Os laços entre o futebol e o Carnaval brasileiro são antigos e consistentes. Vêm de muito antes da tão discutida presença das escolas de torcidas organizadas nos desfiles de São Paulo, diga-se. Várias agremiações, inclusive, nasceram a partir de times de futebol. Não dos times grandes, mas de times amadores, times de bairro. Como exemplos, temos a Mocidade, fundada por moços que atuavam por um time chamado Independente, e a União da Ilha, que até hoje é chamada por muitos moradores do bairro de “O” União, em referência ao time de mesmo nome, que lhe serviu de base.

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É verdade que esses laços já foram mais animados. Os boleiros continuam frequentando os camarotes da Sapucaí e do Anhembi e, vez por outra, também aparecem desfilando por alguma escola. Mas foi-se o tempo em que a grande fofoca do Carnaval era se Edmundo ou Romário deram uma fugidinha de seus clubes na Europa para desfilar pelo Salgueiro. Este ano, as coisas podem ser diferentes. Tudo porque a Grande Rio escolheu a cidade de Santos como enredo. Naturalmente, o alvinegro praiano será parte importante do desfile, que fará a menção obrigatória ao rei Pelé e também àqueles que a sinopse do enredo chama de seus príncipes, Neymar e Robinho (reclamações ao carnavalesco da escola, não atire no mensageiro).

A Grande Rio desfila já na alta madrugada da segunda-feira e, claro, estará cheia de “parças” do Neymar, cuja integração com as tantas atrizes e modelos que desfilam normalmente pela “escola dos artistas” promete ser explosiva. Isso sem contar que, de repente, aparece alguém do Fisco espanhol, da Receita Federal ou do Ministério Público para fazer uma breve e desinteressada diligência. Mas os santistas não serão os únicos futebolistas homenageados neste Carnaval. Na madrugada anterior, a Caprichosos cantará o exótico enredo “Tem gringo no samba!”, citando estrangeiros que brilharam no Brasil, tendo como principal homenageado e fio condutor… Dejan Petkovic!

Caso alguma escola tenha ficado com inveja, sempre pode achar um enredo boleiro para chamar de seu no ano que vem. Histórias a ser contadas não faltam. Aqui vão algumas sugestões: 

Yes, Nós Temos Mourinho
José Mourinho (AP Photo/Matt Dunham)
José Mourinho (AP Photo/Matt Dunham)

Se as escolas de samba fossem uma manifestação cultural portuguesa, é fato que José Mourinho já teria sido homenageado com um enredo em sua terrinha. Não sem mérito, já que se trata de um profissional inegavelmente vitorioso, campeão por onde passou: Portugal, Inglaterra, Itália e Espanha. E não há nada melhor para um carnavalesco preguiçoso do que escolher um enredo onde ele não tenha de pensar muito e possa decorar cada carro alegórico como se fosse o pavilhão de uma nação no Epcot Center.

A intenção inicial era abrir a homenagem com os melhores amigos de Mourinho, todos elegantemente vestidos de fraque e cartola. Mas como o regulamento prevê um número mínimo de integrantes em uma comissão de frente, Materazzi e Jorge Mendes tiveram de ser reposicionados. Depois, pensou-se em trazer então os desafetos de Mourinho formando uma comissão bem irreverente. Mas também há um número máximo de quinze integrantes, o que fez o carnavalesco optar por colocá-los para desfilar em cinco ou seis alas. Até sete, se todo mundo resolver aparecer para ver o homenageado pelas costas.

Por fim, surgiu uma ideia genial para contornar o problema: a comissão de frente será um time de futebol, que tentará, em vão, invadir o abre-alas da escola, um ônibus de 150 metros de comprimento. É verdade que, como o ônibus estará estacionado, isso pode arruinar a evolução do desfile. Nada que vá mudar muito a colocação final da escola. Afinal, em se tratando de um enredo sobre Mourinho, o título já estaria perdido na leitura das notas do quesito harmonia.

Inovações na abertura do desfile à parte, a forma de relatar a trajetória do Special One seria bem tradicional, como costuma acontecer em enredos biográficos. Não apenas suas vitórias seriam lembradas, mas também a doída demissão do Chelsea. Neste setor viria a bateria, com 300 componentes fazendo intermináveis paradonas, já que estarão vestidos de Diego Costa e apenas atacarão os seus instrumentos quando os jurados não estiverem olhando. Como rainha de bateria, é claro: Eva Carneiro.

O toque de fantasia do enredo viria no final. Após suas férias (forçadas) no litoral pernambucano, Mourinho decide que é chegada a hora de encarar o Desafio Muricy Ramalho do Football Manager e provar que é mesmo bom, ganhando um estadual sucateado. A última alegoria traz um Mourinho inflável de 900 metros de altura (ou seja, com apenas 1/900 avos do tamanho de seu inflado ego), com o ventre translúcido, deixando visível o rei momo que habita a sua barriga. E se as notas não agradarem no dia da apuração, a gente já sabe: ele vai culpar os jurados, as outras escolas, a Globo, a rainha de bateria (mais uma vez)… e ainda tripudiar do Arsène Wenger, por não ter conseguido virar enredo ainda.

