Um grupo de 22 ligas do mundo se reuniu em Londres, nesta terça-feira, para discutir questões de modelos de negócio, relacionamento com fãs e trocando experiências. Países de quatro continentes estiveram representados, incluindo dirigentes das principais ligas europeias, como Alemanha, Inglaterra, França, Espanha e Itália, da África, com Quênia e Nigéria, da Ásia, com Japão, China, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes, e das Américas, incluindo Estados Unidos, México, Bolívia e Colômbia. O Brasil? Nenhum representante. Afinal, não há uma liga brasileira. Não há quem possa ir até a reunião representando o interesse dos clubes.

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O encontro foi chamado de “Global Leagues Forum” (“Fórum das Ligas Globais”) e teve a Premier League como anfitriã nesta primeira edição. Segundo informado pela European Professional Football Leagues (EPFL), somadas, as ligas presentes na reunião cederam pouco menos de 90% dos jogadores que fizeram parte da Copa do Mundo de 2014.

As ligas discutiram estratégias para o desenvolvimento do futebol profissional em cada um dos seus países, com foco em relacionamento com os jogadores e os torcedores. Os representantes também conversaram sobre os modelos de negócio das ligas.  “Enquanto todas as ligas são diferentes, os problemas que elas enfrentam são os mesmos, uma vez que cada uma procura desenvolver o jogo profissional no seu país. Experiências e abordagens serão compartilhadas, com as ligas estabelecidas se comprometendo a ajudar as ligas em desenvolvimento ao redor do mundo”, diz nota da EPFL.

A ideia do encontro é que independente das visões comuns que as ligas compartilhem, é preciso que elas falem com uma única voz, como líderes da “família futebol” – um termo que a Fifa gosta muito de usar. E sabemos que as ligas fazem uma pressão forte, por exemplo, contra os prazos estabelecidos no futebol internacional. E a próxima reunião já tem data marcada: nos dias 19 e 20 de outubro, em Nova York, com a MLS sendo a anfitriã.

“Hoje foi um dia importante para o futebol profissional. Este foi o primeiro e decisivo passo para as ligas do mundo falarem com uma única voz em questões de preocupação comuns”, disseFrédéric Thiriez, presidente da EPFL.

Enquanto isso, no Brasil, os clubes parecem mais preocupados com o próprio umbigo, sem conseguirem olhar para o cenário mais amplo no país e menos ainda no mundo. É como um cachorro que corre atrás do rabo, inutilmente. Uma liga é importante para defender o interesse dos clubes acima do interesse das federações, que precisam pensar nas seleções. Uma liga poderia cuidar para que a arrecadação fosse maior para o campeonato como um todo, não só para os clubes de mais ibope na TV. Os grandes clubes sempre são os mais influentes nas ligas do mundo inteiro, mas a mera existência de uma instituição que faça a gestão do campeonato já é um avanço.

Em um mundo tão diferente, com ligas tão distintas entre si, trocar experiências e discutir soluções pode ser uma grande saída e o Brasil está perdendo a chance de fazer parte disso. O Brasil está perdendo a chance de entender como funcionam não só as ligas europeias, que nem sempre têm um modelo de funcionamento e de negócio adequados ao futebol brasileiro, mas aprender com as ligas asiáticas, com a mexicana, com a americana, que tem um modelo completamente diferente.

A criação de uma liga no Brasil é urgente. O presidente do Bahia, Marcelo Sant’Ana, declarou no programa Bola da Vez, da ESPN Brasil, que os clubes não estão maduros para a gestão de uma liga (necessário cadastro no Watch ESPN). Falta aos clubes entenderem que abrir mão de um ganho individual a curto prazo pode melhorar a liga a longo prazo, o que aumenta, também, o ganho individual. O contrário, cada um pensando em si, faz o contrário: todo mundo ganha muito a curto prazo, como tem acontecido desde a implosão do Clube dos 13, mas a longo prazo, o campeonato vai perdendo força, qualidade técnica e atratividade ao torcedor. Passa a valer menos para cada clube.

Enquanto muitos riem do Brasil ter dois canais transmitindo a MLS para o público daqui, eles estão trabalhando para serem uma das grandes ligas do mundo. O Brasil sequer uma liga é. Um campeonato com potencial de ser um dos melhores do mundo, sucateado com a desorganização e o descaso que o tornam uma liga apenas periférica, sem interesse no resto do mundo. Como bem escreveu Rodrigo Borges no Esporte Fino, em breve poderemos cada vez mais estrelas do futebol mundial na MLS. No Brasil, vivemos ainda do talento natural que brota para salvar os clubes de sua própria incompetência e desorganização.