Engolido pela afobação, São Paulo é caótico em campo e cai merecidamente diante do Talleres de Guiñazú

Desorganizado e confuso, São Paulo meteu os pés pelas mãos e acaba eliminado diante do Talleres

Toda história de eliminação é triste para a torcida, mas a que o São Paulo viveu terá uma uma marca eterna. Empatou por 0 a 0 com o Talleres, da Argentina, e acabou eliminado por ter perdido o primeiro jogo por 2 a 0. O clube do Morumbi amarga uma queda no seu primeiro duelo eliminatório na fase prévia – teria que superar outro para chegar à fase de grupos. Deixa o técnico André Jardine em uma situação muito complicada, com um time que não conseguiu ser, em nenhum momento da eliminatória, competitivo. É eliminado de forma merecida. Os argentinos fizeram a festa, merecidamente. O Talleres avança rumo ao sonho da fase de grupos, comandado por um Pablo Guiñazú que foi enorme em campo. O símbolo do que foi o time argentino na eliminatório.

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A atuação do time foi terrível coletivamente, desorganizado, caótico. Um time espaçado, cheio de problemas. Individualmente o time também foi mal. Hernanes, o líder e capitão do time, errou demais, tomando decisões erradas e tecnicamente mal, assim como Diego Souza, outro dos experientes da equipe. O time todo não foi bem, errou demais e se viu diante de mais de 43 mil pessoas sem saber o que fazer diante de um adversário que esteve o tempo todo consciente do que fazia, da sua estratégia e da forma como precisava atuar.

A torcida do São Paulo vaiou André Jardine quando seu nome foi anunciado no Morumbi. O público, aliás, não encheu o estádio. Cerca de 43 mil ingressos tinham sido vendidos até a terça-feira, em um estádio que tem capacidade de mais de 65 mil. O que a torcida viu foi pouquíssimo futebol, muita vontade e uma completa desorganização. O time se matou em campo, como se espera que faça, mas taticamente e tecnicamente o time não existiu. E o preço a pagar por isso foi alto.

A escalação do São Paulo foi bastante ousada, como se espera que o time seja depois da partida de ida, perdendo por 2 a 0. A linha defensiva foi a mesma com Volpi no gol, Bruno Peres, Arboleda, Bruno Alves e Reinaldo. No meio-campo, as mudanças: William Farias foi o titular como volante e praticamente como único marcador. Hernanes foi o segundo jogador de meio, com Helinho pela direita, Éverton pela esquerda e com Pablo e Diego Souza no ataque. Um time bastante ofensivo para tentar um sufoco.

O São Paulo começou o jogo muito apressado e afobado. O time corria para pegar a bola o tempo todo, errando bastante. No começo, o São Paulo tentou sufocar, mas não conseguiu nada além de alguns cruzamentos. Depois dos primeiros 10 minutos, o Talleres se encontrou no jogo e passou a chegar ao ataque, levar algum perigo e dar sustos na torcida. Alguns chutes de fora da área, nada de muito perigo, mas ainda assim, chegando mais ao ataque do que se esperava.

O nervosismo afetava até mesmo o experiente Hernanes, que começou errando muito. Uma constante. Reinaldo, outro que estava precipitado era Reinaldo, que tentou chutes seguidos. O jogador mais calmo do time era William Farias, responsável por tentar equilibrar um time cheio de jogadores ofensivos. Faltava armação de jogadas ao time. E sobravam lances afobados. Bruno Peres e Éverton tomaram cartões amarelos no primeiro tempo por faltas duras e desnecessárias, frutos do nervosismo.

O jogo chegou aos 30 minutos, mas o São Paulo mal tinha chegado ao ataque. Rondou a área do Talleres sem muita efetividade. A primeira grande chance veio só depois disso, aos 31 minutos, em um cruzamento da direita para a área que encontrou Diego Souza, livre, na segunda trave. Com os dois pés apoiados no chão, ele tocou de cabeça, mas errou e bola foi fora. Um cruzamento preciso de Helinho, um dos mais acionados.