A Viagem do Pato Encantado
Alexandre Pato no último jogo que vestiu a camisa da Seleção, no dia 7 de setembro de 2013 (AP Photo/Felipe Dana)
Alexandre Pato no último jogo que vestiu a camisa da Seleção, no dia 7 de setembro de 2013 (AP Photo/Felipe Dana)

Era uma vez… a história de um filhote de pato, acidentalmente chocado no ninho de um cisne. Displicente e distraído, vivia tropeçando e se machucando. Foi até fazer tratamento nos Estados Unidos, para tentar se ver livre de tantas lesões. Tentava imitar a elegância e a altivez de seus irmãozinhos, que o rejeitavam e zombavam de seus esforços. O pequeno cisne Alexandre decide então fugir e acaba encontrando um sustento e um talento no futebol, ainda que nunca tenha tido lá muito prazer em chutar uma bola para lá e para cá. O seu negócio era ser cisne. Era desfilar pelos lagos, todo garboso, e ser confundido com um pedalinho.

É assim, de forma lúdica e infantil, que será contado o enredo. Aliás, a mesma forma lúdica e infantil com a qual o homenageado bateu aquele pênalti pelo Corinthians, contra o Grêmio. O menino-cisne Alexandre deve ter pensado que Dida, um exímio pegador de pênaltis, é que era um pato… Sem saber que o pato é ele. Ainda que se ache um cisne. E ainda que alguns moradores de Londres, mesmo cercados por patos em todos os parques, também jurem que ele ainda pode ser um cisne. Por isso, compraram gato por lebre. Calma, que agora eu fiquei confuso. Vou até anotar aqui para jogar no bicho.

Aliás, bicho é o que não falta neste enredo. Teremos, por exemplo, aquela passagem em que Alexandre namorou uma bela perua em Milão. Uma perua que era filha de uma verdadeira ave de rapina, que fez de tudo para depenar a Itália inteira. Teremos também o encontro dele com um ganso, que até sabe que é ganso e toca na bola com a elegância de um cisne, mas às vezes não se toca que não é lá o faisão que todos nós pensávamos que ele seria um dia. Isso sem contar todos os pavões que Alexandre encontrará pelo caminho, já que seu destino é ser estrela e o seu sonho desfilar em um tapete vermelho de Hollywood.

Ao final do desfile, o homenageado será cercado por repórteres, que farão, um por um, aquela pergunta super criativa: “E aí, Alexandre, qual foi a sensação?”. No que o pato-cisne responderá, para surpresa geral de todos, que está feliz, está tranquilo, está 100%. Que ensaiou assim, e por isso desfilou assim. Sua tranquilidade excessiva contrastará com a agonia dos dirigentes da escola, que, mesmo depois do desfile iniciado e o leite derramado, passarão o tempo todo ao telefone, tentando repassar o enredo para uma coirmã desavisada. Vai que cola. Falando nisso, ao menos a Fiorella estava linda de rainha de bateria.

Ratos e Urubus, Larguem Meu Futebol
No bonde do FBI, só não vai quem já morreu (ou quase isso). Foto: Mary Altaffer/AP
No bonde do FBI, só não vai quem já morreu (ou quase isso). Foto: Mary Altaffer/AP

Os enredos com crítica política e social já fizeram bem mais sucesso no Carnaval brasileiro. Enquanto nos blocos de rua as máscaras de políticos nunca chegaram a desaparecer (sim, você verá a cara do Eduardo Cunha a cada dez passos que der, e se reclamar muito vai ver um japonês da Federal também), as escolas de samba parecem cheia de dedos, evitando ao máximo colocá-los na ferida. A São Clemente e a Mocidade prometem críticas mordazes a nossos políticos nos desfiles de 2016, mas caso a timidez persista, um enredo debochado sobre as falcatruas no futebol mundial cairia muito bem. São muitos os personagens a serem ridicularizados. E muitos os traseiros a serem chutados (continue espiando, Valcke).

Se a intenção é causar, não há como fugir de polêmicas. Às vésperas do Carnaval, a cúria da Igreja Católica exigirá que o abre-alas da escola não vá para o desfile. Tudo porque ele conta com a escultura de um Cristo-Cartola, com dinheiro caindo pelos bolsos e as mãos sujas de lama. O jeito será cobri-lo com um plástico preto e escrever alguma coisa em cima. Ou substituí-lo pelo coronel mais velho que encontrarem entre os vice-presidentes da CBF, ou até mesmo pelo Gianni Infantino. Seja qual for o improviso escolhido, nada derrubará a felicidade das baianas, que já cogitam nunca devolver à escola as fantasias de propina cujas saias trazem um mosaico formado com notas de dólares e euro. Curiosamente, todas com números de série sequenciados… Numerologia, talvez?

