Enquanto homens do Liverpool se aproximam de fazer história, mulheres são rebaixadas e deixadas de lado

Graças ao seu apoio, as colunas das cinco grandes ligas da Europa estão de volta, começando pela Kick and Rush, com informações e análises sobre o futebol inglês. Faça parte do nosso financiamento coletivo no Apoia.se e nos ajude a bater mais metas.

Jordan Rossiter fez um gol de muito longe em sua estreia pelo Liverpool, em 2014. Aos 17 anos, tornava-se o segundo mais novo a marcar pelos Reds, atrás de Michael Owen – Ben Woodburn o empurraria para terceiro. Meia, prata da casa, cabeça raspada, era tido como o novo Steven Gerrard que, por coincidência cósmica, foi o autor do chute que gerou o rebote do único gol que ele tem em seu nome pelo clube.

[foo_related_posts]

Com Brendan Rodgers e Jürgen Klopp, Rossiter atuou apenas cinco vezes com a camisa do Liverpool. Saiu em 2016 para o Rangers, passou por alguns empréstimos, e se reencontrou com Gerrard, atualmente treinador dos escoceses. Lesões limitaram também sua quantidade de jogos no Ibrox. Havia feito 17 nesta temporada antes de uma lesão no joelho que o afasta dos gramados desde novembro e da qual se recupera enquanto aguarda propostas. Está sem contrato no momento.

Recentemente, contou em entrevista ao The Athletic que recebeu um e-mail do Chefe de Cuidado dos Jogadores do Liverpool, em tradução livre, Phil Roscoe, embora faça quatro anos que não tem mais ligação formal com o clube. Roscoe organizou um projeto para manter contato com ex-jogadores das categorias de base. Oferece ajuda com cursos de treinadores e universitários. Cumpre a promessa feita a quem cruza os portões de Anfield: você nunca caminhará sozinho.

Desde que você seja homem.

O time masculino está a duas vitórias de fazer história com o primeiro título inglês do Liverpool desde 1990. Apenas uma, no clássico de domingo contra o Everton, pode bastar, se o Manchester City perder do Burnley no dia seguinte. Enquanto isso, o time feminino, sub-financiado, escanteado, quase esquecido, foi rebaixado à segunda divisão da Inglaterra.

Por um lado, a queda foi circunstancial. O Liverpool estava na lanterna quando a temporada 2019/20 da Superliga Feminina foi encerrada prematuramente pela pandemia de coronavírus. Estava um ponto atrás do Birmingham (que tinha um jogo a menos) e a três do Bristol City. Havia oito rodadas pela frente e, apesar da campanha terrível até então, com apenas uma vitória, três empates e dez derrotas, tinha chance de escapar.

Não apagaria, porém, o fato de que há muito tempo poucas pessoas ligam de verdade para o que acontece com o time feminino. “O triste é que 95% dos torcedores do Liverpool não se importam. Para os que se importam, é vergonhoso que, no ano em que finalmente temos o melhor time masculino do país, o feminino foi rebaixado. É o produto de não dar atenção suficiente. Não é necessariamente dinheiro. É atenção. Se o Liverpool fizesse o time feminino se sentir parte do clube, mais pessoas o apoiariam, mas ele é colocado de lado e é fácil ignorá-lo”, afirma o apresentador do podcast The Anfield Wrap, John Gibbons, no ar desde 2011, em entrevista à Trivela.

Como outros clubes da Superliga Feminina, as mulheres do Liverpool não atuam no mesmo estádio dos homens. Alugam o Prenton Park, casa do Tranmere Rovers, também da região de Merseyside e atualmente na terceira divisão. E treinam no The Campus, centro de treinamentos do… Tranmere Rovers. “Elas são na prática o time feminino do Tranmere Rovers, jogando no estádio do Tranmere Rovers, treinando nos campos do Tranmere Rovers. O Tranmere Rovers cuida muito mais delas do que o Liverpool, o que não está certo quando você olha para os dois clubes e para o fato de que é o time feminino do Liverpool e não do Tranmere Rovers”, afirmou uma jogadora rival, não identificada, a uma reportagem da The Athetic.

A primeira e única vez em que jogaram em Anfield foi no começo da atual temporada, contra o Everton. Atraíram 23,5 mil pessoas, quase 60% do total acumulado de público que o Liverpool feminino recebeu na temporada passada da Superliga. “Provou que se você der mais atenção, as pessoas ficam mais interessadas”, diz Gibbons.

Embora seja um estádio de terceira divisão masculina, padrão superior ao da maioria dos outros campos da liga, o gramado do Prenton Park tem causado problemas. Em dezembro, a treinadora do Chelsea, Emma Hayes, soltou os cachorros após um empate por 1 a 1, debaixo de muita chuva e entre muita lama. “Este gramado não deveria fazer parte da nossa liga. Nossa liga merece padrões melhores e acho que o Liverpool – campeão da Europa – deveria dar muito mais ao time feminino do que vem dando. Acho que a qualidade daquele gramado, o pior da liga, é uma mancha para o clube”, disse.

Alguns dias depois, Hayes pediu desculpas pelo comentário, e o clube defendeu a estrutura do Prenton Park dizendo que, apesar de “péssimas condições climáticas”, os funcionários do estádio haviam conseguido fazer o jogo acontecer.

