Dos 55 campeonatos nacionais organizados na Europa, 54 foram suspensos por causa da pandemia de coronavírus ou adiaram o pontapé inicial, entre aqueles que adotam o calendário anual. A única liga que resolveu seguir em frente com as atividades é a de Belarus. Não apenas iniciou sua temporada neste final de semana com a primeira rodada da competição, como ainda manteve os portões abertos ao público. Num mundo que conta suas vítimas e teme quantas pessoas mais a doença pode infectar, a atitude do Campeonato Belarusso parece surreal – e também uma afronta, bem como uma temeridade.

Segundo a Universidade John Hopkins, que apresenta em tempo real os dados do coronavírus, Belarus possui 76 casos confirmados da doença até este domingo. O número de testes positivos subiu em 25 pessoas desde a última quinta-feira, quando o campeonato começou. Não foram registrados mortos no país de 9,5 milhões de habitantes e, até o momento, 15 infectados já se recuperaram da doença. Mesmo com a curva ascendente, as autoridades locais desdenham dos riscos que as aglomerações representam.

“Por que razão não começaríamos o campeonato? Há um estado de emergência declarado no país? Não há situação crítica. Por isso, decidimos iniciar a liga. Muitas partidas na Europa foram disputadas sem torcida, mas as pessoas se reuniram fora do estádio, então não faz sentido fechar os portões. Ainda não temos os quesitos para suspender a competição. A situação no país não é tal que precisamos parar tudo. Por que escalar esse clima?”, afirmou o presidente da federação, Vladimir Bazanov, ao site oficial da entidade.

Presidente de Belarus desde 1994, quando o cargo foi instituído, Alexander Lukashenko é o principal responsável para que o futebol adote tal postura. O ditador possui uma longa lista de acusações em seu histórico, desde a óbvia falta de democracia no país e o desrespeito aos direitos humanos, até comentários antissemitas e elogios a Adolf Hitler. Não surpreende, portanto, o posicionamento imprudente (para dizer o mínimo) de Lukashenko nos últimos dias. Belarus segue com sua vida normal. O presidente orientou aos cidadãos que “tomem vodca, frequentem a sauna e trabalhem duro” como medidas de combate ao vírus. A vizinha Rússia fechou suas fronteiras, o que o estadista declarou como uma medida “estúpida”.

Não são todos os cidadãos que compram as ideias de Lukashenko, felizmente. A primeira rodada do Campeonato Belarusso, que aconteceu de quinta a domingo, contou com uma média de público mais baixa que o comum. Pouco mais de 9,4 mil espectadores estiveram presentes em oito estádios para ver os duelos, com média de 1,3 mil pessoas por encontro. Em 2019, a média chegou a 2,5 mil torcedores por partida. A queda é simbolizada pelo atual campeão, o Dynamo Brest. De 8,9 mil presentes por compromisso em casa na campanha do título, os donos da taça atraíram 3,6 mil pessoas ao seu estádio no retorno aos gramados. Ainda assim, não deixam de ser aglomerações preocupantes no combate ao coronavírus.

E a federação de Belarus promete não voltar atrás em sua decisão. Conforme os dirigentes, o campeonato deverá terminar dentro do previsto, em dezembro. “Apesar das circunstâncias nervosas ao redor do começo da nova temporada, a Belarusbank Top League ainda iniciará sua temporada de 30 rodadas. Estamos sinceramente felizes com essa notícia e convidamos os torcedores a virem às arquibancadas”, anunciaram, em nota oficial. E há quem trate o risco aos outros como diversão. Segundo a Associated Press, diferentes canais de televisão procuraram a federação para transmitir a liga.

Nesta primeira rodada, 69 jogadores estrangeiros participaram do Campeonato Belarusso, entre os 119 disponíveis nos elencos. Destes, sete são brasileiros – que você pode conhecer através desta lista elaborada pela ótima Revista Série Z. Ainda assim, a federação afirma que não há perigo dos atletas se amotinarem e paralisarem o torneio. “Nenhum jogador estrangeiro se recusou a disputar o campeonato. Todo mundo está a postos e vai jogar”, apontou Yuri Primakov, porta-voz da federação, à Associated Press.

A bola rolou em oito partidas na rodada inaugural, e os placares guardaram diversas zebras. Dono de 13 taças consecutivas até a derrocada na temporada passada, o Bate Borisov visitou o Energetik-BGU Minsk e perdeu por 3 a 1, vendo os oponentes assumirem a liderança. O campeão Dinamo Brest só empatou por 1 a 1 dentro de casa, enquanto Dinamo Minsk (potência local nos tempos soviéticos) foi derrotado diante de sua torcida. Gabriel Ramos, atacante do Torpedo-BelAZ Zhodino, foi o primeiro brasileiro a balançar as redes. Ele definiu o triunfo sobre o Shakhtjor Soligorsk por 1 a 0, com um tento aos 46 do segundo tempo.

Resta saber o que acontecerá quando o número de casos em Belarus começar a se multiplicar e se algum dos atletas acabar infectado. Neste momento, o país adota uma postura que especialistas de todos os outros países europeus preferem evitar por ser temerária. Jogadores e torcedores terminam submetidos a isso, sabe-se lá por escolha própria, por desinformação ou por medo de alguma represália do clube e do próprio governo autoritário.