A situação é constrangedora. A votação do Comitê Executivo elegeu o Catar como sede da Copa do Mundo de 2022, mas as acusações de corrupção e a suposta “compra” da Copa pelos catarianos, as preocupações sobre a saúde dos jogadores ao jogarem em um local onde o verão atinge temperaturas acima de 50°C e a pressão política por mudanças podem ter um papel preponderante. O Catar foi colocado em uma encruzilhada pelo presidente da Fifa, Joseph Blatter. E parece que qualquer ação dos catarianos, ou falta dela, poderá – e deverá – levar à mudança de sede. São muitos os interessados que isso acontece, desde os dirigentes até ligas, clubes e jogadores.

A escolha do Catar para sede da Copa de 2022 foi uma surpresa. Apesar da enorme organização e dos recursos financeiros praticamente ilimitados, o país do Oriente Médio não era o favorito em uma disputa que tinha Estados Unidos, Austrália, Coreia do Sul e Japão, todos países que também são organizados e, mesmo sem ter o dinheiro do Catar, são países ricos. Mais do que isso, são países com mais tradição esportiva e de organização desse tipo de evento. Faria mais sentido a escolha de qualquer um deles antes do Catar.

A vitória do Catar foi atribuída, em parte, à atuação do ex-dirigente catariano Mohamed Bin Hammam, que foi do Comitê executivo da Fifa e era presidente da Confederação Asiática de Futebol (AFC), além de um dos principais nomes da candidatura catariana. Bin Hammam foi afastado da Fifa depois de acusações sobre a compra de votos quando tentou ser presidente da entidade, em 2011. Não demorou para que surgissem também as acusações sobre a compra da Copa de 2022, inclusive com um e-mail do secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, que teria dito isso, com essas palavras, a Jack Warner, então presidente da Concacaf. O fato, claro, foi justificado como uma má interpretação. As suspeitas seguiram e os esclarecimentos não convenciam.

Desde a escolha do Catar, uma questão é colocada: como disputar uma Copa do Mundo com temperaturas que ultrapassam os 50°C? Os organizadores garantiram que os estádios seriam climatizados – algo que já é feito em estádios nos Estados Unidos, por exemplo, onde o Dallas Cowboys tem um estádio climatizado que o Brasil já disputou um amistoso contra o México. Mas a preocupação com os torcedores é grande fora dos estádios. Como se movimentar pelo país com temperaturas tão altas?

O chefe médico da Fifa, Michel D’Hooghe,  disse que é contra a realização da Copa do Mundo de 2022 no Catar em pleno verão, em junho e julho. Para ele, a disputa deveria ser no inverno. “Pessoalmente, eu acho que seria algo bom se essa Copa do Mundo fosse jogada em temperaturas melhores do que o pleno verão no Catar”, disse D’Hooghe.

O presidente da Premier League, Dave Richards, foi outro a se manifestar contrário à realização da Copa no Catar nessas condições. “Não pode ser no verão”, afirmou o dirigente. “Está ficando claro que os jogadores não podem jogar. Eles estão dizendo que todos os estádios serão climatizados, mas e os torcedores? Onde eles vão? Eles não poderão ir à praia, se não serão queimados”, continuou Richards.

Michel Platini, presidente da Uefa, disse que preferiria que a Copa fosse disputada no inverno, mas esse seria um grande problema para os clubes e para a liga do continente, que teria que adaptar seu calendário para isso. Apesar disso, Platini disse que “não é possível jogar futebol” no verão catariano. A Concacaf, por sua vez, apoia que a Copa seja no verão de qualquer jeito, independente dos problemas com as altas temperaturas.

Blatter disse que a Copa está programada para o verão, em junho e julho, e que uma mudança só é possível se for solicitada pelos organizadores. “Para uma mudança para o inverno é necessário que o Catar pedir por isso. Eles ainda não o fizeram”, declarou o dirigente. “E eles sabem que se fizerem isso, arriscam que outro candidato a sede da Copa de 2022 entre com uma contestação na Fifa e teria que haver nova votação”, explicou ainda o presidente da entidade que rege o futebol mundial. O impacto das palavras de Blatter foram grandes e ele mesmo se assustou. Recuou dizendo que uma nova votação era “apenas uma situação hipotética”.

As declarações de Blatter fizeram a Fifa divulgar um comunicado reafirmando o Catar como sede da Copa. “Tal como está hoje, a Copa do Mundo Fifa de 2022 está prevista para o Catar, em julho/julho de 2022. Qualquer mudança potencial teria que ser primeiro solicitado pelos organizados, a competição. Isto é, do Catar, e então ser apresentado ao Comitê Executivo da Fifa para análise”, diz a nota da entidade.

O Catar, então, fica em uma encruzilhada. Se mantiver a ideia de ir adiante com a Copa do Mundo no verão, poderão perder o direito de sediar o evento por razões médicas e pela gritaria dos dirigentes, das ligas e dos clubes, que não irão querer seus jogadores atuando em temperaturas como essa. Por outro lado, se pedirem a mudança do verão para o inverno, poderão perder o evento do mesmo jeito, como Blatter alertou.

A impressão é que há uma vontade política de mudar a sede da Copa de 2022, por diversas pressões de várias frentes. Se a acusação de corrupção ainda paira no ar, retirar a Copa por razões médicas ou simplesmente porque o país pediu para mudar de período, algo que será impossível, é uma forma de abafar tudo isso. É bom para a Fifa, que mostra uma suposta preocupação com os jogadores, dirigentes, ligas e clubes, e bom para o Catar, que não perderá a Copa por acusações de tê-la “comprado”.

A mudança de sede da Copa do Mundo de 2022 parece cada vez mais possível. Com tantas pessoas contrárias à realização do Mundial no país do Oriente Médio, fica claro que há vontade política para que a mudança seja feita. Resta saber como colocar isso em prática, causando o menor impacto político, comercial e financeiro possível.