Em janeiro, mais problemas. A grama do Prenton Park foi assolada por quatro jogos masculinos do Tranmere Rovers em um intervalo de 12 dias, sete em menos de um mês. O Liverpool feminino teve dois jogos adiados, contra Birmingham e Manchester United, e outro, pela Copa da Inglaterra diante do Blackburn, foi transferido para o Bamber Bridge, perto de Preston. O Prenton Park fica a aproximadamente 10 kms de Anfield. O Bamber Bridge, a 50 kms.

Enquanto isso, o Liverpool masculino prepara-se para mudar de casa. O lendário Centro de Treinamentos de Melwood será trocado por novas instalações modernas em Kirkby, onde ficam as categorias de base. Ainda não há planos para integrar também o time feminino, embora haja espaço para duas quadras de tênis e uma de vôlei de praia. O custo da obra será de £ 50 milhões, 50 vezes maior do que o faturamento das mulheres em 2019.

O Liverpool feminino produziu por volta de £ 1 milhão naquele ano. O clube como um todo teve faturamento recorde de £ 533 milhões e lucro de £ 42 milhões, pré-impostos.

O valor não é absurdamente baixo para a liga, mas está em linha com quem briga na parte de baixo da tabela. O faturamento do Manchester City foi duas vezes maior. O do Chelsea, três, segundo esta coluna do Guardian, que traz um dado ainda mais preocupante.

Embora a Superliga Feminina da Inglaterra se propagandeie como totalmente profissional, o Liverpool listou apenas cinco “jogadoras e técnicas” e cinco “administrativos, comerciais e outros” como funcionários em suas contas de 2019. Isso porque, segundo o próprio documento, “funcionários de tempo integral são os que trabalham mais de 20 horas por semana. As 19 integrantes do time são semiprofissionais e, portanto, classificadas como funcionárias de meio período”.

Sem respaldo, sem tanto dinheiro, fica difícil segurar ou atrair grandes jogadoras. O ponto mais baixo do processo foi antes da temporada 2018/19 quando apenas três atletas que haviam disputado a última partida da campanha anterior estavam disponíveis para a estreia. Por volta de dez foram embora. Entre elas, a capitã do bicampeonato do clube, Gemma Bonner, Beth England, que retornou de empréstimo ao Chelsea e havia sido a artilheira do time, Alex Greenwood e a experiente goleira Siobhan Chamberlain.

Dando uma esfregadinha na ferida, Greenwood e Chamberlain acharam melhor defender o Manchester United, cujo time feminino havia acabado de ser fundado e militava na segunda divisão. “Quero saber que estou fazendo parte de um projeto que faz o máximo que pode para desenvolver o jogo feminino”, cutucou Chamberlain, pelo Twitter.

Um novo êxodo está em andamento e, como se tivessem coordenado declarações, as jogadoras Courtney Sweetman-Kirk, Fran Kitching e Christie Murray saíram dizendo mais ou menos a mesma coisa: que mal podiam esperar para estarem em um ambiente que as “desafiasse como jogadora e pessoa”.

O Liverpool não respondeu às perguntas enviadas semana passada pela reportagem da Trivela sobre o time feminino, mas, ao The Athletic, afirmou que “o investimento no LFC Women está crescendo e agora está em seu nível mais alto. Acreditamos em crescimento sustentável, desenvolvendo nossas próprias jogadoras pelas categorias de base, assim como apoiar a técnica para trazer jogadores que possam fortalecer o time”.

O Liverpool foi bicampeão da Superliga entre 2013 e 2014, mas a competição foi ficando mais difícil com as ascensões de Chelsea e Manchester City. O Manchester United e o Tottenham se integraram ao torneio nesta temporada, e os Reds foram ficando para trás: vice-lanternas em 2015, quinto lugar em 2016, sexto em 2017/18, oitavo em 2018/19 e, agora, rebaixados na última colocação.

“Eles (donos) venceram a liga duas vezes seguidas alguns anos atrás e isso lhes deu a falsa impressão de que era fácil”, opina Gibbons. “Mas eles tinham um grande time que permitiram que fosse embora e o substituíram com jovens e baratas jogadoras que não conseguiram jogar (no mesmo nível)”.

“As jogadoras saem com muita facilidade. Liverpool, como cidade, produziu algumas grandes jogadoras (Toni Duggan, Nikita Paris), mas todas jogam em outro lugar. Mesmo grandes jogadoras que atuaram pelo Liverpool (Lucy Bronze, Gemma Boner, Caroine Weir) agora defendem outros clubes. Isso é parcialmente por causa de salários, mas também pelo foco que o clube coloca no time feminino”.

“No Etihad Stadium, você vê fotos do time feminino levantando troféus. Se você for a Anfield, nem saberia que o Liverpool tem um time feminino”, completa.

O ano passado foi importante para o esporte. A Copa do Mundo da França foi um grande sucesso, atraiu audiência alta e motivou mais clubes a acreditarem em seus projetos femininos. Houve clubes abrindo as portas de seus principais estádios para as mulheres, aumentando investimentos e quebrando recordes de público.

Em um primeiro momento, até pareceu que o Liverpool estava disposto a impulsionar seu time feminino. Organizou uma turnê de pré-temporada conjunta para os Estados Unidos, embora tenham ficado em hotéis diferentes e cumprido roteiros diferentes. Ainda assim, foi uma ação que ressoou o slogan de “dois times, um clube” que vinha sendo divulgado amplamente pelo clube e pelo executivo-chefe e presidente da equipe feminina, Peter Moore.

Mas, como outros slogans, ficou só no discurso.

.

.