Sebastián Palacios, o camisa 7 do Talleres, causava problemas constantes à defesa do São Paulo, atuando bem aberto do lado esquerdo. Com seus dribles rápidos, tirava dos nervosos marcadores do time brasileiro. No meio-campo, Guiñazú foi um gigante. Dominou o setor e impediu que qualquer jogador por ali tivesse tempo para respirar ou mesmo para pensar. Hernanes não conseguia dominar a bola sem ter marcação, especialmente de Cubas. Guiñazú, bem posicionado, fazia com que o São Paulo tivesse que tirar a bola dali sempre na pressa. O meio-campo do Talleres era um campo minado. Entrar com a bola ali significava ter que tocar muito rápido ou explodir na marcação argentina. O primeiro tempo acabou com a torcida do São Paulo gritando raça, em uma manifestação clássica de torcidas pelo Brasil quando o time tem problemas em campo. Não faltou raça, mas faltou organização.

No segundo tempo, o São Paulo tentou articular um pouco melhor as jogadas e até conseguiu chegar com mais perigo. Em um cruzamento da esquerda, Diego Souza, na segunda trave, novamente teve uma chance para cabecear, e pela segunda vez no jogo errou. Helinho, uma surpresa na escalação, vinha sendo um dos que melhor tentava em campo.

Mesmo assim, André Jardine o tirou nas suas primeiras alterações, aos 17 minutos: sacou, além de Helinho, o lateral Bruno Peres. Colocou em campo Nene e Felipe Araruna. As alterações pareceram ambas erradas. Nene deveria entrar, mas havia muitos candidatos a sair e Helinho não era um deles. Poderia ter tirado Éverton, até mesmo Diego Souza, mas Helinho vinha bem, surpreendentemente, porque o camisa 11 não vinha bem nos últimos jogos. Tirou aquele que era o melhor jogador do time até ali. Tirar um lateral e colocar outro também pareceu algo inócuo. E foi mesmo.

O São Paulo ficava o tempo inteiro no campo de ataque, mas raramente entrava na área, um território desconhecido da maioria dos jogadores. O São Paulo seguia nervoso e os torcedores pareceram ir murchando no estádio, enquanto os torcedores do Talleres gritavam, cantavam e celebravam. O time ia abraçando a classificação e não havia nenhum sinal que isso fosse mudar. A festa era dos argentinos, enquanto os torcedores são-paulinos se dividiam entre a decepção, a apatia e alguns gritos de apoio, já resignados.

Aos 30 minutos do segundo tempo, o que se via era um arremedo de time, o São Paulo, tentando na loucura e caos uma bola que desse alguma esperança, um gol, nem que fosse por acaso, para tentar entrar na disputa. Os minutos voavam, os espaços continuavam enormes entre defesa, meio e ataque. A cada transição, o São Paulo sofria, tanto ofensiva quanto defensivamente.

Com um lance aos 35 minutos do segundo tempo, o jogo praticamente se definiu. Éverton entrou de forma violenta em Enzo Díaz, uma solada na cara do jogador do Talleres. Recebeu o cartão vermelho direto, de forma justa. Se nem com o mesmo número de jogadores a situação era difícil, em uma situação terrível, com um a menos ficou ainda pior. Ainda teve um gol anulado, com Nenê, mas o jogador estava impedido no lançamento. A arbitragem acertou no lance. O São Paulo se arrastou até o final do jogo, sem conseguir mais nada.

Entra no grupo de times eliminados na fase preliminar da Libertadores, junto com o Corinthians, em 2011, quando caiu para o Tolima, da Colômbia, e a Chapecoense, em 2018, quando caiu diante do Nacional, do Uruguai, nesta mesma fase. O São Paulo tem uma eliminação terrível e histórica para chamar de sua, agora na Libertadores, onde tinha um histórico positivo. A eliminação como essa diante do Talleres entra no mesmo balaio de quedas diante do Defensa y Justicia, em 2017, na Sul-Americana, ou mesmo diante do Colón, em 2018, na mesma competição.

O que será o futuro do São Paulo a partir de agora é a questão. Jardine provavelmente receberá o cartão azul e não deve comandar mais o time. O que se faz a partir daí? Mais do que isso, a questão tem que ser colocada sobre Raí, o diretor do futebol que toma as decisões mais importantes, como demitir Diego Aguirre faltando cinco jogos para o fim do Campeonato Brasileiro. O diretor de futebol precisa ser cobrado.

Os erros são muitos e Jardine é só uma parte deles. Começa em campo, nos jogadores, inclusive os que deveriam ser protagonistas, como Hernanes, Diego Souza e Nene, mas também passa pela diretoria, as escolhas, a montagem do elenco, o trabalho de construção de um time. O São Paulo tem gasto em contratações, tem uma categoria de base que investe muito, mas as decisões, da sala da presidência ao jogador que tem a bola, tem sido erradas. Será preciso mexer em muita coisa.