A decisão do Tribunal Arbitral do Esporte sobre as violações do Manchester City ao Fair Play Financeiro foi assunto nas coletivas de imprensa de diferentes treinadores da Premier League. Os Citizens escaparam do banimento à Champions League por duas temporadas e pagarão uma multa relativamente pequena de €10 milhões, por não colaborarem com as investigações. Pep Guardiola viu a sentença como uma afirmação de que a “conduta foi correta” e aproveitou até mesmo para atacar os críticos do clube – mesmo com o TAS avaliando que algumas acusações eram reais, mas haviam prescrito, ou que as provas eram inconclusivas para gerar a suspensão do clube na Champions.

“Merecemos um pedido de desculpas. Se nós fizemos algo errado, aceitaremos a decisão. Mas temos o direito de nos defender, quando acreditamos que nossa conduta foi correta. Três juízes independentes disseram isso. Ontem foi um bom dia para o futebol, porque jogamos com as mesmas regras do Fair Play Financeiro que todos os outros clubes da Europa. As pessoas disseram que estávamos trapaceando e mentindo, e muitas vezes a presunção de inocência não estava lá. Este clube tentou, durante toda a história, fazer o melhor possível em campo. O que alcançamos na última década foi por aquilo que aconteceu em campo”, declarou Guardiola.

O treinador do City preferiu ressaltar os méritos de seu time, sem considerar o poderio financeiro para realizar contratações: “Os clubes de elite precisam entender que merecemos estar aqui. Queremos entrar em campo e competir com eles. Merecemos ficar mais fortes ano a ano. Temos pessoas incríveis trabalhando neste clube para fazer nossos torcedores orgulhosos. Não precisamos pedir permissão para estar lá, merecemos. Quando perdermos, apertarei a mão do meu oponente e darei os parabéns”.

“Rapazes, aceitem isso. Se vocês não concordam, batam na porta do nosso presidente e conversem. Não fiquem sussurrando pelas costas como seis, sete, oito, nove clubes fazem. Vão e façam em campo. Vamos lá. Investimos muito dinheiro, como vários clubes. Mas fizemos isso de forma correta, senão teríamos sido banidos. E não fomos banidos, porque seguimos as regras do Fair Play Financeiro”, complementou.

Além disso, o espanhol aproveitou para endereçar uma resposta direta a Javier Tebas, presidente de La Liga, que criticou a sentença do TAS: “Tebas é um incrível especialista das leis. Da próxima vez, perguntaremos a ele em qual tribunal e com quais juízes deveremos ir. Ele precisa se preocupar com La Liga e focar lá. Mas quando a sentença é boa para ele, está perfeito – como várias que aconteceram na Espanha até o momento. Mas quando a sentença é contra, o problema é dos outros. Estaremos na Champions durante a próxima temporada, Senhor Tebas, porque fizemos isso corretamente”.

Antigo assistente de Guardiola, Mikel Arteta foi outro treinador a respeitar a decisão do TAS. O comandante do Arsenal também preferiu ressaltar os méritos do trabalho dos celestes: “Não há dúvidas sobre o que aconteceu. Eles merecem estar na Liga dos Campeões, porque aquilo que fizeram em campo é inquestionável – e os órgãos reguladores analisaram o assunto e decidiram que eles não fizeram nada de errado. Então, você tem os dois aspectos que são bem claros e transparentes. Eles estarão na Champions e merecem isso, por aquilo que fazem em campo e pelo que fazem fora de campo”.

Mourinho e Klopp criticam

O mais duro nas declarações sobre o caso do Manchester City foi José Mourinho. O treinador do Tottenham não quis apontar os Citizens como culpados. Porém, para ele, é incongruente que o clube receba uma multa e não uma suspensão da Champions. Segundo o português, se há elementos suficientes para multar os celestes, então a ausência no torneio continental seria muito mais condizente com a quebra de regras.

