Na repercussão da tragédia de Hillsborough, que cobrou 96 vidas dedicadas ao Liverpool, na semifinal da Copa da Inglaterra, em 15 de abril de 1989, a polícia de South Yorkshire colocou na própria torcida do clube inglês a responsabilidade pelas mortes de seus companheiros. Teriam bebido e se comportado erraticamente, causando o desastre.  No inquérito cujo veredicto foi entregue na manhã desta terça-feira, ela tentou fazer a mesma coisa. Mas, 27 anos depois, ninguém mais acredita quando o menino grita lobo. O júri, em um tribunal de Warrington, determinou que a negligência da polícia foi responsável pelas 96 mortes e que os torcedores do Liverpool tiveram nenhuma responsabilidade pelo que aconteceu.

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A decisão encerra quase três décadas de agonia para as famílias daqueles que – e agora podemos dizer com base legal – foram mortos pelas autoridades responsáveis por organizar aquela partida contra o Nottingham Forest. Durante muitos anos, o chamado establishment, a elite, o grupo abstrato de pessoas reais que comanda o país, inventou mentiras para pintar os torcedores do Liverpool como vândalos e bárbaros, aproveitando o clima anti-hooliganismo que existia na época (insuflado, sem dúvida, também pelas ações de torcedores dos Reds na decisão da Copa da Europa de 1985, contra a Juventus, em Heysel).

Apenas em 2012, o relatório de um painel independente que investigou o caso fez com que houvesse algum consenso em relação ao que realmente aconteceu. O jornal The Sun pediu desculpas pela histórica capa, “A Verdade”, em que informou fantasiosamente que os torcedores haviam roubado os corpos das vítimas, urinado em policiais e até mesmo batido em profissionais de emergência. Publicou outra capa, com a “A Verdadeira Verdade”, em que requisita perdão pelo que havia dito anos atrás. O governo britânico, por meio do primeiro ministro David Cameron, fez a mesma coisa.

O júri ratificou esse relatório na manhã desta terça-feira, e em menor medida, o inquérito da época, comandado pelo Lorde Peter Taylor, que também culpou a incompetência da polícia e a falta de estrutura do estádio do Sheffield Wednesday pela tragédia. As nove pessoas representando a sociedade foram questionadas sobre 14 pontos. Os principais foram o seis e o sete. Depois de determinar a culpa das autoridades, responderam que, sim, as 96 vítimas foram mortas ilegalmente. Em seguida, disseram que não houve nenhum comportamento por parte dos torcedores que causou ou contribuiu para a situação perigosa que se apresentou naquele dia.

A partir dessa decisão, a Promotoria Pública do Reino Unido pode apresentar queixas criminais contra os responsáveis. “A CPS (Serviço de Promotoria da Coroa) vai considerar formalmente se qualquer queixa criminal será apresentada contra qualquer indivíduo ou corporação com base nas evidências disponíveis”, disse a chefe da divisão de crimes especiais da CPS. O encarregado pela operação era David Duckenfield, que comandava um jogo de futebol pela primeira vez na vida e, em meio ao pânico, cometeu diversos erros: não orientou que o começo da partida fosse atrasada, tratou o caso como hooliganismo e até mesmo atrasou a entrada do socorro ao gramado. Depois, mentiu sobre tudo isso. O júri também responsabilizou o serviço de ambulâncias de South Yorkshire e o próprio Sheffield Wednesday por falhas na organização do jogo.

O processo criminal ainda deve demorar pelo menos mais um ano. Correm outras duas investigações em paralelo, uma averiguando a organização daquela semifinal da Copa da Inglaterra e outra olhando com mais atenção para as ações da polícia. A Promotoria só deve se mexer depois que elas terminarem, segundo o Liverpool Echo.  Mas isso é quase um detalhe perto do que aconteceu em Warrington. Porque, na manhã desta terça-feira, 27 anos e 11 dias depois, o mesmo establishment que conspirou, mentiu e cruelmente tentou culpar 96 pessoas pelas suas próprias mortes pronunciou-se novamente para inocentá-las, junto com milhares de outros torcedores do Liverpool. E, ironicamente, culpou a si próprio. Era por essa correção que as famílias tanto ansiavam.