A atacante Eni Aluko decidiu se aposentar do futebol, aos 32 anos. A jogadora tem mais de 100 jogos pela seleção inglesa, com uma carreira marcante. Conquistou muitos títulos, especialmente pelo Chelsea, campeão três vezes do Campeonato Inglês, mas foi além. Ganhou taças pelo Birmingham, pelo Charlton e pela Juventus, seu último clube, que defendeu até dezembro de 2019. Pela seleção inglesa, fez parte do time que foi até a semifinal da Copa do Mundo de 2015 e ficou com o terceiro lugar.

Nascida em Lagos, na Nigéria, imigrou com os pais para a Inglaterra quando tinha pouco mais de um ano de vida. Jogou sempre com garotos e nem imaginava tornar-se profissional, porque era uma ideia que sequer existia na época. Ela lembrou de um episódio ainda na infância e como isso a marcou pela carreira toda.

“Lembra como eram as coisas para o futebol feminino na época? Eu posso lembrar da minha mãe tirando foto do nosso time e eu era a única garota. Era sempre Eni e os garotos. Mas enquanto eles tinham exemplos a seguir, eu não tinha. Não havia futebol feminino na TV. A ideia de se tornar profissional era impensável na época”, afirmou Aluko em depoimento no Players’ Tribune.

Aluko se tornou uma figura importante do futebol inglês que cresceu dentro da modalidade feminina nos últimos anos. Articulada, também brilha fora de campo. É advogada, exercendo a profissão ao longo de quase toda a sua carreira, uma vez que as jogadoras de futebol feminino não eram profissionais. Além disso, passou a ser também comentarista e esteve na Rússia para comentar a Copa do Mundo masculina, em 2018.

Todo o sucesso que Aluko teve na sua carreira poderia nunca ter acontecido. Ela conta que pensou em largar o futebol algumas vezes. Sem perspectivas para se tornar profissional na época, vendo o Charlton, seu antigo clube, fechar as portas e o Chelsea, seu clube de então, não estar muito interessado no futebol feminino, procurou emprego fora do futebol. Surgiu a chance de jogar nos Estados Unidos, no St. Louis Athletica. Ela recebeu a proposta de jogar por lá e ter um emprego na empresa de advocacia do dono do clube, em 2009.

Em 2011, ela quase abandonou o futebol novamente. Depois que o St. Louis fechou, ela foi para o Atlanta Beat. No fim do ano, quis deixar o clube, que aceitou trocá-la para outro time. Ela só tinha um pedido: não ser trocada para New Jersey, onde ficava o Sky Blue. Para onde ela foi trocada? Justamente o Sky Blue. Aos 25 anos, ela se encontrou com sua empresária e queria se aposentar do futebol. Só que a Olimpíada de Londres estava chegando. Ela decidiu esperar os Jogos para se aposentar depois.

“Eu não poderia imaginar que a Olimpíada seria algo tão grande. O que aconteceu em Londres naquele verão, com o Reino Unido entrando com um time feminino nas Olimpíadas pela primeira vez, mudou toda a minha paixão pelo jogo, assim como outras coisas na minha carreira. Você [futebol] me salvou. Nós ganhamos os três jogos na fase de grupos, vencendo o Brasil em Wembley e chegamos às quartas de final. Foi elétrico. As pessoas subitamente tinham apetite por futebol feminino. E eu queria ser parte daquilo”, diz a atacante no seu depoimento.

O depoimento de Aluko tem o título “Meu querido amigo futebol, obrigado”. Ela fala sobre o quanto ama o esporte e o quanto isso mudou a sua vida. “Às vezes eu me pergunto o que aconteceria se nunca tivéssemos nos conhecido. Eu sempre fui uma garota esperta, então eu acho que eu teria me saído bem de qualquer forma. Mas eu seria tão confiante? Eu estaria confortável ao falar em público? Eu seria uma referência para outras mulheres? Eu seria tão feliz ou tão apaixonada pela vida? Eu acho que não”, conta.

“Você me deu o sonho de jogar nos Estados Unidos, o orgulho de representar a Inglaterra, a emoção de ganhar títulos com o Chelsea, a aventura de jogar pela Juventus na Itália. Sempre que eu enfrentei obstáculos, você os destruiu. Sempre que eu tive expectativas, você as excedeu”, descreveu a jogadora.

“Há pouco tempo, eu estava em Turim quando eu vi um pôster. Nele havia jogadores da Juventus que todo mundo conhece, Cristiano Ronaldo, Paulo Dybala e… eu. Sabe o que isso me fez lembrar? A foto que minha mãe tirou quando eu estava jogando em um time só de garotos na escola”, disse ainda Aluko.

Racismo e carreira na seleção interrompida

Eni Aluko, que anunciou aposentadoria (Getty Images)

Um dos episódios que marcou também a sua carreira foi a denúncia que fez de racismo contra o técnico da seleção inglesa, Mark Simpson. Aluko é uma lenda na seleção: tem 102 jogos e marcou 33 gols. Seu último jogo pela seleção, porém, foi em 2016. Na época, ela enfrentou a federação e o seu técnico em um caso de racismo.

As frases de Mark Simpson foram pesadas. Alguns poderiam considerar brincadeira, mas é racismo mesmo. “Nigéria? Se certifique que eles não tragam Ebola”. “Você já não foi presa antes? Quatro vezes, não foi?”. Contamos sobre o caso aqui na Trivela, em agosto de 2017.

O impacto inicial das denúncias só prejudicou Aluko, que ficou fora da seleção. Ela insistiu em denunciar o técnico, através de um procedimento criado pela própria Football Association para, supostamente, poder dar segurança a quem denunciava preconceito, de qualquer espécie. Na prática, não foi assim que aconteceu. A FA inocentou Sampson de qualquer acusação. Aluko moveu um processo judicial sobre o caso. E foi assim que o escândalo se tornou público, meses depois.

Depois do escândalo, a FA admitiu o erro e se desculpou com Aluko em outubro de 2017. Em setembro, no mês anterior, Sampson foi demitido depois que as alegações vieram à tona. A carreira de Aluko seguiu e, em 2018, se transferiu do Chelsea para a Juventus. Em um ano e meio pelo clube, conquistou o Campeonato Italiano e a Copa da Itália.

“Eu sinto que as pessoas me respeitam pela jogadora que eu fui e os gols que eu marquei, mas também pelo modo como eu ajudei a mover o futebol feminino adiante”, afirmou a jogadora. “As garotas hoje têm modelos. Elas podem assistir futebol feminino na TV. Diversidade e igualdade estão na agenda. As mulheres estão usando suas vozes e seus pés para quebrar barreiras no mundo todo. Eu diria que as mulheres nunca estiveram em uma posição mais empoderada, e eu estou orgulhosa de ser parte da geração que fez isso acontecer. Mas eu não quero para agora”.

Aluko deixou claro que quer continuar trabalhando dentro do futebol e continuar fazendo o futebol feminino crescer. “Eu honestamente acredito que o futebol feminino irá continuar a atingir um nível ainda mais alto nos próximos anos. E eu quero fazer a minha parte para garantir que isso aconteça”, declarou a inglesa.

Trabalhando como comentarista, Aluko pode exercer muitos outros papéis dentro do futebol. Ela tem trabalhado também como colunista do jornal Guardian e ganha espaço nos seus comentários não só sobre futebol feminino, especificamente, mas também sobre futebol em geral.