Os olhos permaneciam fechados. Não se sabe se por obrigação ou por teimosia. A insônia lhe marcava sob pressão, impedindo qualquer esperança de relaxamento e obrigando sua mente a sair para o jogo, incessantemente. Não de forma ordenada, mas na base do chutão. Os neurônios, chutados pelo cansaço, pediam arrego, um a um. Cogitou contar carneirinhos, mas temeu que os travessos animais colocassem a pobre cerca na roda.

Poucas pessoas se sentiam mais transtornadas sem o controle absoluto da situação. Não que a sensação de poder viesse até ele de forma fácil, de mão beijada. Era tudo parte de um plano. E por mais que todas as variáveis fossem cuidadosamente estudadas pelo seu autor, há uma coisa em que todos os planos são iguais: não importa quem tenha os criado, cedo ou tarde, eles param de dar certo.

Primeiro ato – Lado A
Bale e Neymar, nas apresentações por Real e Barça

Barcelona e Real Madrid começaram a temporada cobrados pelo que representam para o futebol europeu e por tudo aquilo que deixaram de fazer na edição anterior da Liga dos Campeões. Triste sina a de quem não pode nunca se contentar em ficar entre os quatro melhores, porque a obrigação é sempre deixar todos os outros para trás, a começar pelo maior rival.

Na fase de grupos, não tiveram moleza. Os merengues, sob nova administração, ainda sofriam para encaixar Bale na equipe. Se Garrincha driblava os cones nos treinamentos, o galês instintivamente passava à esquerda deles, se embolando com Cristiano Ronaldo. Diante de uma Juventus mais entrosada, onde Tevez era apenas a cereja do bolo (por mais que possa virar abacaxi a qualquer momento), a segunda colocação nem foi tão lamentada, embora a cornetagem tenha corrido solta.

Por sorte, a imprensa da Catalunha não tinha lá motivos para curtir muito com a cara da turma da capital. Desafiado por concorrência menos qualificada, o Barcelona desandou a tropeçar. Comparado à derrota surpreendente do ano anterior, o empate em Glasgow até incomodou pouco. A derrota para o Ajax, em Amsterdã, e os dois empates contra o Milan, sim. Os culés dominavam, envolviam, apertavam, mas cediam gols importantes no seu grande calo, a bola aérea.

O grupo embolado trouxe a grande surpresa: o Barcelona perdeu a primeira colocação, no saldo, para o Ajax, que enfim avançava, depois de tanto dar azar nos sorteios da competição. A despeito de mais uma avassaladora campanha na liga espanhola, Tata Martino era bastante pressionado. O estilo mais direto até agradava, mas as sucessivas falhas defensivas faziam com que muitos torcedores do clube cobrassem mais posse de bola. Vai, 80% é para os fracos.

Se alguém dissesse que dois espanhóis liderariam suas chaves, mas que não seriam Real e Barça, muita gente riria. Pois aconteceu. O Atlético de Madrid acompanhava os dois gigantes em território local e ainda fez o Porto comer poeira em seu grupo no torneio continental. A exemplo do que o inimigo íntimo de Bilbao aprontara anos antes, a Real Sociedad eliminou o Manchester United, com uma atuação inesquecível em Old Trafford, seguindo acompanhado do Shakhtar às oitavas.

Primeiro ato – Lado B

Bayern, de Müller, e Dortmund, de Lewandowski: atropelamentos alemães

Se a maré já havia virado na temporada anterior, agora transbordava. Bayern e Borussia Dortmund atraíram inveja por todo o continente, dada a facilidade com que cruzaram a fase de grupos. É verdade que só os amarelos encantavam, ao enfileirar goleadas. O Bayern fazia o seu papel com qualidade, mas as altas expectativas criadas pelas glórias recém conquistadas e a desaceleração promovida por Guardiola geravam uma boa manada de narizes torcidos.

No rastro do time de Munique, o Manchester City finalmente passou de fase na Liga dos Campeões. A concorrência com os limitados CSKA e Viktoria Plzen mascarou para muitos a nova face copeira dos Citizens, cunhada por Manuel Pellegrini. Quem acompanhou o Dortmund foi o Arsenal. Logo quando parecia que eles ficariam pelo caminho, já que o Napoli mostrava sua força. A Liga dos Campeões seguia empolgante, mas perderia charme sem as calorosas noites no estádio San Paolo.

