Finalmente, temos modelos de chuteiras inteiramente pensadas para os pés das mulheres. Pode parecer óbvio, mas não é. Há diferenças entre o pé masculino e o feminino e, inclusive, diferença entre as lesões que mulheres têm mais que homens. Mas se pensarmos no futebol, equipamento feito especificamente para mulheres é realmente recente. Só na Copa do Mundo 2019 que a grande maioria das seleções do mundo ganhou um uniforme próprio para o time feminino. Antes, era só a camisa masculina em tamanho um pouco menor.

O movimento da busca por produtos especificamente feminino no esporte é uma busca recente, principalmente de Nike e Adidas. As duas marcas poderosas no mercado mundial de esporte passaram a patrocinar mais e mais atletas para tentar desenvolver produtos específicos para as atletas. E isso inclui chuteiras. Quantas vezes você leu, inclusive aqui na Trivela, sobre chuteiras desenvolvidas em parceria com grandes estrelas do futebol mundial? Algumas chuteiras foram feitas inclusive moldadas aos principais jogadores. Jogadores, não jogadoras.

A Copa do Mundo de 2019 foi um marco porque os uniformes femininos foram feitos não baseado em um modelo previamente produzido para o time masculino, mas realmente a partir de uma concepção feminina e consultando as jogadoras. Assim, as peças passaram a ser bem mais específicas, pensando no conforto e desempenho delas. Foram produzidos uniformes com tops, calções com comprimento diferente e mudanças até nas bainhas. O material do uniforme também era diferente, de forma a regular a temperatura corporal de forma mais ajustada para as diferenças entre atletas homens e mulheres.

A ideia de uma chuteira feminina

Chuteira Feminina da IDA Sports

Tudo isso é ótimo, mas as mulheres, mesmo as profissionais que atuaram em Olimpíadas e Copas do Mundo, continuavam usando chuteiras feitas para homens ou crianças – do sexo masculino, claro. Laura Youngson, co-fundadora da Ida Sports, uma empresa que produz chuteiras especificamente para mulheres, e da Equal Playing Field, uma organização sem fins lucrativos de futebol para combater a desigualdade no esporte e promover o desenvolvimento de futebol para mulheres no mundo todo.

Em entrevista ao site The Athletic, Laura contou como surgiu o questionamento sobre as chuteiras para mulheres. “Eu sempre odiei calçar chuteira de criança. Eu calço 37, então era um daqueles pesadelos que eu nunca conseguia achar um bom par de chuteiras”, conta. “Pela Equal Playing Field, eu tive a chance de conhecer jogadoras profissionais que estiveram em Copas do Mundo e Olimpíadas e descobri que elas estavam calçando chuteiras masculinas e de crianças também, o que é maluco”.

A conversa surgiu quando ela estava em Kilimanjaro, em 2017, com a Equal Playing Field, para tentar quebrar recorde de futebol jogado na maior altitude. O local, que fica na Tanzânia, é o ponto mais alto da África: 5.895 metros. Foi lá, em uma conversa com outras pessoas, que surgiu o assunto da dificuldade em encontrar boas chuteiras para mulheres. “Então eu voltei para casa e comecei a pesquisar, encontrar todas as razões médicas de por que as mulheres não deveriam calçar as chuteiras masculinas ou de crianças”, afirmou Youngson.

“As mulheres têm pés fundamentalmente diferentes. A revolução que aconteceu nas corridas com calçados específicos por gênero não aconteceu no futebol. Há chuteiras meio que sendo feitas, mas há um termo na indústria que todo mundo diz que é ‘Encolha e pinte de rosa’: pegue uma chuteira de homem, encolha e coloque um pouco de rosa”, contou Youngson.

Além do conceito de “encolha e pinte de rosa” ser obviamente machista, o problema vai além do conceitual: cria um incômodo físico para as jogadas. Uma chuteira masculina, seja de adulto ou infantil, ignora diferenças biomecânicas do corpo feminino em relação ao masculino, como calcanhares mais finos, peitos do pé mais altos e quadris mais largos. Os estudos sobre a influência dessa estrutura diferente ainda não são conclusivos, mas há indícios que há um número maior de mulheres sofrendo lesão de LCA, o ligamento cruzado anterior, uma das mais graves do esporte.

“Nossos pés são obviamente de diferentes moldes e tamanhos, e eu acho que eles provavelmente nos apoiam de forma diferente dos homens. Há muitas conversas sobre lesões de LCA estarem ligadas a calçados inadequados também, então talvez isso pode ser ligado em quanto eles apoiam seus pés e como isso se alinha a seus joelhos e quadris, e tudo mais que entra em jogo quando você se lesiona”, disse Helen Ward, jogador do Watford e da seleção galesa.

