Antes tarde do que nunca, a CBF finalmente reconheceu que estava na hora da seleção feminina ser comandada por um alguém que estabelecesse uma ligação entre competência e representatividade. E a escolha de Emily Lima não poderia ter sido mais certeira. Depois do anúncio oficial da nomeação, foi a vez da nova treinadora da equipe feminina do Brasil ser apresentada em coletiva de imprensa, que ocorreu na manhã desta quinta-feira e teve pontos muito interessantes. Pontos estes que não podem ficar restritos à essa apresentação.

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Na conferência, Emily teve espaço para falar, propor e responder às perguntas à vontade. Sentou-se à mesa sozinha e não teve que se preocupar com dirigentes que geralmente só aparecem nas coletivas para aproveitar a exposição a interrompendo vez ou outra. Aquele era seu momento. Momento da primeira mulher a ascender ao principal cargo técnico da Seleção falar. E ele foi devidamente respeitado.

“Na sexta-feira de manhã, eu recebi uma ligação do Marco Aurélio Cunha, depois do presidente da CBF”, contou a treinadora sobre ter recebido o convite. “Foi muita surpresa, em um momento que eu tinha acabado de perder o título da Copa do Brasil. Recebi uma prata naquela ocasião e um ouro nesta”, disse. “É uma surpresa que te tira do chão. Você precisa ter a cabeça no lugar. É claro que a gente se prepara para isso e eu só tenho que agradecer. Tenho que agradecer aos clubes que eu passei, as atletas com quem eu trabalhei”.

“Vou trazer o que há de melhor e mais moderno para a CBF”, afirmou ainda a treinadora, antes de falar sobre o modelo de jogo que pensa em utilizar com as jogadoras. “Tenho que pensar bem sobre isso. No clube [São José] eu tinha que me adaptar às peças que eu tinha. Aqui eu posso e devo convocar as melhores atletas da atualidade”, falou. “Quero fazer um jogo ofensivo. Pretendo, sim, trabalhar com duas linhas de quatro para começar, a adaptação é mais fácil. Mas sem a posse de bola. Com a posse de bola, que vire um 4-3-3. Gosto muito de aproximação, de jogo apoiado. Temos que mudar um pouco, nos adaptarmos e modernizarmos”.

Mediada por uma assessora de imprensa mulher, a apresentação também contou com bastantes vozes femininas representando seus veículos de comunicação e fazendo perguntas à Emily. O que podem parecer meros detalhes, mas tiveram um significado no evento. Grande parte das questões levantadas relacionavam o fato dela ter assumido esse compromisso em um meio que, de alguma forma, ainda impõe barreiras às profissionais do sexo feminino.

“Não acho que o futebol mude com ou sem mulher, acho que é preciso estar capacitada para o cargo”, expôs a nova comandante. “Mas mulheres têm mais abertura com as atletas. Eu já fui jogadora e tinha alguma dificuldade para passar algumas informações aos treinadores homens. Quando eu tive treinadora mulher, eu tive mais facilidade nisso”, confessou. “Eu pedi para Marco Polo Del Nero para trazer uma coaching esportiva, e que ela seja mulher, porque acredito que isso facilita o trabalho”, contou ainda.

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Ao ser perguntada sobre sua relação com Tite, Emily demonstrou admiração pelo treinador da seleção masculina e revelou que uma das perguntas que fez ao presidente era se poderia trocar ideias com ele. “Quando Tite ainda estava no clube, eu queria estagiar com ele. Espero agora com a proximidade trocar mais ideias com ele, sim”, declarou a ex-jogadora, que contou também que já foi chamada para treinar um time composto por homens e, claro, não poderia deixar de citar as grandes atletas que o Brasil tem atualmente.

“Ainda acredito que a Marta consiga ficar nesse ciclo de quatro anos, nesse ciclo olímpico, e a Cristiane também. Gostaria que a Formiga também, mas ela já estará com seus 42 anos e eu não sei. Mas ainda apostaria que daria para a gente trabalhar juntas nesse ciclo. Acredito nas meninas novas que estão vindo. Mas temos que ver essa renovação com cautela”.

A apresentação de Emily foi, sobretudo, sobre conquistas femininas que vem acontecendo pouco a pouco. No futebol enquanto jogo, na confederação enquanto uma entidade composta por uma maioria de homens, no futebol feminino enquanto modalidade tratada com desprezo por dirigentes, no esporte enquanto um meio em que mulheres comandando ou sendo comandadas são associadas à fragilidade, e, principalmente, no mundo enquanto um lugar em que não é tão simples assim ser mulher.

Ainda há, no entanto, muito a ser percorrido nessa caminhada de reconhecimento e espaço às mulheres dentro do futebol. Embora as últimas notícias gerem muita esperança em torno do cenário do futebol feminino, não podem faltar cobranças aos responsáveis pelo esporte como um todo no país. As mulheres precisam ser mais ouvidas em uma modalidade que é praticada por elas e ter mais chances para mostrarem sua capacidade.