Tão arrogante quanto afirmar que “time grande não cai” é acreditar que um deles possa ficar a vida toda sem se sagrar campeão do torneio mais importante do continente. Evidentemente, os rivais que diziam que o Corinthians nunca venceria a Libertadores o faziam apenas por provocação, tendo em mente que deveriam aproveitar cada ocasião para desfilar todas as piadas possíveis, já que um dia o azar iria acabar, os astros iriam se posicionar da forma correta ou, racionalmente, os alvinegros conseguiriam montar uma equipe com característica e mentalidade adequadas para levantar a cobiçada taça. Mais cedo ou mais tarde, iria acontecer. Aconteceu mais tarde. Para a alegria da imensa nação corintiana, o dia de graça chegou. O dia em que as velhas piadas pararam de ter graça. O dia em que a Libertadores virou pedra e deixou de ser vidraça na reputação de cada um dos loucos do bando.

O melhor da história toda é que o Corinthians acabou com a sua maldição sem ter de apelar para um time sortudo, cheio de mística ou que ganhasse o jogo no grito, como tantos outros já fizeram na Libertadores. Também não ouvirá acusações de que tudo se deveu a um determinado craque, que carregava os companheiros nas costas e resolvia os jogos em lampejos isolados. Erros escandalosos da arbitragem? Nenhum. Concorrência pouco qualificada? Longe disso, um dos torneios mais disputados dos últimos tempos. Retranca covarde? Choro de perdedor. A conquista é incontestável porque veio na bola. Com uma equipe cascuda, como pede o torneio, mas que nunca apelou para pontapés, apesar de não fugir de uma dividida sequer. Sem brilho técnico, mas com postura tática e psicológica de fazer inveja a muitos. Não é qualquer um que consegue ser mais Boca que o próprio Boca em uma final.

A torcida que enche o peito para dizer que com eles tudo vem na base do sofrimento sabe que, ao menos para quem acompanhava sem envolvimento emocional, a trajetória foi a mais tranquila dentro do possível. Na fase de grupos, nenhum adversário foi páreo. Nas oitavas, um presente de Flamengo e Olimpia: o frágil Emelec, com lacinho de fita, cartãozinho e tudo mais. Contra o Vasco, as únicas contrariedades. Só os cruzmaltinos ameaçaram os corintianos de verdade, com direito a chance toscamente perdida por Diego Souza e gol de Paulinho na reta final do confronto. Ali, o Corinthians se viu copeiro e maduro para triunfar. Neymar pouco assustou e o Santos mal fez cócegas. O Boca saiu na frente, é verdade, mas mal deu tempo para roer uma unha antes que o empate viesse e recolocasse as coisas no lugar. E ontem, os argentinos quase nem foram notados em campo, coitados.

A segurança venceu o medo

O sofrimento corintiano residiu muito mais naquela desconfiança de que, a qualquer momento, a coisa poderia desandar. Afinal, ela sempre desandava. O medo de que um Alexandre Lopes surgisse do nada para atrapalhar, como se fosse o Ivo Holanda em uma pegadinha do Topa Tudo Por Dinheiro. O receio de que um Roger Guerreiro aparecesse na escalação, disposto a colocar tudo a perder com uma expulsão tola. O temor de que a decisão fosse para os pênaltis e o goleiro adversário fosse meio calvo, tivesse sotaque caipira e vocação para santo. Não se trata de auto-ajuda: ter medo é normal, controlá-lo é o segredo. Com a cabeça no lugar, o Corinthians transformou as dores do passado em concentração máxima. “Segurança acima de tudo” era o lema no canteiro de obras de um título em construção.

Justamente a última das decepções serviria como ponto de reviravolta. Nove em cada dez técnicos teriam sido demitidos após a eliminação contra o Tolima. Tite ficou. Ponto para o descontrolado Andrés Sanchez, que o bancou, no gesto mais zen-budista de sua vida. Com a saída de Ronaldo, que, passado o respeito inicial, não assustava mais zagueiro algum em território sul-americano, e Roberto Carlos, mais interessado em aumentar seu pé de meia num fim de mundo qualquer, o gaúcho teve a chance de montar uma equipe sem estrelas, calcada no equilíbrio que tanto gosta de pregar. Muricy e Celso Roth ganharam a Libertadores e rechearam seus currículos, mas o Adenor foi muito além disso. Reconstruiu sua carreira e, principalmente, sua imagem. O treinador de coletivas pernósticas se tornou, quem diria, uma figura querida e carismática. Ele fez tão bem ao Corinthians quanto o clube fez a ele.

Organizado, certinho e metódico. Nem parecia o Corinthians. Nem combinava com aquela sujeira tradicional da Libertadores. Talvez por isso, o autor dos gols do título tenha sido logo o controverso Emerson Sheik, que já deve ter perdido as contas de quantas identidades falsas forjou e de quantos campeonatos importantes venceu nos últimos anos. O primeiro, com a contribuição socrática de Danilo, um cidadão que encara a Libertadores como se estivesse relaxando numa manhã de pescaria. O segundo, com schiávica ajuda de Schiavi, que foi a campo como se disputasse luta livre mexicana. A confusão arrumada pelo artilheiro no final da partida foi bastante simbólica. O Corinthians tirava seu passaporte e entrava para o clube dos campeões da América. Trocava a fixação por um título inédito pela certeza de que ganhar esse torneio é viciante. Quem duvida que esse pode ter sido o primeiro de muitos?

E os adversários, o que poderão falar do campeão invicto? São-paulinos e santistas, garbosos, lembrarão que já conquistaram o torneio três vezes. Palmeirenses, com um sorriso no rosto, lembrarão que eliminaram os rivais nas semifinais por dois anos consecutivos. Por trás da aparente tranquilidade, muito mal escondida, a melancolia de saber que não têm mais este trunfo na mesa do bar, na hora do cafezinho, na derrota do clássico pelo Campeonato Paulista. Não se darão ao trabalho de mudar de assunto, até porque não precisam. Mas hoje, bem que preferiam estar falando dos pêlos pubianos postiços da Juliana Paes, do chororô do senador Demóstenes, da baixa audiência do programa da Fátima Bernardes, ou até mesmo do Bóson de Higgs, de quem já parecemos todos íntimos.

O Bóson que, diga-se de passagem, tem lá sua semelhança com a conquista corintiana. Equivocadamente apelidado de “Partícula de Deus”, teve sua existência descoberta e confirmada pela Ciência. Da mesma forma, muitos atribuirão à providência divina a vitória do Corinthians, quando ela é apenas a confirmação científica do que até ontem era tão somente empírico: time grande, cedo ou tarde, vence a Libertadores. Não haveria de ser diferente com o Corinthians.