que a Fifa está omitindo informações. É provável que essa questão continue por algum tempo.

“A Fifa saúda o fato de um grau de fechamento ter sido alcançado com o presidente da câmara decisória afirmando hoje que ‘a avaliação do processo de escolha da sede das Copas do Mundo de 2018/2022 está fechada para o Comitê de Ética da Fifa”, diz o relatório publicado pela entidade máxima do futebol mundial.

Apesar da Fifa dizer que o processo está fechado, essa é uma questão longe de estar resolvida. Os problemas do Catar são inúmeros e já mostramos muitos deles por aqui. Provavelmente veremos outros capítulos sobre isso em breve.


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