Nagorno-Karabakh é uma região com aproximadamente 150.000 pessoas, alguns quilômetros para dentro do território do Azerbaijão e próximo à fronteira da Armênia. Nagorno é uma palavra russa para “montanhoso”, e Karabakh significa “jardim negro”. O conflito com raízes nos primórdios da União Soviética custou milhares de vidas nos países que o disputam, com várias tentativas não muito bem-sucedidas de cessar fogo e negociar uma resolução, e, nesta terça-feira, tirou Henrikh Mkhitaryan da final da Liga Europa, que será realizada em Baku, Azerbaijão.

Por causa do conflito, não há relações diplomáticas entre a Armênia e o Azerbaijão, que impede a entrada de cidadãos armênios em seus territórios, com raras exceções. O impasse já havia feito com que Mkhitaryan ficasse fora de duas partidas em solo azeri: contra o Qabala, em 2015, com a camisa do Borussia Dortmund, e contra o Qarabag, em outubro, pelo Arsenal.

Ao longo das últimas semanas, o Arsenal trabalhava com a Uefa e com o Azerbaijão para assegurar a segurança do seu jogador. No entanto, não foram apresentadas garantias que fizessem com que Mkhitaryan se sentisse confortável para viajar a um território hostil. “Tendo considerado todas as opções, tomamos a decisão difícil de não viajar para a final da Liga Europa. É o tipo de jogo que não aparece todo dia e admito que me dói muito ter que perdê-lo”, afirmou o armênio.

O clube inglês afirmou que “explorou todas as opções”, mas, em uma decisão conjunta com Mkhitaryan e sua família, chegou à conclusão que seria melhor que ele não fizesse parte da delegação. A Uefa alegou que recebeu garantias do governo do Azerbaijão e que apresentou um amplo plano de segurança para o Arsenal. “Embora o clube reconheça os esforços da Uefa e do governo azeri nesse assunto, respeitamos a decisão pessoal do jogador”, disse a entidade.

A Federação Azeri de Futebol lamentou a decisão de Mkhitaryan e reiterou que forneceu todas as garantias de segurança, enquanto o embaixador do país no Reino Unido, Tahir Taghizadeh, indicou que a postura do jogador tem um componente político. “Eu diria que ele é um atleta profissional, um jogador de futebol, um jogador classe A, então vamos garantir que este evento também seja classe A, se nosso propósito for realizar uma grande final. Se nosso propósito for fazer jogos políticos em torno dele, isso é algo diferente, e espero que não seja, porque ele está sendo pago para ser jogador, não para ser político”, afirmou, à Sky Sports.

O conflito de Nagorno-Karabakh começa nos espólios da Primeira Guerra Mundial. A região, com habitantes armênios cristãos e azeris turcos, juntou-se ao Império Russo no século 19. Na época em que a União Soviética assumiu o poder depois da revolução bolchevique, a potência estabeleceu Nagorno-Karabakh como uma região autônoma, com maioria armênia, dentro da República Soviética Socialista do Azerbaijão, uma das medidas do plano soviético de dividir para conquistar.

O domínio soviético foi capaz de manter as tensões relativamente sob controle até o final da década de oitenta, quando a URSS começou a se dissolver. Em 1988, houve um referendo sobre a independência da região, que intensificou o conflito. A votação foi a favor da secessão e de uma união à Armênia. Alguns problemas aí: um deles é que há faixas de terra azeri entre Nagorno-Karabakh e a fronteira armênia; o outro é que quase ninguém, incluindo o governo do Azerbaijão, nem da Armênia, reconheceu a votação como legítima.

Com a queda da União Soviética, Nagorno-Karabakh declarou-se independente, em 1991, e o conflito intensificou-se por mais três anos, com um cessar-fogo negociado pela Rússia, mas entre 20.000 e 30.000 pessoas foram mortas. Os armênios assumiram o controle da região, assim como de enclaves de terra azeri nos arredores. O total de refugiados passou de um milhão. A população azeri, aproximadamente 25% do total antes da guerra, fugiu de Nagorno-Karabakh e da Armênia, e armênios fugiram de outros territórios do Azerbaijão.

Desde então, Nagorno-Karabakh praticamente se auto-governa, com apoio financeiro e militar da Armênia e violações esporádicas do acordo de cessar fogo. A pior delas foi a Guerra dos Quatro Dias, em 2016, quando dezenas de soldados dos dois lados foram mortos. As negociações por paz estagnaram na última década, com um pequeno avanço no último mês de março, quando o presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, e o primeiro-ministro da Armênia, Nikol Pashinyan, reuniram-se em Viena para discutir o assunto, ainda sem resultados concretos.