Emergência pelo Coronavírus só evidenciou o pior da organização de futebol na Itália

Em uma situação de caos, dirigentes da Serie A e dos clubes lidaram mal com a situação e pioraram um problema que já era grave

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A Itália vive uma situação de emergência com o aumento do número de casos do Coronavírus a cada dia que passa. Há medidas sendo tomadas para conter a expansão do vírus, mas inevitavelmente há problemas. E o que vimos nas últimas semanas na Itália foi um espetáculo grotesco de desorganização, picuinhas e trocas de farpas, especialmente entre dirigentes, que se recusaram a aceitar medidas que seriam necessárias para evitar o espalhamento do contágio e manter o campeonato em andamento, sem prejudicar um calendário já apertado.

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A 25ª rodada foi a primeira a ser afetada. Os jogos entre Atalanta x Sassuolo e Inter x Sampdoria foram adiados no dia 23 de fevereiro, o dia que seriam realizados, por medo de que isso ajudasse a espalhar o Coronavírus. Como habitual, as decisões foram tomadas em cima da hora, no dia dos jogos, o que causa um efeito prático de um pequeno caos – dede os torcedores que se movimentam até os clubes que viajam. Isso, porém, é um aspecto secundário quando pensamos que é uma medida por saúde pública.

Só que a partir dali, seria necessário tratar a questão como algo sério e decidir o que fazer a partir dali. O que vimos foi o que estamos acostumados a vermos na Itália: caos. A desorganização, o caos, os interesses mesquinhos. Foi uma semana inteira de discussões sobre Juventus x Inter, programado para o dia 1º de março. Primeiro, o jogo seria com portões fechados. Depois, liberaram o estádio para ter público. Por fim, o jogo foi adiado. Decisões que mudaram no período de dois dias, de sexta a domingo. E mais do que os dirigentes dos clubes, a responsabilidade recai sobre a liga.

A guerra entre os dirigentes ficou bastante clara. A Inter achava que poderia se beneficiar de não ter os torcedores no estádio da Juventus para o clássico; a Juventus queria manter o público, porque é uma das maiores chances de ganhar uma fortuna em bilheteria (algo estimado em € 5 milhões) por ser o famoso Derby d’Italia. Quando foi proposto que o jogo só fosse adiado de domingo para segunda, de forma a ter público, a Inter também recusou. E ninguém resolvia a questão. Estava claro que o jogo não poderia ser realizado com portões abertos e jogar para o dia 13 de maio foi uma tentativa de ganhar tempo para poder abrir os portões, já com tudo resolvido. Mas isso é um chute no escuro.

O adiamento de Juventus x Inter aconteceu em uma rodada que aconteceu pela metade, ou quase. Dos 10 jogos da rodada, seis foram adiados. Os quatro mantidos, incluindo um da Atalanta, que visitou o Lecce, teve inclusive torcedores visitantes, o que não fazia sentido algum. Como um torcedor de Bergamo, que fica na Lombardia, pode ir até Lecce se vem de uma região de risco? Não seria melhor, ao menos, não ter torcedores visitantes, já que a orientação era não ter jogos nas regiões afetadas? Sim, mas isso exige lógica. E, na Itália, os dirigentes não têm adotado a lógica. Como, aliás, é habitual. O lógico, mesmo, seria não ter jogos com público.

Nenhum jogo da Serie A foi jogado com portões fechados, como seria o lógico e racional. Como, aliás, a Inter jogou na quinta-feira passada quando esteve em campo pela Liga Europa contra o Ludogorets. Diante do que já tinha acontecido no fim de semana anterior, seria lógico, como medida preventiva, jogar toda a rodada 26 com portões fechados e evitar maiores problemas. É claro que isso não aconteceu e vimos um jogo de empurra tentando tirar o máximo de vantagem possível.

Torcedores da Inter e do Milan (adversários da Juventus na Serie A e Copa da Itália, respectivamente, que tiveram seus jogos que seriam realizados em Turim adiados) fizeram acusações lembrando o Calciopoli. Naquele caso, resumindo muito, a Velha Senhora foi condenada por influenciar na escolha dos árbitros, por meio de Luciano Moggi, então seu dirigente. Este caso é diferente e os clubes deveriam ter entendido que as condições são excepcionais. E mais do que brigar por questões importantes em outros momentos, como a bilheteria e mesmo a questão de isonomia por jogarem o mesmo número de jogos, é importante pensar na saúde pública. Sim, porque a Inter ameaçou processar a Lega Serie A se o seu jogo contra a Sampdoria não fosse disputado antes da partida contra a Juventus. Uma discussão que é muito menos importante.

A maioria dos jogos da 26ª rodada foram adiados, de forma preliminar, para 13 de maio. A discussão ainda é grande, ainda mais depois que os jogos de volta da semifinal da Copa da Itália também foram adiados, aumentando o caos do calendário italiano que vem pela frente. A relutância dos dirigentes em aceitar o inevitável, que seria preciso jogar com portões fechados, fez com que o problema fosse pior. No último fim de semana, os jogos poderiam ter acontecido e o prejuízo teria sido muito menor.

Como os dirigentes não agiram por organização, terão que acatar a decisão do governo italiano, que vetou eventos esportivos com público até o dia 3 de abril. Os jogos adiados, que estavam sendo empurrados com a barriga pelos dirigentes, terão mesmo que ser jogados de portões fechados. Como parecia óbvio que seria necessário. Agora, todos terão que colocar o rabo entre as pernas. O que vimos nestes últimos dias, com membros do governo sendo desmentidos por dirigentes de clubes, e vice-versa, se tornou patética. E absolutamente característica do futebol italiano.

Sem dúvida que os jogos sem público perderão muito do seu brilho. É triste que os clubes percam uma fonte de renda importante. Sobretudo, é ruim que os torcedores não possam ver seus times em campo e participar do jogo, apoiando e sendo, por si, um espetáculo. Tudo isso, porém, tem que ficar de lado quando estamos falando do risco de um surto que pode ser terrível para a saúde da população.

É claro que é triste que uma das melhores e mais disputadas Serie A dos últimos anos seja afetada por algo assim. É, porém, inevitável. Empurrar o problema com a barriga, adiando jogos em um calendário já muito complicado, só fez tudo ficar pior. O Campeonato Italiano precisa continuar, mesmo que sob portões fechados. É mais justo inclusive com todos, mesmo a Lazio, que está na ponta da tabela, ainda que por circunstâncias, e que sonha com um scudetto depois de 20 anos do seu último.

O pior disso tudo é que embora os jogos da 26ª rodada provavelmente serão realizados no fim de semana, estamos na quinta-feira e isto ainda não foi definido. A rodada 27 segue marcada para o fim de semana, mas pode ser que seja a rodada 26 no lugar. O jogo entre Juventus x Inter pode ser no domingo ou na segunda. Ainda não se sabe. E o caos segue. Falta à liga italiana uma capacidade de organização e decisão, ter resolvido e lidado com o problema do Coronavírus de forma mais assertiva.

Os dirigentes italianos tornaram maiores os problemas que o contágio pelo Coronavírus causou. Apesar das declarações conciliatórias que vemos surgindo após a decisão tomada pelo governo, o que vimos antes foi uma busca por tentar tirar o máximo proveito – ou ao menos ser o menos prejudicado. Como dizem aqui no Brasil, “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Não é muito diferente do que vemos por aqui.