Conforme registrado no post passado, reservei as minhas primeiras aparições depois das férias para comentar alguns temas que ocuparam as manchetes durante a minha ausência. Na versão brasileira do tema, só assuntos chatos. Afinal, o que menos se faz por aqui é comentar o que acontece dentro de campo, com tantas distrações para tomar as atenções da mídia fora dele.

O pouso de Ganso

Que me desculpem aqueles que curtem, mas considero as novelas sobre contratações de jogadores um porre. Até então, nada demais, o futebol não está aí para atender a meus gostos pessoais (o que não deixa de ser uma grande injustiça!). O que de fato pode ser considerado um problema é que esses folhetins intermináveis acabem servindo para mascarar atos de má gestão, quando utilizados de forma populista pelos dirigentes envolvidos. Nessa hora, tanto o torcedor sonhador, que monta esquadrões imbatíveis com os bombásticos reforços cogitados, quanto o intrépido setorista em busca de um furo jornalístico, tornam-se vítimas das palavras de gente que não merece um pingo de confiança.

Evidente que há uma necessidade da imprensa em informar ao leitor sobre a tentativa de contratação. Por mais que se torça o nariz para a novela que ganha corpo, é preciso estar em cima dos fatos, para que a notícia não escape. O que gera situações desconfortáveis, como repórteres sérios tomando rasteiras de suas fontes e bancando contratações que nunca veem a luz do dia. Ou que até verão, mas nem estavam perto de ser concretizadas. Ainda bem que dessa vez, o negócio demorou, mas saiu. E vivemos felizes para sempre. Mas nem todos.

O Santos, mesmo tendo embolsado uma boa quantia por um atleta que passou de grande esperança a enorme ponto de interrogação, saiu perdendo de qualquer forma, por mostrar falta de traquejo para a lidar com a situação. Claro, o tamanho da perda será relativo. Se Ganso voltar a jogar bem e se consagrar em um clube rival, aqueles milhões não passarão nem perto de compensar o desgaste. Por outro lado, se o problema do meia estiver mais em suas condições físicas e nos atropelos de quem conduz a sua carreira do que no ambiente que tinha no alvinegro praiano, o clube terá se livrado de uma boa encrenca. A questão principal aqui é que foi “a encrenca” quem quis se livrar do Santos.

Da parte do São Paulo, a aposta é arriscada. A possibilidade do tricolor ter pagado um mico caro e histórico e a chance de que a contratação tenha sido um golpe de mestre coexistem. Quem ousa, vence, diriam alguns adeptos das frases feitas.É positivo que o clube aproveite a boa fase econômica que vive para fazer um investimento alto. Mas há de se perguntar se não dava para fazer um negócio mais seguro e bem pensado, ainda mais quando o dinheiro pago por Lucas só chegará aos cofres no final do ano.

Para Ganso, a mudança é interessante. Sairá da sombra de Neymar e terá, em um grande clube, a oportunidade de cumprir tudo o que o seu futebol prometia quando surgiu. Se suas condições físicas permitirem, só dependerá dele retomar a sua carreira em grande estilo. Uma boa dica para colocar isso em prática é não permitir ingerências por parte de quem negocia em seu nome. E Paulo Henrique já chegou com sorte à nova casa. A boa fase do quarteto formado por Jadson, Lucas, Osvaldo e Luís Fabiano, proporcionada pelo bom trabalho desenvolvido por Ney Franco, permite ao atleta que se recupere com calma, evitando um cenário onde, normalmente, uma rápida estreia seria cobrada de forma incessante.

O faniquito de Leandro Vuaden

O Náutico faz uma campanha acima das expectativas no Brasileirão de 2012. Tem um desempenho sofrível fora de casa, é verdade, mas compensa com uma campanha quase irretocável como mandante. Tendo o que é certamente uma das folhas salariais mais baixas da competição, pode garantir seu lugar entre os dez primeiros ao final dela. Embora a prudência seja sempre algo a ser recomendado para quem vem de algumas temporadas na Série B, o risco de rebaixamento é bem baixo, já há várias rodadas.

Sendo assim, nada justifica o coitadismo presente nos dizeres da polêmica faixa estendida por sua torcida nos Aflitos. “Não irão nos derrubar no apito!” parece coisa de quem está na zona do rebaixamento, já desenganado sobre qualquer restinho de esperança. Por mais que os árbitros tenham errado contra o Timbu, não afetaram a colocação do clube. Ou alguém acha que se houvesse uma intenção clara de rebaixar o Náutico, ele estaria tão bem situado na tabela? Mas sem querer, ao se vitimizar, o torcedor que levou a faixa acabou mesmo sendo feito de vítima.

