A camisa é um patrimônio tão importante para um time de futebol quanto o seu escudo. Por isso, é inevitável ficarmos ansiosos por cada modelo novo. Mesmo sabendo que eles serão mais caros do que gostaríamos e não terá tantas diferenças em relação ao anterior, será a nova cara do time. Aqui mesmo na Trivela tentamos trazer os modelos lançados assim que são divulgados – ou até antes disso, em alguns casos. As reações costumam ser fortes, seja por gostar, seja por desgostar. Mas você sabe como é criada a camisa do seu time? Por que às vezes elas ficam tão bonitas e outras vezes ficam tão feias? Conversamos com clubes e fabricantes para trazer a resposta.

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A relação entre as marcas e os clubes

As marcas pagam muito caro para estarem nos clubes, que também querem ver suas camisas sendo consumidas pelos torcedores. Para isso, é preciso que os modelos agradem à maioria e crie um desejo de compra. Entra aí um trabalho conjunto entre os fabricantes e os representantes dos clubes para tornar essas peças algo que os torcedores queiram ter. Mais do que isso: que tenham orgulho de ter. No futebol, a tradição do uniforme é importante e as marcas descobriram isso na prática.

“As camisas dos clubes de futebol por si só já são veneradas aos olhos dos milhões de torcedores espalhados pelo país. Acredito que o respeito às tradições aliado aos benefícios tecnológicos que auxiliem no desempenho do atleta dentro de campo reforçam a imagem da marca junto ao público”, afirma Alexandre Alfredo, diretor de comunicação da Nike no Brasil.

A marca americana é fornecedora do material esportivo de quatro times no Brasil: Corinthians, Coritiba, Internacional e Santos. Destes, a relação com o Corinthians é a mais antiga – desde 2003 – e é considerada um sucesso. Clube e marca já criaram diversos produtos e ações de marketing como os outdoors em Londres antes do Mundial de Clubes de 2012, quando o Alvinegro teria como adversário o Chelsea. O contrato de patrocínio é um dos maiores do Brasil e recentemente foi renovado até 2025.

“Eu diria que a Nike é o melhor parceiro que o Corinthians poderia ter em vários sentidos. Ambas as instituições reconhecem a importância da relação e há uma sinergia muito grande entre o marketing do clube e a empresa para desenharmos as ações em conjunto. Há, sim, uma estratégia que vai além das camisas”, conta Alexandre Ferreira, diretor de marketing do Corinthians, em entrevista à Trivela. “Aprendemos muito, e cada vez mais, com os clubes e atletas parceiros. Eles são a nossa fonte de inspiração e os maiores colaboradores no desenvolvimento dos produtos mais modernos”, diz Alfredo, da Nike.

Para chegar ao modelo que você vai encontrar nas lojas, as marcas e os clubes precisam trabalhar de maneira próxima. É preciso combinar a estratégia e as diretrizes globais das marcas com o marketing, os interesses e o estatuto do clube. “Inúmeros fatores são considerados para chegar ao modelo final. As principais preocupações são o respeito às tradições e ao estatuto do clube”, disse o diretor da Nike.

O primeiro passo normalmente é dado pelo fabricante. A empresa desenvolve alguns padrões visuais para a temporada seguinte e procura adaptar as particularidades de cada clube a esses desenhos. Não é um processo simples, e normalmente passa pela aprovação de muita gente.

Lidar com as exigências dos clubes, seja por estatuto, seja por desejo de manter a tradição em seus uniformes, é o principal desafio das marcas. Afinal, é preciso seguir o manual da marca (guia com o tom das cores e desenhos padrão) do clube, mas trazer algo novo para motivar as vendas. “Cada clube carrega valores ao longo de sua vida, e temos de nos alinhar a isso e contar uma história com a campanha que aquela camisa representa”, diz o gerente de produtos da área de vestuários da Puma, Alexandre Ajoue. “Todo clube tem desafios e exigências. Os clubes têm estatutos. Mas não existem exigências impossíveis”, afirma Adriano Eziliano, diretor de produtos da Umbro.

As atualizações podem ser desde novos desenhos ou remeter a algum fato da história do clube a um simples selo. Foi o que fez o São Paulo na década passada. O clube enfatizou mais o escudeto de campeão brasileiro, o que teve grande apelo com o público. Os resultados em campo ajudaram, pois o time conseguiu o tricampeonato nacional e a torcida buscava “atualizar” sua camisa com a menção ao novo título.

Essas discussões ainda ganham novos contornos com o surgimento das terceiras camisas. Nelas, há mais liberdade para explorar desenhos e cores diferentes, pensando mais em criar algo diferente que tenha apelo comercial do que apenas desenvolver uma nova versão do modelo tradicional. Até versões rosas, voltadas para o público feminino, foram lançadas.

