O Palmeiras avança na Copa Libertadores com uma goleada que serve para inflar o peito, mas que também não pode ludibriar o que não foi exatamente um mar de rosas no Allianz Parque. Os 4 a 0 sobre o Godoy Cruz transmitem uma ideia de autoridade. Porém, não traduzem exatamente o que se viu em campo. O momento de pressão sobre o clube, de fato, diminui diante de um placar desses. Mas o resultado saiu mais pelas circunstâncias do que por uma apresentação brilhante dos alviverdes. Depois de um primeiro tempo limitado, o time de Felipão se valeu dos erros para abrir sua margem – seja por um pênalti bem estranho marcado pela arbitragem, seja por um erro do goleiro. Já no final, com o campo escancarado aos contra-ataques, os palmeirenses deitaram e rolaram. O triunfo tem muito do empenho dos paulistas, isso é inegável. De qualquer forma, não pode servir de miragem ao que ainda deve melhorar, embora o mais importante tenha vindo: a vaga nas quartas de final.

As reclamações sobre o futebol burocrático do Palmeiras permaneceram durante o primeiro tempo no Allianz Parque. Mesmo que a missão de balançar as redes fosse do Godoy Cruz, após o empate por 2 a 2 em Mendoza, os palmeirenses tinham a iniciativa e tentavam se impor em campo. Até demonstravam certa intensidade, com a movimentação dos homens de frente, mas apresentavam muitas dificuldade na hora de atacar. Os erros de passe no campo ofensivo eram comuns e os argentinos, bloqueando bem os espaços, esfriavam o jogo quando recuperavam a bola. Não parecia uma noite tão animadora aos alviverdes.

Não à toa, as chances de gol foram bastante escassas ao longo do primeiro tempo. O Palmeiras chegou uma vez ou outra, mas era impreciso na hora de definir. Teve uma cabeçada de Marcos Rocha e um chute de Raphael Veiga para fora, mas sequer os palestrinos conseguiram acertar o gol. Se sobrava atitude, a falta de calma atrapalhava o trabalho com a bola. Ao menos, o Godoy Cruz não conseguiu ameaçar do outro lado. Quando Andrada mandou a bomba, Weverton realizou uma firme defesa. Já o pivô de Morro García, desta vez, era neutralizado pelos zagueiros.

Na volta do intervalo, parecia difícil que o Palmeiras fizesse uma atuação mais pobre que no primeiro tempo. Na base da insistência, as chances de gol começaram a aparecer. O goleiro Mehring seria exigido pela primeira vez aos cinco minutos, em jogada de Willian que Gustavo Gómez cabeceou. Já aos oito, os rumos do duelo terminaram definidos por um pênalti bem contestável assinalado pela arbitragem. Orientado pelo VAR, o uruguaio Esteban Ostojich foi até o monitor e viu um toque de mão do zagueiro que, para este que vos escreve, estava muito longe de merecer a marcação. Depois da reclamação dos argentinos, Raphael Veiga partiu à cobrança da penalidade e pegou na veia, em ótimo chute para tirar do alcance de Mehring. O placar foi aberto aos 12. Que o erro do juiz não conteste a superioridade dos palmeirenses sobre os visitantes, ele direcionou a sequência da partida e veio em hora bem-vinda para que a goleada se desenhasse.

O Godoy Cruz, que não parecia ter forças suficientes à necessária virada, até esboçou uma reação. Passou a jogar um pouco mais no campo de ataque, sem representar um grande perigo ao Palmeiras. E, com o horizonte aberto, os palestrinos puderam matar a partida com seus avanços em velocidade. As oportunidades se tornaram cada vez mais frequentes e o goleiro Mehring realizou três boas defesas em sequência a partir dos 24 minutos. Assim, o segundo gol se tornou questão de tempo e veio graças a um erro clamoroso do próprio Mehring. Aos 29, a partir de um lançamento de Weverton, o arqueiro argentino saiu mal no limite da área e Borja ficou com a meta aberta para anotar. Um prêmio ao centroavante, que, mesmo sem arriscar tanto, fazia uma ótima partida pela forma como brigava e pressionava.

Os 15 minutos finais é que deram contornos de baile à vitória do Palmeiras, quando o Godoy Cruz já não atuava com tanto afinco e buscava um gol no desespero. Gustavo Scarpa, que substituíra Raphael Veiga, carimbou a trave aos 35 e deixou o seu três minutos depois. Dudu fez boa jogada pela linha de fundo e cruzou para o companheiro arrematar. A situação dos argentinos ficou pior aos 41, em expulsão totalmente infantil de Manzur, que exagerou no carrinho em cima de Dudu. Já nos acréscimos, Dudu teve o gosto de sublinhar seu nome. Diogo Barbosa passou ao meia, aberto pela direita, e com a avenida livre no contragolpe, ele chutou firme para estufar as redes. Só ratificou os empolgados gritos de olé nas arquibancadas.

A vitória serve para motivar o Palmeiras, às vésperas do clássico contra o Corinthians. Ainda assim, deve ser vista com os pés no chão. As circunstâncias ajudaram o time e conduziram o placar contra um adversário que, além de inferior, só cedeu muitos gols quando se abriu. Não se nega o reconhecimento por toda a fome que os palestrinos apresentaram em campo. Mas esta é uma goleada proporcionada pela persistência e pelos erros aproveitados, não exatamente por um show de técnica. O trabalho continua. Felizmente, com as quartas de final pela frente. Grêmio ou Libertad, um deles estará no caminho durante a próxima fase.