É proibido ser ídolo na Roma. Na gestão de James Pallotta, qualquer jogador que é alçado a uma posição de destaque corre o risco de ser negociado com outra equipe. Às vésperas de anunciar a venda da agremiação para o Friedkin Group (outro investidor americano) por mais de 700 milhões de euros, a equipe giallorossa espera detalhes para o anúncio do empréstimo de seis meses de Alessandro Florenzi ao Valencia. E isso é potencialmente trágico, por uma série de motivos.

Para os torcedores do clube, acostumados à perda de relevância e ausência na disputa por títulos, olhar para os ídolos que florescem no Olimpico é o único consolo. Ser romanista é ser tremendamente emocional, pois o time ainda é um dos últimos lugares do mundo em que se formam jogadores/torcedores. A Roma, até o surgimento de Florenzi, era um tanto imune à globalização de suas categorias de base e dava espaço para meninos nascidos e criados na cidade. Era. 

Mas aí veio a gestão Pallotta. Com a missão de modernizar a Roma, que ainda estava presa às práticas arcaicas, o presidente e seus funcionários trouxeram o centro da paixão de uma cidade para o século XXI. O custo da mudança foi alto: embora pareça preocupada em ressaltar os feitos do passado, a Roma vê seu discurso conciliador e futurista andar na contramão do que vemos em campo e nos noticiários. A obra do estádio novo que nunca foi adiante talvez seja o maior balão de ensaio de todos. Mas, anualmente, a Roma perde suas principais figuras em um processo degradante de transição. O último elenco realmente competitivo (apesar de curto em opções) foi o de Luciano Spalletti, na temporada 2016/17. O desmanche se provou fatal, com perdas que até hoje são sentidas, a começar, claro, por Francesco Totti, enxotado de sua própria casa em uma luta pública por poder.

A barca só aumentou de 2017 em diante. Consequentemente, Mohamed Salah foi para o Liverpool e Antonio Rüdiger para o Chelsea. Wojciech Szczesny não teve seu vínculo renovado, dando lugar a Alisson para a temporada 2017-18 (essa não dá para lamentar). Com Eusebio Di Francesco, a Roma fez um verdadeiro vôo de Ícaro, chegando perto demais do sol na semifinal da Liga dos Campeões. Eliminou heroicamente o Barcelona e foi goleada pelo Liverpool antes da decisão, que provavelmente perderia para o Real Madrid. Quem sonhava com uma mudança de patamar, porém, se decepcionou profundamente. Alisson brilhou demais e seguiu Salah para o Liverpool. Radja Nainggolan foi vendido subitamente à Inter. Kevin Strootman, motorzinho em campo e plenamente recuperado de lesões, saiu para o Marseille sem devida reposição. Ao fim da temporada, com um péssimo sexto lugar, se despediu de Daniele De Rossi, outra prata da casa que foi menosprezada e desrespeitada pela diretoria. Sabia-se que DDR não jogaria por mais dois anos e a opção por não renovar seu contrato, permitindo uma aposentadoria na capital italiana, foi um ato mesquinho da gestão Pallotta. 

Note a repetição dos padrões: a Roma se desfez de seus principais craques e referências para a torcida, sem que houvesse candidatos a sucessores. Enquanto isso, quem se destaca nas equipes juvenis acaba cedido a clubes menores, por empréstimo, sem a mínima perspectiva de vestir a camisa do time principal. Nem mesmo o autor do gol mais importante do clube nos últimos 12 anos, Kostas Manolas, escapou: vendido ao Napoli, abriu espaço para a vinda de Gianluca Mancini, que já chega com um sarrafo altíssimo por ser selecionável. A última novidade da ingrata gestão de Pallotta é o empréstimo de Florenzi para o Valencia. O atleta já se despediu dos companheiros no CT em Trigoria. A ideia da Roma era vendê-lo em definitivo ao Valencia, mas por ora a negociação é apenas temporária, por seis meses. É verdade que Floro, capitão do elenco, não vive uma grande fase e vem sendo utilizado em diferentes funções. A justificativa técnica, contudo, não esconde o problema maior, de ordem política. Essa saída, ainda que por enquanto temporária, soa muito mais como um atestado de que não há planejamento do que necessariamente uma postura de time que quer fazer caixa. Pior ainda: vender por vender, ignorando as fragilidades do plantel. Quem ficará com a vaga? Leonardo Spinazzola ou Bruno Peres? Ninguém sabe.

O próximo romano romanista na mira é Lorenzo Pellegrini. Grande valor da atual temporada, está no seu auge. E já experimentou como é não ter chances no profissional: o meia de 23 anos foi despachado para o Sassuolo em 2015 e viu a Roma acionar sua cláusula de recompra quando estourou na equipe neroverdi. Nicolò Zaniolo, craque recém-lesionado e fora da temporada, só não se enquadra no perfil de bandeira do clube porque veio da base da Inter como contrapeso de Nainggolan. Embora diga frequentemente que não pretende sair antes de ser campeão com a Roma (talvez demore décadas), não há nada que indique que o fenômeno Zaniolo seja, aos olhos da alta cúpula, um atleta indispensável. 

A era da longevidade já passou no Estádio Olimpico. Nos anos 2000, o amigo fanático por futebol italiano deve se lembrar daquela Roma de Simone Perrotta, Rodrigo Taddei, Juan, Doni, Philippe Mexès, Totti e De Rossi, gente com muito tempo de casa. Talvez dê alguma saudade por conta dos títulos, mas o que se perdeu mesmo foi a vontade de preservar talentos e figuras adoradas pela torcida. E enquanto o futebol for um esporte capaz de mover massas e provocar emoções tão cruas, a Roma precisa parar de moer seus ídolos. De nada adianta propagar uma falsa ideia de identidade e glórias se dentro de campo a torcida simplesmente não tiver em quem se ancorar.