Texto inicialmente publicado em 29 de fevereiro de 2016 e editado na segunda-feira, 06 de julho de 2020.

A grande expectativa da festa do Oscar de 2016 era pelo prêmio de Melhor Ator. Na quinta de suas seis indicações por atuação (também foi nomeado como produtor de O Lobo de Wall Street), Leonardo Di Caprio conseguiu finalmente levar a estatueta para casa. Foi a coroação de uma longa carreira cheia de ótimos papéis, independentemente de a participação em O Regresso ter sido a sua melhor ou não. Mas Di Caprio não foi o único a deixar aquela festa em Los Angeles com o reconhecimento que já merecia há tanto tempo.

Ennio Morricone concorria pela sexta vez e foi finalmente premiado pela Academia pelo seu trabalho em Os Oito Odiados, de Quentin Tarantino. Havia recebido um Oscar honorário pelo conjunto da obra em 2007, mas aquela foi a última chance de ganhar o prêmio por um trabalho específico de alta qualidade, como tantos que deixaram o nome do maestro e compositor italiano marcado como uma instituição do cinema. Nesta segunda-feira, o torcedor fanático da Roma morreu, aos 91 anos, alguns dias depois de uma queda em que fraturou o fêmur.

Morricone foi responsável por renomadas trilhas do faroeste italiano, como Por Um Punhado de Dólares e Três Homens em Conflito, em parceria com o diretor Sergio Leone. Assinou mais de 450 trilhas de filmes na sua longa carreira, incluindo Cinema Paradiso e Franctic, do diretor Roman Polanski, e olha que não trabalhou apenas com filmes. Na falta de mais estatuetas do Oscar, tem 27 discos de ouro.

Mais importante do que qualquer dessas premiações (para nós, pelo menos), compôs a música-tema de uma Copa do Mundo. É dele o hino O Mundial que tocou durante o torneio realizado na Argentina, em 1978. Até poderia ser criticado por colaborar com uma Copa que foi utilizada pelo governo ditador argentino para distrair a atenção do povo das atrocidades que ocorriam nos porões do país. “Na verdade, não foi minha ideia”, contou, em entrevista ao irlandês Independent, em 2017. “O selo da gravadora em que eu trabalhava na época me pediu para compor uma música e eles queriam um coral também. Foi uma decisão puramente comercial”.

Ele também fez a música oficial da candidatura de Roma a ser sede da Olimpíada de 2024 porque, afinal, é natural da capital italiana e um romanista fanático. “É um clube de caráter internacional, mas que sentimentalmente se fecha em seus distritos. É um time do povo, ao povo, mesmo com a capacidade de ser internacional e global”, afirmou. Ele é um daqueles torcedores ilustres do clube. Tanto que em 2012 fez parte de um painel de cinco especialistas que escolheram os primeiros integrantes do hall da fama da Roma, ao lado de três jornalistas esportivos e um historiador.

Seu time ideal foi formado por Francesco Tancredi, Cafu, Pietro Vierchowod, Luigi Brunella (“Brunella era o melhor de todos eles, vocês sabem disso”, afirmou, segundo o site da Roma), Francesco Rocca, Fulvio Bernardini, Agostino Di Bartolomei, Paulo Roberto Falcão, Alcides Ghiggia, Roberto Pruzzo e Amadeo Amadei – em 2012, Totti ainda estava em atividade, o que provavelmente explica sua ausência.

“Mais samba e bossa nova ou tango argentino? A Roma deixa muito espaço para a fantasia: devo dizer que samba ou uma bela bossa nova, prefiro assim. Pelo menos, acho que são mais próximas de uma equipe brilhante, como espero que a Roma possa ser. A bossa nova é dinâmica. O tango, ao invés disso, é sinuoso, sensual”, afirmou naquela época.

Como bom torcedor da Roma, Morricone é corneteiro. Quando participava da promoção de Os Oito Odiados, lançado em 2015, o músico foi questionado sobre a fase da equipe e respondeu ironicamente: “Diga à diretoria para continuar vendendo os melhores jogadores…”. Um dia disse que gostava de futebol e era torcedor da Roma, “mesmo que não fosse muito prático”.

Na entrevista ao Independent, revelou que depois de fazer a música-tema da Copa do Mundo de 1978, foi convidado para compor um novo hino para a Roma. E se recusou. “Respondi que eles já tinham um hino muito bom”, disse.

A última composição de Morricone foi uma música em homenagem às 43 vítimas do desabamento da Ponte Morandi, em Gênova, em agosto de 2018. Ela será tocada antes da inauguração da nova ponte, marcada para o fim de julho.

O Oscar de 2016 veio em mais um trabalho em parceria com Quentin Tarantino, um obcecado por faroeste, depois de fazer a trilha sonora de Bastados Inglórios e compor músicas para Django Livre e Kill Bill. Não morreu sem esse reconhecimento, embora antes de comemorar mais um scudetto da Roma.

Clique aqui para uma playlist preparada pela Roma com músicas do maestro.

.

 

.

.