“Se o Manchester City não é culpado disso, ser punido com alguns milhões é uma desgraça. Se o clube não é culpado, você não é punido. Por outro lado, se você for culpado, deve ser banido. De qualquer forma, é um desastre. Não estou dizendo que o Manchester City é culpado. Estou dizendo que, se você não é culpado, não deveria pagar nem um centavo. Talvez eles sejam vítimas, sem ter feito nada de errado e estão pagando milhões por nada. Sei que o dinheiro é bastante fácil para eles, mas ainda assim. Se você for culpado, deve ser banido da competição. Não sou ninguém para decidir se eles são culpados ou não. Minha crítica é pela decisão”, analisou.

Mourinho vê uma desmoralização do Fair Play Financeiro diante do caso e acha que, com isso, a legislação da Uefa perde seu efeito: “Acho que este será o fim do Fair Play Financeiro, porque não faz sentido. Neste momento, estamos falando sobre o Manchester City, mas no passado outros clubes estavam em uma situação semelhante e vocês conhecem os resultados. Então, acho que o melhor é abrir a porta do circo e deixar todo mundo aproveitar, entrar de graça e sair de novo. Faça isso com liberdade”.

Jürgen Klopp seguiu pela mesma linha. Até brincou que a presença do City na Champions impede que eles se concentrem apenas na Premier League e nadem de braçada nas competições domésticas. Em compensação, o comandante do Liverpool afirmou que ainda confia no Fair Play Financeiro como um mecanismo importante de regulagem, para estabelecer limites.

“Do ponto de vista pessoal, estou feliz que o City possa jogar a Champions, porque se eu pensar na Premier League e o City tem de 10 a 12 jogos a menos para descansar os jogadores, então não vejo qualquer chance de outros times ganharem o título. Não desejo absolutamente nada de ruim para ninguém, como disse estou feliz pelo City na Champions, mas não acho que tenha sido um bom dia para o futebol, sendo honesto. Apenas porque penso que o Fair Play Financeiro é uma boa ideia. Li só um pouco sobre o City e não cabe a mim julgar estas coisas. Só acho que deveríamos nos ater a esse quadro do Fair Play Financeiro, que é para todos”, comentou.

“As regras estão lá para proteger o time, proteger a competição. Era a ideia que, no início, ninguém gastasse demais ou outras coisas do tipo. Os clubes precisam garantir que o dinheiro que desejam gastar seja baseado nas fontes certas. Realmente espero que o Fair Play Financeiro continue, porque oferece pelo menos algum tipo de limite que você não pode ultrapassar, o que é bom ao futebol”, complementou.

Para o alemão, o fim do Fair Play Financeiro aceleraria a criação de uma superliga concentrada em poucas equipes: “Se você começar a ignorar as regras, ninguém se importará mais, as pessoas ou países poderiam fazer o que quisessem e isso tornaria a competição realmente difícil. Acho que isso levaria automaticamente a uma superliga mundial, com cerca de dez clubes. Acho que isso não dependeria dos nomes dos clubes, mas das pessoas que são donas dos clubes. Faz sentido que tenhamos esse tipo de regra”.

Klopp ainda comparou com a cultura que existe no futebol alemão, onde a ideia de estrutura dos clubes é completamente diferente, baseada em associações: “Sou da Alemanha e fui educado em um sistema completamente diferente na maior parte da minha vida. Temos estruturas de clubes diferentes, é realmente uma estrutura de clube e não um sistema baseado em proprietários. Na Alemanha, desde que você permaneça neste tipo de sistema, não terá esses problemas como o do City. Fica claro de onde você tirou o dinheiro antes da temporada. Você obtém sua licença e, se não consegue, não pode disputar a competição”.

Do outro lado da tabela, Sean Dyche transmitiu um pouco a mentalidade das equipes menores. Para o treinador do Burnley, punir ou não o Manchester City não altera muito a situação de quem luta para roubar pontos dos adversários mais poderosos.

“Bem, não acho que isso mude radicalmente a situação para nós. Estaremos sempre lutando contra alguém acima do nosso peso. Há um monte de clubes em situação similar na Premier League que não estão gastando um caminhão de dinheiro, mas acho que nos desenvolvemos bem. Penso que são animais diferentes, obviamente, então não vou me envolver nessa discussão. Gerenciamos o que temos, em vez de nos preocuparmos muito com o que não temos. Tentamos criar um time e uma forma de jogar que sejam efetivas para ganhar pontos e vencer jogos. É assim que é, simples”.