Irônico que o gesto tenha vindo logo de Leandro Vuaden, um árbitro que se destacou no futebol brasileiro por deixar o jogo correr, não parando a partida para marcar qualquer faltinha. Ao se recusar a iniciar a partida na presença daquela faixa, ele mostrou que seu estilo não deve estar ligado ao gosto por um futebol mais dinâmico, mas mesmo ao apego à truculência. Por mais inoportuno que fosse o conteúdo do protesto do torcedor, ninguém tinha o dinheiro de sufocar uma manifestação puramente pacífica. E talvez isso explique parte dos problemas da arbitragem brasileira: essa ilusão dos apitadores de que eles são autoridades, só que no sentido coronelista da expressão.

Mas o pior mesmo foi ter lido, dias depois do ocorrido, declarações da diretoria do Náutico, disposta a proibir manifestações semelhantes de sua torcida, por medo de tomar uma punição da justiça desportiva. Pelo jeito, a torcida é mais destemida que os que mandam na instituição. É como se ela entrasse em campo nos jogos dos Aflitos e os dirigentes alinhassem como visitantes. Nem preciso dizer qual desempenho está mais à altura das tradições do alvirrubro de Rosa e Silva. Com coitadismo e tudo.

A intolerância dos torcedores

Os casos já foram relatados à exaustão: 1) uma menina de 12 anos e seu pai foram cercados por alguns babacas, inconformados por ela ter pedido uma camisa do são-paulino Lucas, de quem é fã; 2) um escocês em viagem a São Paulo saiu corrido do Pacaembu por vestir uma camisa do Celtic em um jogo do Corinthians. Quando você pensa que torcedores rivais se matando é o cúmulo da intolerância nos estádios brasileiros, eis que surgem situações que, se não chegaram a se tornar trágicas, deixam claro que o problema é endêmico e crônico.Sempre é bom ressaltar que tais atos partiram apenas de uma pequena parcela das duas torcidas. O que não torna o assunto menos grave e ganha contornos mais assustadores quando você vê que muitos não chegam a tal ponto, mas pregam violência semelhante nas redes sociais e comentários de blogs e notícias de grandes portais. Nunca gostei desse papo de considerar o futebol uma religião. Primeiro, que religião é um assunto muito sério e já complicado por si só. Segundo, porque, junto com a tal da paixão, essa linha de pensamento serve de falsa justificativa para atos intempestivos. Como se as pessoas não pudessem se controlar quando esse sentimento toma conta delas. Tudo balela

Você pode até considerar o escocês imprudente. Afinal, ele não se informou de que a cor do maior rival do Corinthians era justamente a do clube dele. Mas como ele mesmo declarou, já cansou de ver pelo mundo torcedores com camisas de times de outros países em estádios neutros. É um hábito normal inclusive para brasileiros, que gostam de vestir as cores do seu time quando viajam ao exterior e frequentam competições esportivas. Se alguém fosse ofendido com a camisa corintiana em um jogo do Celtic, já ia ter brasileiro pregando boicote ao uísque de lá… Aqui, o pano rápido prevaleceu.

Há de se perguntar também se pessoas que dizem amar o futebol não deveriam saber da existência de um grande clube como o Celtic, que veste verde e tem uma camisa completamente diferente da do Palmeiras. Sem contar que a rivalidade daqueles torcedores é contra o Palestra, ou contra uma simples cor? Infelizmente, esse comportamento acaba incentivado por gente que considera subserviência acompanhar o futebol de outros países. Informação nunca é demais. E estar informado é saber que o mundo vai muito além do nosso quintal. Compreender que a mais fervorosa torcedora mirim de um clube pode admirar um jogador adversário. E que um escocês, mesmo vestindo a cor “errada”, poderia ter se apaixonado perdidamente pelo Corinthians, se não tivesse saído corrido de lá por um punhado de desequilibrados.

Errata: No post passado, escrevi que Joachim Löw descartou Ballack para a Copa de 2010. Cometi um erro pelo qual peço desculpas, a memória me traiu. Na verdade, o treinador da seleção alemã preferiu esquecer do meia após o torneio disputado na África do Sul, do qual ele ficou fora por conta de uma lesão. Erro imperdoável de informação à parte, meu raciocínio segue intacto: ao ser barrado na seleção, Ballack parece ter perdido o que lhe restava de respeito junto ao grande público. O que acabou tornando as reações à sua aposentadoria bastante mornas, tendo em vista o que ele fez no futebol, mesmo sendo um chato de galochas.