A frustração é incontornável ao Tottenham. A decisão da Champions League era a grande chance da história do clube – e sem menosprezar outros feitos memoráveis, sobretudo nos tempos de Bill Nicholson. Erguer a taça em Madri seria a oportunidade de ganhar um selo perene, de subir a um novo patamar aos olhos do mundo. E a frustração fica, principalmente, porque as maiores turbulências já tinham sido superadas pelos Spurs. Em uma temporada tão improvável, eles exibiram o seu melhor. Mas não exibiram justamente no último jogo, aquele que referendaria tantas façanhas. Não é isso que apaga um ano inigualável em White Hart Lane, de tantas formas. De qualquer forma, lamentar é natural de uma final, ainda quando se sabe que dava para fazer mais. A resignação é o sentimento que resta, no fim das contas.

Terminado o jogo, fica fácil apontar o que não aconteceu ao Tottenham. Porque, afinal, pouco realmente deu certo aos londrinos no duelo contra o Liverpool. O pênalti no início foi determinante e é compreensível que os jogadores exibam seu sentimento de injustiça. Mas também não podem negar a culpa pela impotência na hora de transformar a partida. Que o Liverpool fosse irrepreensível na defesa, os Spurs pouco desafiaram a marcação dos Reds. Tinham dificuldades extremas para sair jogando e, quando conseguiam, patinavam na noite desencontrada de seus principais nomes.

Harry Kane voltou, mas não ajudou. Christian Eriksen e Dele Alli foram uma lástima, como em outros momentos de exigência da temporada. Son Heung-min é o único que se salvou entre os titulares – e, mesmo assim, mais pela vontade do que pelo acerto. Exigiu defesas de Alisson, chamou a responsabilidade para si, tentou de diferentes maneiras. Mas não era o seu dia, como o erro incrível na pequena área (mesmo impedido) deixou claro. Faltaram mais ideias aos Spurs na hora de quebrar a barreira do Liverpool. Os lances mais perigosos se limitaram à bola parada e aos chutes de longe, não a jogadas mais trabalhadas. Que fosse difícil romper a defesa no final, quando o desespero proporcionou algumas fagulhas, o time pouco produziu quando o relógio não era o maior inimigo. Ter quase o dobro de posse de bola, 64% contra 36%, não adiantou.

Mauricio Pochettino vira um alvo (fácil) das críticas imediatistas. A ausência de Lucas Moura é o ponto principal, depois da atuação fantástica do brasileiro nas semifinais. Mas parecia difícil de imaginar que ele barraria algum de seus titulares justo agora, por mais que a irregularidade de Alli e Eriksen os colocasse na berlinda, ou mesmo que o rendimento do time sem Kane sugerisse outro caminho. Ele fez o básico e é bem possível que fosse alvejado se arriscasse algo diferente. A falta de efetividade da maioria não faz crer em uma transformação de postura tão drástica apenas por uma peça. Lucas, ao menos, se mostrou mais disposto que outros titulares ao sair do banco.

Há também a demora para a entrada de Fernando Llorente. O centroavante fez a diferença nestes mata-matas e possibilitou uma campanha tão longa. Era uma escolha lógica entre as alterações, ainda mais quando o time cruzava a esmo, de lateral a lateral. O espanhol demorou um bocado a ser chamado e, minutos depois, quando Divock Origi marcou, transpareceu que era tarde demais para ajudar.

É preciso pensar, em contrapartida, na maneira como as limitações do elenco e as lesões atrapalharam o Tottenham na temporada – ou, de certa forma, até moldaram o seu destino surpreendente. Na própria final, isso parece ter influenciado as decisões tomadas. Llorente demorou a entrar também porque Pochettino corria o risco de perder outros jogadores por lesão, como aconteceu com Moussa Sissoko. E isso foi uma constante num ano de alegrias, apesar dos percalços.

Na realidade do futebol de elite, é inconcebível que um time passe uma temporada inteira sem contratações, sobretudo quando há pouca cobertura no elenco. Neste sentido, Pochettino tirou leite de pedra. Fez improvisações, redescobriu jogadores, tirou o melhor de muitas peças. Os méritos de um grande técnico é permitir que os atletas superem seus limites. Ele fez isso. Além do mais, montou uma equipe bem encaixada, que moldou o seu jogo quando os desfalques e as circunstâncias exigiam. Chegar à final da Champions era um milagre, não só por Amsterdã, embora todos esperassem mais da equipe no Wanda Metropolitano.

Defensivamente, o Tottenham fez uma boa partida. Tomou dois gols por detalhes, sendo que o primeiro fugiu um bocado de sua própria culpa. Que o Liverpool tenha sido melhor, Hugo Lloris trabalhou menos que Alisson. O ponto é que o time não funcionou quando teve a bola, quando se esperava mais. Demorou a reagir e só o fez quando tinha que tentar de qualquer jeito. Depois do que ocorreu contra o Ajax, fica difícil dizer que os londrinos sentiram a ocasião. Sentiram mais o desgaste de um elenco que jogou em seu limite diversas vezes e não conseguiu extrair aquele algo a mais justo na ocasião mais importante. Não era uma vitória impossível, e isso é o que mais martela.

A consolação se concentra justamente diante daquilo que ainda pode acontecer. O Liverpool dá uma lição, pela maturidade que adquiriu após a derrota na Champions passada. E esse Tottenham tem motivos para acreditar que pode crescer. Alguns dos principais jogadores são relativamente jovens, a nova casa pode empurrar os resultados, o dinheiro deve reaparecer para contratações pontuais. Será necessário ampliar o elenco, assim como melhorar as opções em alguns setores, sobretudo para deixar alguns atletas menos acomodados. Pochettino é o técnico certo para isso, por tudo que já fez, mesmo sem causar o impacto esperado na final. Se os Reds vinham mais preparados, a impressão é de que esse grupo dos Spurs ainda tende a alcançar grandes coisas. A final da Champions pode não ser um ponto fora da curva, o que se nota pelos resultados que se consolidam nas últimas temporadas.