Testes, testes e mais testes

Youngson, ela mesmo uma apaixonada por futebol, passou a trabalhar para desenvolver uma chuteira específica para mulheres. O processo, porém, foi longo. Ela começou abrindo chuteiras que já existiam para ver exatamente como eram feitas. O molde era um pé feminino, partindo do zero. E uma das principais diferenças que ela encontrou foi a sola onde ficam os cravos da chuteira.

“Em geral, as mulheres são mais leves que os homens e calçam chuteiras com cravos mais longos que são feitos para acomodar homens mais pesados. Embaixo da bola do pé é onde as jogadoras tem sentido mais dor porque os cravos são muito grandes e muito longos. Fazer esta alteração não só as tornou mais confortáveis, mas nos permitiu olhar a pressão plantar [que acontece no impacto entre a chuteira e o solo]”, afirmou Youngson.

Youngson e seu sócio na Ida Sports, Ben Sandhu, fizeram muitos testes com jogadoras de futebol na Austrália, além de jogadoras do futebol australiano – que usam o mesmo tipo de calçado. Foram cerca de 100 atletas testando o calçado, dando opiniões para melhorar, além dos testes de pressão com máquinas, para entender onde incomodava mais.

Alargar a área frontal da chuteira, onde muitas mulheres relataram sentir seus dedos serem esmagados, foi uma das medidas. As mulheres possuem essa área mais larga que os homens, em média, e por isso as chuteiras masculinas apertavam essa região. Sempre buscando entender que tipos de dores as jogadoras sentiam com suas chuteiras anteriores, para saber onde atacar o problema.

Depois de muitos testes em seis protótipos desenvolvidos pela empresa, o teste definitivo veio com as jogadoras usando e sem sentir qualquer dor nos pés, algo que era parte das suas rotinas com as antigas chuteiras, mesmo em treinamentos leves. A ideia que as mulheres possuem pés mais largos era imprecisa: as jogadoras relatavam dores nos calcanhares e sentiam seus dedos serem esmagados enquanto jogavam. Era preciso investigar mais.

O desenvolvimento da chuteira chegou a um produto que não passa perto ainda de ser barato. Custa 230 dólares australianos (algo em torno de US$ 140 dólares, ou R$ 730) e que o público que compra é aquele mais disposto a gastar mais por uma chuteira melhor. A ideia de empresa, segundo Laura Youngson, é que consigam desenvolver um modelo que atenda também o mercado de entrada de chuteiras. Ela sonha em levar a chuteira para ser usada por jogadoras de outras partes do mundo, como as da liga inglesa.

“Nós sabemos que nós podemos ser esmagados [por marcas maiores], mas quero que as chuteiras femininas estejam em todos os lugares e para todas as pessoas poderem fazer suas escolhas”, afirmou Youngson.

Chuteira Feminina da IDA Sports

O que fazem as gigantes

Empresas como Nike e Adidas já trabalham para produzirem produtos específicos para mulheres há alguns anos e as chuteiras são parte disso. Em agosto de 2019, pouco depois do final da Copa do Mundo Feminina, conversamos com a Nike sobre as camisas femininas e o aumento das vendas – nos EUA, a camisa da seleção americana foi a mais vendida em um ano que qualquer outra camisa já feita.

Na época, Martina Valle, diretora para mulheres da Nike do Brasil, falou à Trivela também sobre chuteiras. “Algumas dessas atletas também participam ativamente do processo de desenvolvimento das nossas chuteiras, como por exemplo, a mais nova versão da Nike Mercurial, recém-lançada num evento em Paris, na França, na véspera da Final do Mundial Feminino, que também foi o palco da estreia do modelo nos gramados de todo o mundo”, afirmou a executiva. Leia a entrevista completa aqui.

Com as chuteiras especificamente femininas fabricadas, é bem possível que tenhamos mais conforto para todas que querem jogar futebol. Além do desempenho em alto nível das atletas profissionais, é fundamental que esse conforto exista também para as atletas amadoras, ainda iniciando no futebol. É hora de pensar especificamente nas mulheres, não só adaptar modelos criados para os homens.

Mais recentemente, a Umbro ampliou a numeração da sua chuteira Fifty para abraçar também o público feminino. A questão continuava sendo o modelo-base da chuteira, feito a partir do masculino. Mas a preocupação parece evidente em trazer para as jogadoras algo mais específico. A tendência é que vejamos acontecer no futebol o mesmo que já aconteceu na corrida de rua: os tênis passaram a ser específicos por gênero, porque as necessidades atléticas e de biomecânica são diferentes. O futebol ainda está muito atrás nesta corrida, mas parece que as marcas já sabem que precisam correr. Ou serão deixadas para trás.