Em transe coletivo, o Leicester viveu a euforia de um sábado que nunca terá fim

Existem dias tão especiais na vida, mas tão especiais, que tudo parece não passar de um sonho. As visões ficam envoltas de uma névoa branca, enquanto a euforia toma conta do espírito e te deixa um tanto quanto aéreo. Sensação única, mas compartilhada por 32 mil pessoas no Estádio King Power neste sábado. Ou mais do que isso, considerando também quem ficou pelas ruas da cidade. Leicester viveu uma tarde inesquecível. Como um verdadeiro sonho, comemorou o seu primeiro título inglês, a histórica façanha na Premier League. E preparou um ambiente digno à ocasião, para que os seus torcedores não despertassem. Acordaram três vezes, na vibração dos gols que construíram a vitória por 3 a 1 sobre o Everton. Seriedade, independente da conquista, e motivação extra para a festa na entrega da taça.

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A fantasia, que havia começado na segunda-feira, ganhou força neste sábado. Milhares de cidadãos transformaram a camisa azul em traje de gala e tomaram as ruas de Leicester. Procissão que se seguiu até o Estádio King Power, o palco mágico das Raposas. Nas arquibancadas, pizza e cerveja eram distribuídos gratuitamente, cortesia recorrente desde a segunda divisão pelo comprometimento ao longo da epopeia. E, antes do apito inicial, a homenagem em campo se materializou na voz de Andrea Bocelli. A pedido de Claudio Ranieri, o tenor italiano foi à Inglaterra abrilhantar o sábado. Causou furor ao tirar o casaco preto que vestia e exibir também a camisa dos campeões.

“Ninguém dorme! Ao alvorecer, vencerei!”. A letra do clássico Nessun Dorma traduziu o sentimento de tantos fanáticos na semana anterior, que não dormiram após o empate com o Manchester United e esperaram o épico se consumar com a queda do Tottenham. Enquanto isso, Con Te Partirò soou como um hino, com bandeiras azuis e brancas tremulando nas arquibancadas. “Com você partirei. Países que nunca vi ou vivi com você, agora sim eu viverei”. Uma prévia do que o Leicester experimentará na próxima temporada, com a participação inédita na Liga dos Campeões. E que também antecedeu a recepção dos vencedores, aplaudidos de pé pela torcida e também pelos adversários do Everton, em guarda de honra.

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A missão cumprida não tirou a fome de bola do Leicester. Em cinco minutos, o placar estava aberto com Jamie Vardy, desviando o cruzamento perfeito de Andy King. E o camisa 10 ampliou a diferença aos 33 minutos, aproveitando grande jogada de Riyad Mahrez. Nada mais natural que os protagonistas do título, Vardy e Mahrez, chamassem a responsabilidade na partida festiva. Nada mais merecido que King tivesse seu momento de estrelato. Afinal, o membro mais antigo do elenco foi o único que vivenciou toda a ascensão do clube nos últimos sete anos. Disputou a terceira divisão, a segunda e a primeira. Conquistou a League One, a Championship e Premier League. E isso ainda participando da impressionante fuga do rebaixamento em 2014/15.

Em campo, cada um dos jogadores do Leicester queria ressaltar sua importância. Schmeichel e seus milagres, Morgan e sua solidez, Kanté e seus desarmes, Okazaki e sua energia. Já nas arquibancadas, o barulho aumentou com os gols, mas não cessou por um segundo sequer. Era uma comemoração ininterrupta durante 90 minutos, entre gritos de ‘campeones’ e sinos que soavam. Os bandeirões se estendiam exaltando os heróis, em especial Claudio Ranieri, o homem que transformou a cidade.

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No segundo tempo, após alguma pressão do Everton, o Leicester parecia pronto a golear. Vardy vinha com tudo em busca da artilharia e fez o terceiro, cobrando pênalti. Parou nas defesas de Joel Robles e, quando poderia anotar o quarto, isolou outra penalidade por cima do travessão. Já no final, os Toffees marcaram seu gol de honra com uma pintura de Kevin Mirallas. Nada que cortasse o barato dos anfitriões. E ainda houve tempo para o devido reconhecimento a Mahrez, substituído por Ranieri apenas para ser ovacionado pela torcida.

Por fim, o sorriso dos 32 mil presentes no Estádio King Power reluziu na medalha de ouro no peito dos jogadores, no prateado da taça da Premier League, nas lágrimas de Claudio Ranieri. Wes Morgan, o capitão forjado nas divisões inferiores do futebol inglês, teve o gosto de levantar o troféu. E não foi egoísta com a honraria, chamando também o treinador. Personificaram o sentimento de cada um dos torcedores, com uma alegria que não se continha em si. Das quatro mãos, o prêmio passou aos outros personagens que tornaram o sonho real. De Schmeichel a Vardy, do roupeiro ao presidente, de Ranieri à história. Foi o grande detalhe na foto oficial, entre as bandeiras que mais lembravam o costume inglês dos clubes que conquistam o acesso – o que, até alguns meses, era o normal às Raposas. E a taça continuará assim, por todo o sempre, trocando de mãos. Viva na memória de cada torcedor e recontada às futuras gerações. A tarde de Leicester que nunca acabará.


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