Os dados têm, há décadas, influenciado positivamente o futebol e, mais recentemente, ajudado nós, telespectadores, a enxergá-lo melhor. Porém, na era do avanço rápido da inteligência artificial, nasce também uma era de vislumbre ao futuro. Esteban Granero, ex-Real Madrid, aposta no peso da tecnologia para a análise e, com sua empresa, oferece um serviço a clubes que, segundo ele, é capaz de prever o rendimento futuro de um atleta.

Granero tem apenas 32 anos e segue na ativa. Defendeu o clube de Madri entre 2009 e 2012, tendo sido revelado pelos merengues antes de iniciar a carreira profissional no Getafe. Hoje, defende o Marbella, da Segunda División B, no terceiro escalão do futebol espanhol. Entretanto, já empreende para além da carreira de chuteiras e é fundador e diretor da Olocip, empresa de análise de dados que tem como foco visualizar e projetar o rendimento futuro dos jogadores.

Em entrevista a David Novo, do jornal Record, de Portugal, Granero afirmou que a companhia é formada por 90% de cientistas, catedráticos e especialistas em inteligência artificial. Com os relatórios que prepara, a Olocip é capaz de, supostamente, saber se uma contratação trará frutos ou não.

Para ilustrar isso, o jogador dá uma situação: um clube em busca de contratar um atacante tem duas opções: dois nomes que marcaram, cada, dez gols na temporada passada. A inteligência artificial irá analisar, primeiro, o contexto desses tentos. “Um pode tê-los feito pelo Bayern, e o outro na segunda divisão belga. E, se você quer contratá-lo para o Braga, isso não quer dizer que ele vai marcar dez gols”, pondera Granero.

O cálculo inclui então a adaptação a um novo campeonato, treinador, colegas de equipe, estilo de futebol. Leva em conta também dados como finalizações, assistências, dribles, passes, gols, com quem jogou, por quem foi treinado e, por fim, para que equipe vai e com quais jogadores e técnico.

“Com essas informações, e depois de vermos como se adaptaram milhares de contratações aos respectivos times, o modelo aprende a prever como se adaptará o jogador a um novo contexto. É um modelo multivariante, em que a partir de X perguntas se consegue Y respostas. Há milhares de variáveis diferentes com essa informação”. (…) “Não é uma bola de cristal que diz se Mbappé vai marcar 15 gols no Real Madrid, mas pode dizer se tem 95% de probabilidade de marcar entre 14 e 16 gols. É matemática”, explica.

Segundo Granero, se a previsão feita for de número de gols marcados, a média de erro da análise é de apenas um gol a cada 14 jogos. De acordo com o espanhol, a empresa fez um teste para prever o rendimento de Cristiano Ronaldo em seu primeiro ano na Juventus, em questão de gols e assistências – e acertou: 28 tentos e dez assistências. “Se quiserem um prognóstico de cinco anos, também é possível. Só que no segundo ano se acumula a margem de erro do primeiro e assim sucessivamente. A incerteza aumenta”, explicou.

Clubes, no entanto, não são os únicos que podem tirar proveito da tecnologia de inteligência artificial para “prever” o futuro. Granero conta que a Olocip preparou relatórios gratuitos a atletas que lhes pediram.

“É natural que um jogador queira saber em que campeonato pode render mais, ou se está indeciso entre dois clubes e quer saber em qual se vai valorizar. Temos também uma ferramenta, chamada ‘La Pizarra’, de preparação para os jogos, em que o treinador pode ver qual o comportamento do adversário no gramado: onde vai receber a bola, onde poderá criar mais perigo… Os treinadores e analistas utilizam-no.”

Os serviços da Olocip vão além da análise prévia de rendimento ou da preparação para jogos, servindo também para olheiros, marketing e relação com o torcedor. Eles podem ajudar até mesmo a prevenir contra lesões, algo com que Granero sofreu em sua carreira. O espanhol admite inclusive ter utilizado o próprio serviço para correr menos riscos no Marbella.

O jogador não esconde, no entanto, que sua empresa nada tem de pioneira. Tais serviços são não apenas o futuro, mas o presente do esporte, com o Benfica notavelmente tendo um laboratório de analítica. “No futuro, quem não usar essa tecnologia vai estar em desvantagem em relação aos outros.”