Até o São Paulo, clube com diversas restrições de uniforme no estatuto e que, por isso, tem menos liberdade para variar suas camisas, tem estudado meios para implementar a terceira camisa. Em 2013, o São Paulo chegou a lançar dois modelos com as camisas “tingidas” – uma de vermelho, que o time usou em uma partida, e uma branca. “O São Paulo pensa há algum tempo em fazer uma terceira camisa. Não há previsão de uma terceira camisa no nosso estatuto, mas entendemos que é uma oportunidade e por isso queremos fazer”, revela Bruno Aventurato, gerente de marketing tricolor. Segundo o dirigente, há possibilidade até do uso de cores que fujam do branco-preto-vermelho. “Se for na terceira camisa, sim, pensamos em usar outras cores. Nos uniformes de treino, nós temos essa liberdade, já usamos azul, cinza, outras cores”, conta.

O processo natural parte do fabricante e seus desenhos para aquela temporada e se adapta ao clube, mas há momentos em que ocorre o contrário. Foi o caso da atual camisa do Corinthians. Mário Gobbi pretendia homenagear Rivellino, seu ídolo de infância. Em 2014, o último ano de sua gestão, pediu para a Nike lançar um modelo inspirado na camisa alvinegra de 1971, com listrar finas pretas na camisa branca (na época, foi o uniforme 2 corintiano, ainda que tenha pouco contraste com a camisa toda branca).

O processo para chegar ao modelo final envolve aprovação e devoluções. Dependendo da alteração pedida, pode levar muito tempo para a criação de uma nova versão, pois muitas vezes envolve o processo de fabricação da peça. Cerca de 15 dias após a aprovação do desenho, o clube recebe uma camisa de amostra para aprovar tecido e particularidades do corte. Tudo isso é feito para cada um dos modelos que o time terá.

Esse vaivém entre fabricante e clube pode tornar o processo bastante demorado. Cada parceria clube-empresa têm uma relação própria, mas muitos dirigentes gostam de dar pitacos. Com isso, todo o processo, da apresentação inicial ao lançamento dos uniformes, pode levar mais de um ano.

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Os uniformes como peças de marketing

Em 2014, Chris Stride, estatístico do Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffield levantou todos os uniformes dos times da primeira divisão inglesa desde 1888 para estudar a evolução das peças na indústria de materiais esportivos. A conclusão é que, por mais que os fabricantes tenham se tornado mais ousados e inovadores a partir da década de 1980, as camisas principais das equipes voltaram a ser mais próximas ao desenho tradicional nos últimos 20 anos. E há um motivo histórico para isso.

Desde a década de 1950 são vendidas camisas nas lojas, mas inicialmente eram feitas apenas para crianças. Não era comum que adultos se vestissem como os jogadores nas ruas na Inglaterra. Os uniformes muitas vezes eram iguais, mesmo quando produzidos por marcas diferentes, porque não havia qualquer direito autoral sobre o desenho.

Isso começou a mudar em 1970, quando as marcas passaram a assinar contratos com os clubes e a produzir modelos com copyright. Com isso, os fabricantes (especialmente a Admiral e a Umbro) passaram a vender os uniformes como exclusivos e autênticos. Isso mudou o design das camisas, que passaram a ter um valor de mercado. Por isso, ficaram mais sofisticados, com mais detalhes e passaram a ser uma vitrine para promover os fabricantes. As mudanças nos modelos do uniforme passaram a significar aumento de receitas com as vendas, ainda que não fosse tão frequente quanto hoje, com um modelo por temporada.

Para Stride, a mudança das vendas de camisas para crianças para adultos mudou também o design das camisas a partir dali. Muitos clubes passaram a usar a camisa principal como parte de uma estratégia mais ampla de marketing. A ideia era reforçar a imagem de nostalgia, retratar o clube como tradicional e autêntico, qualidades que agradam torcedores mais velhos.

Os uniformes mais chamativos se tornaram menos comuns (adeus, anos 90) e camisas mais simples, com um estilo mais retrô ou com referências históricas estão na moda. Mudanças no uniforme mais tradicional do time costumam resultar em revolta dos torcedores, como aconteceu no Cardiff City. Tradicionalmente azul, o time galês teve seu uniforme mudado para vermelho por causa do seu dono. Esse tipo de ação é muito rara porque as marcas sabem que a rejeição causada por esse tipo de decisão costuma ser muito alta.