Nos grupos restantes, missão dada foi missão cumprida. O PSG agradeceu o mamão com açúcar que caiu no seu prato e acabou com a segunda melhor campanha da primeira fase. Para se ter uma ideia da precariedade dos adversários, o Benfica nem conseguiu decepcionar contra Olympiacos e Anderlecht! Difícil mesmo era fazer Ibra e Cavani não baterem cabeça, no campo e no vestiário. E não, não estou fazendo troça da voluptuosidade nasal do sueco. Não desta vez

Alheio a tudo e a todos, Mourinho viu o Chelsea trucidar quem apareceu pela frente, alcançando 100% de aproveitamento em um grupo onde Schalke e Basel não passavam de atrevidos. O português não admitia, mas estava passando por um tédio sem fim. As partidas escolhidas para televisionamento eram sempre de outras chaves. Qual é a graça de vencer sem que falem dele o tempo todo?

Segundo ato
Mourinho foi o primeiro testado com a nova tecnologia (AP Photo/Kirsty Wigglesworth)

As oitavas de final reservaram facilidades para Juventus e Chelsea, que atropelaram Schalke e Benfica, respectivamente, mantendo as credenciais de principais ameaças a alemães e espanhóis na disputa pelo título. Falando nisso, um time tedesco e outro ibérico também passearam nesta fase. O Dortmund não tomou conhecimento do Porto e o Atlético aproveitou-se da inexperiência da nova colônia brasileira de Donetsk.

A falta de grandes emoções parou por aí, no entanto. A Real Sociedad voltou a assombrar a cidade de Manchester, ao vencer o City por 3 a 2 em pleno território inimigo. Incrivelmente, quase não foi o bastante, já que os ingleses ganhavam de 4 a 3 no Anoeta, até os 39 da segunda etapa. A sorte seguia sorrindo para Ajax e Arsenal, que viam um no outro um rival acessível. Pesou a presença de Özil (e a ausência de Eriksen, choramingam os holandeses).

A lei do ex era a tábua da salvação para os franceses no confronto mais aguardado das oitavas. O retorno de Ancelotti a Paris dividiu as atenções com o programado duelo entre Cristiano Ronaldo e Ibrahimovic, embora ambos andassem um pouco ofuscados por Bale e Cavani, que, se faziam menos diferença dentro de campo, contavam com o sabor da novidade. Os jogos foram amarrados, estudados e aguerridos, prevalecendo, no fim, a tradição madrilenha.

Mas era pelo grande clássico entre Barcelona e Bayern que todos esperavam. A bobeada na fase de grupos acabou colocando os catalães bem no caminho dos atuais campeões e de seu ex-comandante. Só se falava na mídia sobre o retorno de Guardiola ao Camp Nou, agora como técnico adversário, pela primeira vez em um jogo oficial. Estava dada a largada para a primeira de uma série de noites insones para Pep.

Pep Guardiola conducts first training session at Bayern Munich - video

Poucos puderam notar as olheiras de Guardiola, com tanta coisa acontecendo ao seu redor. A torcida barcelonista, como não podia deixar de ser, o encheu de aplausos assim que ele pisou no gramado. Meio aéreo, o treinador só recobrou a consciência ao ouvir o apito inicial do árbitro. Imediatamente, o Barcelona tomava conta da bola e não dividia com ninguém, exatamente como havia ensinado o antigo mentor.

O placar de 1 a 0 saiu barato para o Bayern, o que não quer dizer que tenha vindo de forma suave para os donos da casa. Manuel Neuer colecionava milagres, enquanto Messi, vindo de repetidas contusões musculares, pouco aparecia. Só que o argentino não precisava de muitas chances para guardar o dele.

Com as olheiras já mais evidentes, o técnico do time bávaro acompanhava com atenção o sufoco imprimido por seus jogadores no comecinho da partida de volta. Foram 23 minutos de intenso bombardeio, no qual o Barcelona estranhamente se via sem a bola, mas levava grande perigo nas velozes investidas de Neymar. Só que Mandzukic subiria mais alto que a zaga catalã (para isso talvez só precisasse não se abaixar) para marcar o primeiro tento alemão.

O segundo viria em um belo arremate de fora da área de Schweinsteiger. Depois disso, nada de mais chamativo aconteceu. Bayern e Barcelona brigavam pela posse de bola, mas a intensidade do jogo fazia com que ela não parasse quieta no pé de nenhuma das duas equipes. Quando Messi foi ao chão sentindo nova fisgada na panturrilha esquerda, já não havia tempo para mais nada.

