O duelo no Maracanã condicionou completamente o que ocorreria no Mineirão nesta quarta-feira. A atuação eficiente do Cruzeiro naquele dia, somada à apatia do Flamengo, encaminhou o destino do confronto pelas oitavas de final da Copa Libertadores. E ainda que seguissem vivos em busca da virada, os rubro-negros não apenas precisavam reverter a derrota por 2 a 0 fora de casa, precisavam também exibir um espírito que não se viu semanas antes no Rio de Janeiro. Em um jogo de taquicardia até os últimos segundos, não se nega que o Fla teve atitude. Isso, porém, não bastou por si. Era necessário apresentar mais qualidade para definir, diante de um adversário que soube fazer o seu jogo. A Raposa encarou sua dose de temor, mas atuou com inteligência durante a maior parte do tempo e poderia ter matado o embate antes. Ao final, o empenho do Flamengo valeu a vitória por 1 a 0, mas a superioridade ao longo do confronto classificou o Cruzeiro.

A necessidade fez o Flamengo atuar de maneira diferente. Maurício Barbieri confiou em Vitinho para comandar o ataque, tentando abrir espaços com um homem de referência mais leve e com boa finalização. Enquanto isso, o Cruzeiro vinha com a sua base principal, por mais que Hernán Barcos tenha se tornado alvo de constantes críticas por suas atuações abaixo da média. Além do mais, os celestes contavam com um apoio fundamental, diante das arquibancadas cheias e pulsantes do Mineirão.

O primeiro tempo começou um tanto quanto travado. As faltas provocavam paralisações constantes no jogo e nenhum dos times conseguia se impor, mesmo que a obrigação do Flamengo fosse enorme. O Cruzeiro, aliás, tinha uma postura interessante. Adiantava a sua marcação e dificultava a saída de bola dos rubro-negros, o que afetava diretamente a criação dos visitantes. Dentro das trincheiras do meio-campo, os anfitriões se saíam muito bem no combate. E bem que os celestes poderiam ter saído em vantagem aos 20 minutos. Após uma roubada de bola, De Arrascaeta tabelou com Robinho e cruzou na medida para Barcos. O centroavante estava livre dentro da área, mas pegou totalmente torto na bola. Com a meta escancarada, desperdiçou uma chance de ouro.

O lance acordou um pouco mais o Flamengo, que confiava na mobilidade de seus jogadores mais adiantados. Nada que quebrasse as linhas de marcação cruzeirenses, mas aos poucos os cariocas começaram a arriscar, principalmente em chutes de fora da área. Com mais posse de bola, os rubro-negros precisavam ser mais contundentes. Quando a chance clara surgiu, no entanto, ela não valeu. Aos 40 minutos, Lucas Paquetá emendou uma bicicleta para as redes, mas o lance acabou corretamente anulado por impedimento. Em uma partida mais corrida, faltava trabalhar as jogadas.

Durante o segundo tempo, o Flamengo tentou se impor mais. Logo aos quatro minutos, Marlos Moreno teve ótima chance ao receber passe de Réver, mas finalizou mal. O Cruzeiro passou a se resguardar e a buscar os contra-ataques, o que também rendia os seus momentos. Os celestes aproveitavam principalmente os espaços pelos lados, em busca de uma bola que se tornasse fatal.  Aos 17 minutos, ela veio limpa nos pés de Thiago Neves, após boa ajeitada de Barcos. Contudo, o chute do meia parou em um verdadeiro milagre de Diego Alves, que atravessou a pequena área e fechou o ângulo do oponente. Uma defesa que mantinha o Fla no jogo.

Maurício Barbieri utilizou sua primeira substituição aos 23 minutos, quando sacou Vitinho para a entrada de Henrique Dourado. Com o centroavante, o Flamengo ganhava mais presença de área. Todavia, andava difícil encontrar meios para romper o esforço defensivo do Cruzeiro. Dedé era soberano e fazia uma partida irretocável, especialmente pelo tempo de bola no jogo aéreo. Aos 24, mesmo assim, o gol saiu a partir de uma cobrança de escanteio. Em meio à confusão na área, o desvio de Éverton Ribeiro serviu para bagunçar a marcação do Cruzeiro. Na pequena área, Léo Duarte apareceu para concluir.

O tento levou Mano Menezes a trocar Barcos por Raniel. O Cruzeiro ganhava mais velocidade no ataque e isso se tornou bastante útil dentro da sequência do jogo. Afinal, foi a partir deste momento que o confronto realmente chegou ao seu ápice, em meio à tensão aflorada pela indefinição. Os flamenguistas tentavam pressionar, mas tinham dificuldades para se infiltrar na área adversária. Enquanto isso, os cruzeirenses gastavam o tempo, mas também assustavam com suas escapadas rápidas ao ataque. Faltava prender um pouco mais a bola, para esfriar o ímpeto dos visitantes no Mineirão.

O Flamengo, de qualquer forma, era um time mais esforçado do que propriamente dominante. Errava alguns passes importantes e permitia que a defesa do Cruzeiro se recuperasse. Quando vinham os suspiros, eles se limitavam a chutes tortos ou bolas alçadas. Diferentemente, a Raposa pecou na hora de arrematar os bons contra-ataques que criava. Em meio às alterações, Rafinha seria outro a acelerar para os mineiros, enquanto Lincoln aumentava a presença ofensiva aos cariocas. Dedé e Diego Alves, cada um de um lado, eram os responsáveis por manter a segurança. Já nos instantes finais, o Fla tentou a última cartada com Geuvânio, e ali ficou claro que nada andaria para frente. Com os celestes controlando o tempo, foi possível amarrar o embate e celebrar a classificação.

Apesar de tudo, o Flamengo sai com a cabeça erguida pela vitória no Mineirão, mesmo que a atuação tenha ficado aquém das exigências e apesar do jogo patético que fez no Maracanã. Superar a fase de grupos era um fardo que os rubro-negros cumpriram. As obrigações se diluíram nas oitavas de final, ainda mais contra um adversário de peso como o Cruzeiro. E diante de uma situação que se complicou no Maracanã, restava olhar para frente, pensando agora no Brasileirão e na Copa do Brasil. Lógico que isso também não pode apagar as deficiências, assim como não esconde algumas decisões equivocadas do técnico Maurício Barbieri ao mexer em sua equipe.

O Cruzeiro, por sua vez, possui um time forte. Teve garra e capacidade para encarar um jogo difícil de mata-mata. Contudo, questões pontuais acabam deixando algumas dúvidas sobre o que realmente pode conseguir. Os desleixos no ataque e os riscos no fim deixaram os celestes outra vez por um triz, como já havia acontecido com o Santos na Copa do Brasil. Mano Menezes não usou as alterações para fechar o time, apesar da postura cautelosa do segundo tempo. Mais importante foi a maneira como os cruzeirenses lidaram com a pressão. Exige-se um pouco mais de constância nas atuações, diante daquilo que os mineiros ainda podem encarar na Libertadores. Ainda assim, o sonho permanece em pé, e com uma classificação merecida às quartas de final, agora esperando Boca Juniors ou Libertad para saber o tamanho de seu desafio na próxima etapa.


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