Em tempos nos quais o preço dos ingressos não permite a todos terem acesso às arquibancadas, os estádios ganharam extensões além dos jogos. Assim aconteceu com diferentes clubes pelo país ao longo da década, quando treinos abertos e embarques se transformaram em novos tipos de “partidas” para os torcedores jogarem juntos. Manifestar apoio não depende de uma bola rolando e a paixão eclode em qualquer ambiente. Não seria diferente com o Flamengo. E o clima ao redor da final da Libertadores potencializou a despedida massiva aos jogadores rubro-negros nesta quarta-feira, do Ninho do Urubu rumo ao aeroporto do Galeão. Milhares de flamenguistas saíram às ruas para oferecer a última descarga de energia positiva ao AeroFla, antes da viagem ao Peru.

A decisão da Libertadores não limita apenas aqueles que desejariam ir ao Maracanã e não possuem dinheiro para bancar o hipotético ingresso. Ela abarca mais centenas de milhares sem condições para pagar a salgada viagem a Lima. A despedida, assim, tornou-se a última oportunidade para empurrar o Flamengo, para escancarar o transe que vive o Rio de Janeiro nesta semana. Há uma romaria de flamenguistas a caminho do Peru, muitos deles já espalhados pela capital. Mas se a Conmebol prefere restringir o espetáculo que aconteceria em dois estádios, resta a uma multidão começar sua festa na despedida, seguir na vibração até a partida e aguardar ansiosa pela possível apoteose que acontecerá no desembarque.

Os rubro-negros esperaram por esse dia. Muito. E por isso mesmo, o Maracanã se multiplicou nas ruas da cidade nesta quarta-feira de feriado. Era como se a velha geral revivesse, plena na alegria de um domingo de futebol, transfigurado de outra maneira. Desta vez, os craques estariam em roupa de viagem, sentados dentro de ônibus, limitados a acenar. Ainda assim, já servia de pretexto ao que todos os flamenguistas desejam: viver a finalíssima em máxima intensidade. Anseiam desaguar o curso percorrido ao longo de 38 anos, carregado de sentimentos – e de sonhos, e de imaginação. Se antes o futebol mágico do Flamengo parecia restrito à memória, a expectativa de viver de novo a grandeza a cada jogo carrega uma natural empolgação. Incontrolável.

O Ninho do Urubu foi o primeiro ponto de encontro. Segundo a Polícia Militar, mais de 10 mil torcedores se reuniram no local. A festa começou de manhã, com direito a fogos de artifício, bandeirões e muita cantoria. Como não poderia deixar de ser, os rubro-negros também homenagearam os dez garotos falecidos no local em fevereiro. Essa lembrança deveria estar presente também ao longo de toda a semana – e não apenas agora.

O ônibus do Flamengo deixou o CT logo no início da tarde. Teria que atravessar um mar de gente em sua rota até o Galeão. Os torcedores tentaram acompanhar o elenco de tudo quanto é maneira: a pé, com carros enfeitados, de moto, até mesmo em barcos ao redor do caminho. Tudo para também se sentir parte deste momento singular ao clube. Já na chegada ao Galeão, desde a Ponte Velha, mais uma multidão se reunia. Os torcedores começaram a caminhar ao lado do ônibus, que precisou seguir lentamente até o terminal.

Os rubro-negros não apenas enchiam as pistas e as calçadas. Tinha gente que escalou também árvores, caminhões, carros. O caminho era marcado por um ruído constante, entre os gritos, os cânticos e os fogos. O mais puro êxtase por amor a um clube. Uma pena que também houve confusão. Ocorreu um tumulto nos arredores do aeroporto e um portão caiu, deixando feridos, enquanto a polícia usou spray de pimenta e gás lacrimogêneo para dispersar a multidão. Uma lamentação ao que foi felicidade à maioria.

Agora, aos flamenguistas no Rio de Janeiro, resta segurar a ansiedade. O Maracanã até será ocupado, com uma Fan Fest que contará com shows e a exibição da partida em telões no sábado. Ainda assim, a final espalhará pelos quintais, pelas lajes, pelos bares, pelas casas e pelo coração de cada torcedor. O Rio e o restante do Brasil aguardam. Os próximos três dias serão os mais longos dos últimos 38 anos aos rubro-negros. Ao que eles sonham, para desatar em uma comemoração que desejarão nunca mais terminar.