Viajar durante as férias faz muito bem para a cabeça de qualquer um. Ver pessoas diferentes, fazer coisas com a qual não se está habituado, ficar cercado de um novo ambiente (de preferência, um que seja mais saudável e civilizado), deixar para trás as recorrentes mazelas do cotidiano, tudo isso faz com que você renove as suas energias para conseguir aturar melhor aquela mesma velha ladainha de sempre, quando o retorno torna-se inadiável. Por outro lado, se você costuma estar sempre conectado, depois de alguns dias, bate aquela sensaçãozinha de estar ficando para trás, sem saber do que está acontecendo na “vida real”.

A ironia é que, quando você volta, nota que nem aconteceu tanta coisa assim. E começa a se perguntar se vale mesmo a pena passar o dia inteiro convivendo com “a tal da informação”, sendo que a maioria do que você absorve durante o dia não lhe servirá de nada já na manhã seguinte. Aí, você volta para casa decidido a driblar esse excesso, levar uma vida mais leve, passar mais tempo com a família, ver mais filmes, ler mais livros… até ser tragado pelo cotidiano novamente e se pegar lendo sobre coisas que nem lhe faziam mais falta naquelas três semanas.

Feita a reflexão de botequim, vamos aos pitacos sobre coisas que aconteceram na ausência deste prolixo blogueiro. Eles virão ao melhor estilo das trilhas sonoras de novela: em versões nacional e internacional. Fique à vontade para escolher um dos personagens citados para estampar a capa deste disco (riscado) imaginário.

Já vão tarde

Sobre a despedida de Michael Ballack do futebol, eu soube de fonte privilegiada. Provavelmente, depois de vocês todos. Mas, garbosamente, recebi a notícia em alemão, pois estava em Berlim. O que eu fiquei sabendo com muito atraso é que o meia ainda não tinha se aposentado formalmente, dado que mal atuou com regularidade em seu retorno ao Leverkusen. Figura polêmica, de postura bastante antipática, Ballack acabou não sendo reconhecido como deveria. A própria matéria da TV local era curta, fria e distante. Não me pareceu ser por uma questão cultural, mas pelo fato do jogador ter, nos últimos anos, esgotado a paciência de todos.

Seus números pela seleção tedesca são excelentes: 42 gols, em 98 aparições. Sua presença não mudaria nada na final de 2002, mas é inegável que ele foi um dos principais destaques na campanha (nada empolgante, mas eficiente) que levou a equipe até lá. Também foi bem em clubes, tendo feito parte do melhor Leverkusen de todos os tempos (falhas na hora da decisão à parte) e levantado uma porção de taças por Bayern e Chelsea. A sábia decisão de Joachim Löw em não levá-lo para a Copa de 2010, onde ele só causaria problemas no ambiente e não jogaria o suficiente pra justificar que Müller ou Özil fossem barrados, acabou sepultando de vez o respeito “público” por Ballack, que, se não foi um craque, conquistou bem mais do que alguns atletas cheios de talento, mas com pouca capacidade de realização.

Quem também perdeu respeito e pendurou as chuteiras foi John Terry. Mas só as que vestia pelo English Team. Irritado com a decisão da Football Association em puni-lo por racismo na encrenca com Anton Ferdinand, o capitão do Chelsea decidiu que não jogaria mais pela seleção de seu país. Terry tem muitos defeitos morais (se brincar, todos), mas foi coerente. Se ele realmente luta para provar sua inocência, não faz sentido continuar defendendo uma equipe gerenciada pela federaçao que não acredita na sua palavra.

A curto prazo, o zagueiro fará muita falta ao time de Roy Hodgson, a despeito do que pensem seus detratores. Mas como a idade já batia à sua porta, abre-se a oportunidade para renovar a defesa inglesa. Algo que o treinador parece querer fazer, como prova o esquecimento de Rio Ferdinand, mesmo depois do desafeto de seu irmão ter pulado fora do barco. Bem que o Lampard podia fazer uns comentários racistas também, né não Mr. Hodgson?