Há ainda uma razão comercial para a escolha de designs mais simplificados nas camisas. Além de serem mais atrativas para o público adulto, também se tornam menos agressiva com as marcas dos patrocinadores que são estampados na camisa, uma importante fonte de renda dos clubes. Como já falamos na Trivela, patrocinar um clube de futebol é parte de uma estratégia maior das marcas esportivas para seu principal produto, que são as roupas casuais vendidas com um apelo mais de moda.

“Ainda que a maioria dos clubes mudem seus uniformes a cada temporada, as mudanças normalmente consistem em apenas detalhes menores, pequenas mudanças, o estilo da gola. A inovação nas camisas de futebol passaram do design para táticas do marketing”, afirma Stride.

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De volta ao passado e a tendência retrô

Com patrocinadores – às vezes em uma quantidade maior do que qualquer torcedor gostaria de ver – e a necessidade de mudança todo ano, a demanda por camisas no estilo retrô se tornou uma tendência. Os fabricantes passaram a investir em modelos copiando as camisas de décadas atrás, algo que fica ainda mais forte em clubes que vivem alguma temporada histórica (normalmente a comemoração do centenário). A tendência é tão grande que surgiram empresas especializadas em produzir esse tipo de uniforme, em que o desenho clássico é tão marcante que mesmo a eventual ausência do distintivo não impede a identificação do torcedor.

É o caso da Liga Retrô, criada em 2006. A loja popularizou um modelo clássico usado por Lev Yashin, goleiro da seleção da União Soviética nas décadas de 1950 e 60. A camisa com o CCCP no peito virou um objeto de desejo de fãs de futebol e um dos carros-chefe da coleção. “Esse modelo da União Soviética surgiu a partir do momento que queríamos lançar uma camisa clássica, de um goleiro que é marcante, Lev Yashin. Ele tem tudo a ver com a ideia de retrô, um modelo que não existe mais”, conta Marcelo Roisman, um dos sócios da empresa.

Camisas do São Paulo da Floresta de 1933 e em homenagem a Biro Biro, de 1983
Camisas do São Paulo da Floresta de 1933 e em homenagem a Biro Biro, de 1983

A loja começou só online e tinha cerca de 20 produtos no seu catálogo. Atualmente, são cerca de 500, que vão de chaveiros a agasalhos, em 40 lojas físicas em dez estados brasileiros. Para Roisman, o que atrai tanto o torcedor para esse tipo de produto não é só a camisa em si, mas tudo que a envolve. “É a história que aquela camisa traz, a paixão envolvida naquele evento, o conceito que tem atrás da camisa. Além disso, as camisas não têm marca de fornecedor esportivo e patrocinador, fica mais limpa.”

O crescimento fez que a Liga Retrô pudesse fosse procurada para criar coleções exclusivas e licenciadas, com o aval e o escudo do clube. “São 30 clubes licenciados, como o Boca Juniors. Nenhum deles faz camisas de jogo, são coleções separadas. Procuramos retratar década a década da história dos clubes. Não são necessariamente décadas de títulos, mas claro que retratamos os títulos também. Sempre focamos em algo importante que aconteceu na história do clube”, comenta. A loja já prepara uma linha de produtos de Ademir da Guia, um dos grandes ídolos da história do Palmeiras, ainda para este semestre.

O sucesso desse tipo de produto fez as marcas esportivas criarem, a cada ano, novas camisas retrô, com temática histórica. Os fornecedores perceberam que havia mercado para isso e passaram a criar coleções deste tipo, indo até além da camisa. A maior parte dos clubes mais importantes criaram linhas clássicas. E, mais do que isso, os clubes perceberam que era necessário se ater às tradições em seus uniformes principais.

“Sinto que essa tendência de uniformes retrô de vem de alguns anos aqui no Brasil. Muitos clubes pedem que os uniformes remetam a camisas clássicas do passado, anos de glória do clube, períodos nos quais o clube passou por um grande momento. Pode ser um design da camisa, uma gola, um botão, um tecido diferente. Ir em busca de um período glorioso e é uma tendência mundial desde a primeira década dos anos 2000”, conta Ajoue, da Puma. Uma tendência que torna ainda mais importante a relação entre as marcas e os clubes e que só reforça o quanto os torcedores valorizam a tradição e o uniforme dos seus times como um símbolo.

Ainda assim, o resultado nem sempre é tão previsível. Algumas camisas acertam em cheio as expectativas dos torcedores. Outras acabam errando a mão. Mas não é um processo simples de apenas desenhar e dizer se está bom ou não. Afinal, enquanto você está lendo esse texto no começo de 2015, com os clubes prestes a lançar uma nova coleção de uniformes, fabricantes já estão pensando no que será tendência em 2016. Então, quando você vir a camisa do seu time, gostando ou não gostando, lembre que tanto clube quanto o fornecedor são responsáveis pelo resultado.

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