Interlúdio

Jürgen Klopp

Em grande fase, o Borussia Dortmund só não estraçalhou mais um, porque a Juventus não deixava ninguém fazê-la de gato e sapato. A vitória por 2 a 0 no jogo de ida foi suficiente para que os meninos de Klopp administrassem a vantagem sem sustos, em Turim. Menos problemas ainda teve o Chelsea, ao despachar o Arsenal. Mourinho passou os dias antes do jogo enchendo Özil de elogios e o meia agradeceu à altura, sumindo por completo nas duas partidas.

Depois de tantas emoções nas oitavas, o Bayern ganhou um refresco na fase seguinte. O Atlético foi valente e lutou até o final, mas não conseguiu vazar o adversário. E por isso mesmo, quem vazou foi ele. As quartas de final transcorriam de forma pacífica, até que uma minoria violenta colocou uma vida em risco. No caso, a sobrevida do Real Madrid na competição.

Pepe foi expulso aos 3 minutos do segundo tempo do jogo de volta contra a Real Sociedad. Os merengues tinham vencido a primeira, em pleno Anoeta, por 1 a 0 e já carregavam o mesmo placar no Santiago Bernabéu. Parecia suficiente, mas não foi. O empate veio logo em seguida, com Griezmann, completando jogada de Xabi Prieto, já dentro da pequena área.

A virada viria nos descontos, com gol do predestinado Felipe Santana, contratado às pressas junto ao Schalke, onde andou tão encostado que nem chegou a entrar em campo pela Liga dos Campeões, para suprir a perda de Iñigo Martínez, que havia fraturado o braço no fim de janeiro. Assim como o Barcelona, o Real Madrid também ficava pelo caminho. Estrada aberta para a dominação alemã?

Terceiro ato
Carlos Vela fez a diferença para o triunfo da Real Sociedad

Só haveria espaço para um representante tedesco na grande final. A reprise da decisão da temporada anterior foi negada pelo sorteio. Desgosto duplo para Mourinho, que ainda não se conformava com a ausência do Real Madrid nas semifinais. Não só seria a oportunidade ideal para se vingar da parcela da torcida madridista que não valorizava o seu… er… “jeito de ser”, como também despertaria a mesma atenção da mídia que o inesquecível confronto entre Guardiola e Barcelona.

O Special One teve se contentar com a realeza do País Basco. O empate em San Sebastián animou a Real Sociedad, que apostava em mais uma grande atuação em solo inglês para coroar uma campanha de sonhos na Liga dos Campeões. O único momento em que os holofotes esqueceram um pouco a Alemanha para se voltar a Stamford Bridge foi quando Mourinho respondeu à pergunta graciosa de um repórter com um seco, sonoro, ríspido e definitivo “Londres não é Manchester”. E não era mesmo: Chelsea 5 a 0.

Reacender a deliciosa rivalidade com Guardiola, ou acabar com a pose do time-sensação da temporada? Mourinho não sabia para quem torcer. O Dortmund assumia um favoritismo inesperadamente natural, já que liderava a Bundesliga com sete pontos de vantagem e ainda tinha conseguido um empate em 2×2 no campo rival. Enquanto isso, os jornais de Munique não perdoavam Guardiola. Da capa do caderno principal à charge que ladeava o caça-palavras, Pep só apanhava.

A torcida implorava pela volta de um estilo de jogo mais intenso e pela volta de Lahm à lateral, mas o catalão insistia com seus planos. E olhe que ele teve muito tempo para pensar em voltar atrás, já que vinha dormindo, em média, duas horas por noite. A única boa notícia seria a ausência de Lewandowski, barrado por Klopp após anunciar, às vésperas do jogo de volta, que havia assinado um pré-contrato para defender o Bayern, a partir de julho de 2014.

Os bávaros tocavam a bola para lá e para cá. Para cima e para baixo. Para o infinito e além. Os jogadores estavam doidos para desrespeitar o chefe e olhavam para o banco o tempo todo, à espera de um “faça do seu jeito” de Guardiola. Mas a disciplina falou mais alto. Em um raro momento de descuido, Hummels furou bizarramente e deixou Robben de frente para o crime. O holandês não perdoou. O Bayern tomava o rumo de Lisboa para defender o seu cinturão.

Quarto ato
Na primeira passagem, Mourinho começou com quatro vitórias. (Foto: AP)

Enfim parte do confronto mais esperado do momento, Mourinho deitava e rolava nas coletivas. Provocava o treinador adversário, deixava respingar no Barcelona e em Messi, mandava indiretas para Florentino Pérez (“é a DÉCIMA vez que digo isso: estou muito mais feliz em Londres”), fazia rir, despertava ódio e ganhava manchetes. Do outro lado, mantendo a sobriedade costumeira, Guardiola apresentava algum abatimento, o qual não corrompia suas convicções, nem descoordenava as suas ideias.