Novas chances

Pouco antes das férias, escrevi que a teimosia de Kaká, Real, Mourinho, ou de todos eles juntos, colocava em risco a reta final da carreira do brasileiro. Seja para contornar rusgas no vestiário merengue, mais divivido que direitos federativos de jogador adquirido por agência de investimentos, seja por querer ver como ele se sairia, o treinador português deu uma chance a Kaká em um amistoso contra o Millionarios, a qual foi devidamente aproveitada. Desde então, tem jogado com alguma frequência e feito bom papel. Por mais que a escalação para o clássico contra o Barcelona mostre que o dono da posição continua sendo Özil, entre um cochilo e outro.

Ainda é cedo para bancar um recomeço de Kaká em Madri, mas ao menos os minutos em campo já serviram para concretizar seu retorno à seleção brasileira. Que alguém como ele tem feito falta ao meio-campo da equipe, acho que não se discute. Resta saber se o meia terá tempo de jogo suficiente no clube para que não destoe no time de Mano Menezes. O treinador terá também de se dedicar a aproveitá-lo de forma criteriosa, sob pena de levantar a desconfiança de que o jogador foi convocado apenas para lhe servir de escudo… Qualquer semelhança com a desastrosa passagem de Ronaldinho Gaúcho por sua gestão, claro, é apenas mera coincidência.

Super fiasco das Américas

Nesse aí, o Mano não tem culpa. Que a reedição mambembe da finada Copa Roca era uma furada, todos já sabiam. Antigamente, fazia sentido que Brasil, Argentina e Uruguai se enfrentassem o tempo todo, porque as distâncias eram mais difíceis de serem transpostas. Não era uma questão apenas local, como prova o histórico de repetidas partidas entre as seleções britânicas, só para ficar no exemplo mais tradicional. Mas em pleno 2012, colocar brasileiros e portenhos para se enfrentarem em seguidos amistosos modorrentos é desgastar a rivalidade e diminuir ainda mais o interesse do torcedor médio pela sua seleção.

A ideia de dar uma vitrine a jogadores atuando nos campeonatos dos dois países é até simpática, mas gera mais dor de cabeça do que proveito. É complicado não pegar a escalação de Mano para o clássico e não torcer o nariz para alguns nomes, mesmo que se tenha a noção de que não há nada muito melhor à disposição. Para piorar tudo, a madame que preside nossos vizinhos teve a fabulosa ideia de levar o confronto para uma cidadezinha pequena e o estádio de um clube de quarta divisão (em um país onde a Segundona já é um poço sem fundo). Seja quais foram as razões do blecaute, colheram o que plantaram.

Sabe quando um personagem de desenho animado ou revista em quadrinhos tem uma ideia e uma lâmpada se acende dentro do balãozinho que representa seus pensamentos? Pois bem, as lâmpadas se apagaram. Com gosto. Vamos ver se a CBF e a AFA captam a mensagem e dão fim a essa palhaçada. Se fizerem rápido, muita gente nem vai lembrar dessa mancha que criaram para uma das rivalidades mais bacanas do futebol mundial.

Eu avisei

Ninguém precisava ter o dom da clarividência para saber o que acabaria acontecendo com a zaga do Barcelona. A desculpa de que não encontraram uma boa opção disponível para contratação não cola. Claro que o ideal seria adicionar um Hummels ou Javi Martínez ao elenco e que os preços cobrados por eles beirariam o absurdo, mas um clube desse porte tem todas as condições de achar um jogador mais modesto para compor o grupo, ou mesmo investir em um defensor de futuro. Não fez nada disso e teve de encarar parte de um jogo da Champions League com Song e Mascherano na zaga e um clássico contra o maior rival onde o improvisado era o lateral Adriano, que, justiça seja feita, tem sido um dos melhores culés na temporada.

OK, são duas vitórias na competição continental, mais seis e um empate na liga doméstica. Criticar algo assim agora pode parecer alarmista, mas esperar as coisas pararem de dar tão certo (o que acontecerá se os comandados de Tito Vilanova seguirem sem apresentar um futebol dos mais convincentes) para cutucar a acomodação da diretoria catalã seria algo muito pior: oportunismo. Fica claro que os dirigentes estão mais preocupados em levantar a justificável bandeira da independência da Catalunha no momento mais inoportuno possível do que em cuidar do principal garoto-propaganda da causa. Que continua forte, mas já não apresenta mais a supremacia de até pouco tempo atrás.

Mal posso esperar para ver Xavi e Iniesta formando a zaga do Barcelona, como antecipei na minha contribuição com o guia da Champions League da Trivela. Com Messi de volante, para não sentir muitas saudades deles.