Existem dois grandes motivos para figuras do futebol desempregadas concederem entrevistas frequentes: uma busca natural por mais holofotes, a fim de serem lembrados para futuros trabalhos, ou quando estão lançando seu livro. O de Unai Emery saiu alguns anos atrás, então é mais provável que se trate do primeiro caso. De uma forma ou de outra, o treinador tem exposto pouco a pouco sua experiência no Arsenal de seu ponto de vista. Mais uma vez, defendeu o trabalho que fazia nos Gunners e apontou que, quando chegou lá, o clube estava em declínio – e que ele e sua comissão técnica teriam revertido isso.

Desta vez, o papo de Emery foi com a France Football, da qual é capa nesta semana. Assim como na entrevista passada, ressaltou os resultados na tabela e a campanha finalista de Liga Europa (que terminou em derrota por 4 a 1 para o Chelsea) para evidenciar o que considerou como uma primeira temporada de sucesso.

“Quando cheguei, fazia dois anos que o Arsenal vinha em uma queda. Nós paramos esse declínio e até mesmo começamos a dar a volta por cima no clube, com uma final de Liga Europa e um quinto lugar na Premier League, um ponto atrás do Tottenham, apesar de termos conquistado apenas um ponto nas últimas cinco rodadas. Tínhamos a classificação à Champions League nas mãos, mas deu errado no final. Mas foi uma boa temporada, e tínhamos a ideia de seguir essa progressão”, avaliou.

O basco então apontou uma questão pouco falada diante da queda de rendimento na segunda temporada: a saída de líderes experientes do elenco: “Perdemos nossos quatro capitães: Koscielny, Cech, Ramsey e Monreal. São personalidades que nos faltaram nesta temporada para seguir no caminho certo”.

Sem citar nomes, Emery deixou claro que encarou problemas de comportamento por parte de alguns dos principais jogadores – poderíamos chutar ao menos Mesut Özil. “Certas estrelas não tiveram a atitude certa e exigiam mais do que ofereciam. Levando em conta tudo isso, teria sido preciso mais tempo para fazer a transição para o novo Arsenal que eu queria”, lamentou.

“Poderia ter sido o melhor treinador do mundo em Paris”

Lamentação, por sinal, tem feito parte do discurso do técnico. À France Football, confidenciou sua frustração com seu próprio trabalho no Paris Saint-Germain, desta vez puxando para si a responsabilidade: “Em Paris, eu poderia ter me tornado o melhor treinador do mundo. Eu perdi essa oportunidade”.

Em duas temporadas no PSG, Emery foi campeão da Ligue 1 e venceu as duas Copas da Liga e Copas da França que disputou, além das Supercopas nacionais. Mas viu o Monaco vencer o Francês em seu primeiro ano e, por fim, falhou no objetivo principal: a Champions League. Esteve presente em um dos capítulos mais marcantes da história do clube, a Remontada sofrida diante do Barça, depois de vencer o jogo de ida por 4 a 0. Ainda assim, não se esquece da influência da arbitragem naquela partida de volta na Catalunha.

“No primeiro ano, contra o Barcelona, fizemos uma partida de ida de muito alto nível (vitória por 4 a 0). E, na volta, fomos eliminados porque o VAR ainda não existia (na derrota por 6 a 1, houve pênalti de Mascherano não marcado em Di María, além de uma penalidade inexistente assinalada em cima de Suárez). Nós claramente fomos eliminados por decisões da arbitragem. No segundo ano, contra o Real Madrid, perdemos para uma equipe que venceu uma tríplice coroa histórica e, mais uma vez, no jogo de ida, poderíamos encontrar falhas na arbitragem”, lança ao ar.

Emery revelou um bastidor interessante sobre o confronto com o Barcelona. Na primeira partida, o 4 a 0 em Paris, Thiago Silva foi desfalque de última hora, à época noticiado como por causa de um problema muscular. O técnico conta agora, no entanto, que queria jogar com a linha de defesa mais avançada, e o brasileiro não quis executar o pedido.

“Eu queria que a equipe defendesse mais alto. O Thiago Silva é um super jogador, mas eu queria que ele jogasse mais avançado e não consegui fazê-lo aceitar isso. Eu queria que ele saísse de sua zona de conforto, que ousasse defender mais alto para que a pressão geral da equipe sobre o adversário fosse mais eficaz. Trabalhei com ele para que ele aceitasse isso, mas não tive sucesso. E essa característica de jogo do Thiago Silva se refletia em toda a equipe, que, sob pressão, tinha uma tendência natural a recuar. Como no Camp Nou, na temporada anterior. No entanto, eu dei a ordem para subir, mas não fui ouvido.”

Interessantemente, outro brasileiro do PSG, Neymar, foi “fácil de se treinar”, segundo Emery. “Com um jogador tão fenomenal, você não pode lhe dizer que já existe um time e que ele deverá se adaptar. Você precisa fazer a equipe jogar em torno dele. (…) Ao contrário do que algumas pessoas pensam, o Neymar é fácil de treinar.”

No aguardo de um convite para voltar à prancheta, talvez possamos esperar uma próxima conversa do técnico com algum veículo relevante, desta vez com alguns detalhes de treinos modernos que fazia ou anedotas de como lidava com crises pessoais, para dar aquela polida final no currículo, a seis meses do início da próxima temporada europeia.