Quando a bola começou a rolar, nenhuma grande surpresa. O Bayern mantinha a posse, o Chelsea partia em velocidade para o ataque quando deixavam ele brincar também. Tal qual acontecia nos tempos em que os dois treinadores se enfrentavam por Barcelona e Real Madrid, as declarações do português fizeram o clima esquentar e a qualidade técnica dava lugar a alguns pontapés de parte a parte.

Para quem esperava um refinado espetáculo, talvez o jogo não estivesse agradável. Já quem curte uma decisão com ares mais bélicos, a diversão era garantida. O embate deixou marcas nas canelas de vários de seus protagonistas, mas o primeiro tempo chegou ao fim sem que o placar passasse pelo mesmo. Com o 0x0 encruado, Mourinho e Guardiola acionaram jogadores que chegaram com muita pompa, mas tinham apresentado pouco resultado no decorrer da temporada: Eto’o e Götze.

O camaronês se juntou a Fernando Torres no ataque e o Chelsea naturalmente adotou uma postura mais ofensiva. Götze surgia para executar a função que Pep “inventou” para Messi em seus dias de treinador blaugrana, tornando-se o tal “falso nove”. A mudança surtiu mais efeito para o time inglês. Alaba já era quase um ponta esquerda e deixou um imenso vazio às suas costas. Eto’o arrancou pela direita e cruzou para Hazard completar para o gol, de peixinho.

Novamente, os atletas do time bávaro olhavam para Guardiola, como se pedissem permissão para mandar a autoridade dele lá para a Catalunha. O tempo passava e o peito de Mourinho inflava, já que o rival pouco conseguia produzir. Muitos apostavam em um empate, até porque esta edição da Liga dos Campeões ainda não tinha visto uma decisão por pênaltis sequer, algo muito difícil de acontecer em um torneio tão parelho e afeito a grandes emoções.

Ato final

Uefa champion league trophy

Sobe a plaquinha do auxiliar: quatro minutos de acréscimos. A torcida do Chelsea já se abraça nas arquibancadas e até o mais careca torcedor do Bayern encontrou alguns cabelos para arrancar. Guardiola fecha os olhos e respira fundo. Lahm desiste de ser volante e toma seu lugar pela direita. Mandzukic corre para a área e vai jogar como legítimo centroavante, empurrando (literalmente) Götze para fora da área.

Schweinsteiger recebe a bola de Dante e acelera o jogo para Lahm, que tabela com Shaqiri e acha um mínimo espaço vazio, junto à bandeira de escanteio. Ele cruza. Madzukic sobe junto com os zagueiros e consegue desviar. Kroos enche o pé, mas acerta o peito de Ramires. A bola pinga pela área do Chelsea até encontrar Thomas Müller, que leva a torcida do Bayern ao êxtase.

Guardiola abre os olhos. Estava tão cansado depois de meses de insônia, que se pegou cochilando de pé, no momento menos propício para tal. O apito que lhe acordou era aquele que dava o segundo título europeu em três anos ao Chelsea. Dava também o terceiro título de Liga dos Campeões por três equipes diferentes a José Mourinho. Transtornado, o treinador catalão cumprimentava e reconfortava os seus atletas, mas mal conseguia lembrar o nome de cada um deles.

Na coletiva, um olhar perdido e uma série de declarações pouco ou nada esclarecedoras. Todos sabem que quem perde cumpre o ritual por obrigação ou elegância, mas quer sair daquele ambiente o mais rápido possível. Antes de subir no ônibus, Guardiola encontrou Uli Hoeness, que reafirmou a confiança em seu trabalho e garantiu a sua permanência no cargo, como não podia ser diferente. O sorriso amarelo foi a última manifestação do “prestigiado” treinador, que seguiu viagem em total silêncio.

No quarto do hotel, ligou e desligou a TV. Mudava a temperatura do ar condicionado a cada dois minutos. Sentia fome, mas desistia de comer, logo que abria a porta do frigobar. A cabeça não parava. Pensava no que tinha feito de errado, nos erros que foram consequência de seus acertos, em como voltar a acertar e em como impedir que os adversários voltassem a transformar suas ideias geniais em equívocos. Tudo era parte de um plano, afinal.

Resignado pela chegada do amanhecer, deitou-se, com a certeza de que não conseguiria dormir, de tão pilhado que estava. Fechou os olhos e desmaiou quase que instantaneamente. Enfim, a situação voltava a estar toda sob o seu controle, por pior que ela se apresentasse.