Uma boa notícia para a escola que optar por esse enredo é que nem vão precisar decorar muito os carros alegóricos. Basta colocar uns sofás com uns velhacos de terno bebendo champanhe, fumando charuto e petiscando um caviar e explicar aos jurados que todas as alegorias seguem o padrão Fifa e precisam contar com área VIP para os chefões da entidade. Celebridades internacionais sempre ajudam a trazer os holofotes para a escola e o elenco de “United Passions”, o filme oficial da Fifa, certamente aceitará o convite para desfilar em um deles. Se eles não rejeitaram o cachê para fazer aquele filme horroroso, por que rejeitariam uns trocados para brincar no Carnaval?

Interatividade será uma marca do desfile. O carro em homenagem a Ricardo Teixeira reproduzirá um subúrbio de luxo na Flórida, onde o público tentará encontrar o dirigente, que continua se escondendo até hoje. Uma alegoria viva em formato de coração representará a gestão de Platini à frente da UEFA. Nela, não pararão nunca de entrar pessoas vestidas com camisas de clubes e seleções do Velho Continente, já que as competições europeias hoje em dia são como coração de mãe, onde sempre cabe mais um. Por fim, um carro lembrando de Havelange, onde todos desfilarão dentro de caixões. Afinal, todos nós vamos morrer antes dele, pelo jeito.

Encerrando o desfile, o último carro tratá modernosos telões de LED, onde serão vistos todos aqueles que não puderam comparecer por conta de compromissos inadiáveis com o FBI ou a Justiça suíça (não é chato quando sua pena coincide justamente com o Carnaval?). José Maria Marin poderá assim receber todo “o carinho da torcida” e se emocionará muito ao desfilar virtualmente ao som de uma bateria apelidada de “Medalha de Ouro”.

Verás que Um Filho Teu Não Foge à China
Renato Augusto é apresentado no Beijing Guoan
Renato Augusto é apresentado no Beijing Guoan

As belezas do Oriente sempre despertaram a curiosidade de todos que estão do lado de cá de Greenwich. E até hoje inspiram os carnavalescos a trabalhar com uma estética diferente, cheia de dragões, leques e com muito, muito vermelho. E convenhamos: estar no vermelho é uma aptidão natural de quase todas as agremiações do Carnaval brasileiro (e antes fossem só as do Carnaval…). Sendo assim, nada mais natural que alguma escola de samba tenha se rendido à moda do momento (ou melhor dizendo, à proposta irrecusável do momento) para desenvolver um enredo gordamente patrocinado sobre o êxodo de nosso pé de obra para o futebol chinês.

O enredo começará lá mesmo, na China, um dos 83 países onde o futebol teria sido inventado. O abre-alas não foge ao clichê, trazendo um imenso dragão que faz embaixadinhas, tornadas possíveis por artistas de Parintins. Escultura que, no barracão da escola, ganhou o carinhoso apelido de Ronaldinho Gaúcho. Lanternas chinesas ornamentadas com cifras milionárias levam ao segundo setor, destacando Marco Polo (não o Del Nero, que já desfilou na escola anterior), o primeiro agente credenciado Fifa de jogadores e especiarias da História. Conta-se que, a partir de suas andanças pelo mundo, Marco Polo acabaria espalhando por todo o Ocidente o hábito de jogar futebol, comer pizza, tomar sorvete, usar pau de selfie e jogar Candy Crush. Não necessariamente ao mesmo tempo, mas fica a critério de cada um.

Depois de enumerar os feitos das dinastias Ming, Qing, Xing Ling e Zhi Zhao Tin, o desfile traria os imperadores do futuro: Cuca, Felipão, Luxemburgo e Mano, acompanhados cada um por seu respectivo tradutor. Mas eles não ficarão muito felizes quando descobrirem que serão ofuscados por alguém que estará desfilando em uma posição muito mais humilde que a deles. O momento mais emocionante do desfile será a passagem de Tite à frente de uma ala com os poucos sobreviventes do elenco do Corinthians campeão brasileiro de 2015. Até pelo reduzido número de integrantes, o treinador não terá muitas dificuldades para mantê-la compacta e equilibradamente distribuída pela avenida, como tanto preza.

E no último setor… Bem, no último setor, nada acontecerá. Os componentes das últimas alas, as composições e os destaques do último carro, e até mesmo os componentes da bateria, que estava no recuo (e sim, é maldade dizer que ela foi parar lá por orientação do Tite), foram todos negociados com o futebol chinês. A propósito, a alegoria em questão nem entrou na avenida, já que os empurradores também foram negociados. Tamanha debandada talvez explique por que as arquibancadas já se encontrem completamente vazias ao final do desfile. Tudo tem seu preço. Ainda mais quando há um chinês interessado na aquisição.