Em um Parque dos Príncipes que lhe é emblemático, Solskjaer tirou outro coelho da cartola para afastar os críticos

Acréscimos do segundo tempo, jogo de volta das oitavas de final da Champions League. Marcus Rasfhord, pré-doutor honoris causa e membro do Império Britânico, e ainda mais jovem, estava a um chute de 11 metros de uma classificação fenomenal do Manchester United sobre o Paris Saint-Germain, revertendo o placar agregado, no Parque dos Príncipes. Rashford acertou o chute e gerou uma apoteose que culminou com a efetivação de Ole Gunnar Solskjaer. A história, dizem, se repete. Não foi como tragédia, nem como farsa, nem com as mesmas circunstâncias, mas outro arremate de Rashford, de mais longe, selou uma segunda vitória no Parque dos Príncipes, por 2 a 1, também importante para o projeto do assassino com cara de bebê.

Tem sido um hábito de Solskjaer. Quando o carro começa a deslizar um pouco para fora da pista, ele consegue emplacar uma grande atuação em um grande jogo para corrigir o percurso. A temporada havia começado meio estranha, o que é verdade para quase todos os ingleses, com derrota pesada para o Crystal Palace, um pênalti marcado após o apito final para vencer o Brighton e uma trágica goleada por 6 a 1 para o Tottenham – o requinte de crueldade – de José Mourinho.

Como não há 100% de confiança na capacidade de Solskjaer de ser o treinador que o Manchester United precisa, uma sequência ruim, mesmo que breve, costuma ser suficiente para os questionamentos, alguns justos, saírem do fundo do baú. Alguém sempre escreve um texto ou um tuíte para lembrar que Mauricio Pochettino continua desempregado. Solskjaer tem conseguido sempre dar uma resposta antes que esse clima se torne insustentável.

A goleada sobre o Newcastle havia sido um primeiro passo, embora o placar de 4 a 1 a favor do United não conte toda a história da partida – estava 1 a 1 até os 41 minutos do segundo tempo -, mas o que realmente tem potencial para lhe passar confiança e tranquilidade é uma vitória categórica e merecida sobre os atuais vice-campões europeus fora de casa.

O United foi, no geral, o melhor time. Marcou muito bem, especialmente com Aaron Wan-Bissaka. Pelo menos igualou as ações no primeiro tempo e foi superior no segundo, quando teve bastante campo para contra-atacar, situação em que o seu futebol floresce. O PSG ajudou com um jogo ruim do seu trio de ataque. Neymar e Mbappé sempre criarão lances perigosos, porque são excepcionais, mas não estava muito inspirados. Di María esteve apagado, e Moise Kean nos fez lembrar por que era reserva do Everton.

Sem Verratti (mais uma vez), e enquanto povoar o meio-campo com jogadores entre medianos e razoáveis ou com características mais defensivas, o PSG seguirá dependendo do que os caras de frente conseguem produzir. Quando produziram coisas interessantes, De Gea resgatou seus melhores momentos com algumas excelentes defesas que devem lhe passar muita confiança, após uma temporada de instabilidade.

As primeiras saíram aos 12 minutos. Di María deu o ar da sua graça pela primeira e única vez na partida com um chute colocado de fora da área. De Gea se esticou para espalmar. Neymar cobrou o escanteio curto para Mbappé, que cruzou fechado. Kurzawa conseguiu o desvio, à queima-roupa, mas o goleiro espanhol defendeu com o corpo.

Aos 21 minutos, Shaw encontrou Martial dentro da área. O atacante francês dominou girando para tentar invadir a área e foi derrubado por Diallo. Pênalti – e o PSG reclama de alguns não marcados a seu favor – para Bruno Fernandes cobrar. Ele tem sido implacável desde que chegou ao Manchester United. Desta vez, porém, Keylor Novas conseguiu fazer a defesa. Mas se adiantou. Claramente se adiantou. E, na era do VAR, isso não passa mais batido. A cobrança foi repetida, e Fernandes abriu o placar ao United.

Antes do intervalo, Fernandes exigiu uma defesa magnífica de Navas com uma bomba de fora da área e, já no segundo tempo, o PSG respondeu com uma jogada individual de Mbappé que exigiu muito trabalho de De Gea. Aos 10 minutos, saiu o empate. Meio que por acaso. Neymar cobrou escanteio, e Martial cabeceou contra o próprio patrimônio. A reação de De Gea, abrindo os braços para sinalizar que o United ataca para o outro lado, foi perfeita.

Aí o jogo pegou fogo. Não ficou ótimo, apesar de muito aberto, com muitos erros nos dois lados do gramado, mas estava bem movimentado. Wan-Bissaka teve um bloqueio perfeito para anular a invasão de Mbappé, e Rashford começou a calibrar o chute de média distância, aos 24 minutos, muito bem defendido por Navas. O jovem teve outra grande chance, ao fim de um contra-ataque, mas parou novamente no goleiro costa-riquenho. No outro lado, De Gea parou uma batida de longe de Neymar.

Aos 42 minutos, brilhou a estrela de Rashford. Ele recebeu de Pogba na entrada da área, deu a volta em Danilo Pereira com a facilidade de quem passa por cones no campo de treinamento, e soltou um perfeito chute rasteiro que poeticamente bateu na trave antes acariciar as redes.

No âmbito geral, a vitória do Manchester United serve para lhe dar uma vantagem importante na briga pelo primeiro lugar e somar três pontos que não estavam na conta do RB Leipzig, outro possível candidato a passar às oitavas de final. Mais importante ainda, solidifica um pouco mais o trabalho de Solskjaer, sempre capaz de fechar a porta quando é empurrado um ou dois passinhos em direção a ela. Ainda mais em Paris.

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