O Palmeiras será o segundo clube a adotar um gramado sintético no Brasil, depois do Athletico Paranaense o fazer em 2016. O clube paranaense alegou a dificuldade de manutenção do gramado pelo clima da cidade de Curitiba, além do uso da sua arena para outros fins, como shows, que dificultava a recuperação do gramado. O Palmeiras vai por caminho parecido. Há muitas discussões sobre os benefícios e malefícios causados pela grama sintética. Atualmente, a grama sintética está muito mais próxima da natural, mas ainda há muitas questões sobre a adoção desse tipo de piso.

“Trata-se de uma base de estrutura plana, na qual fios ou fibras (tufos), produzidos geralmente em polietileno, são introduzidos por meio de agulhas, formando uma superfície felpuda”, explica a pesquisadora Rayana Santiago de Queiroz, do Laboratório de Têxteis Técnicos e Produtos de Proteção do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Depois da produção desta primeira parte, é aplicada um acabamento polimérico sobre a base. Com isso, o material é capaz de manter seu tamanho original nas mais diferentes condições ambientais e de uso.

Como o nome do laboratório indica, a grama sintética é similar a uma estrutura de carpete e, por isso, tem um arranjo que é considerado têxtil. Os gramados sintéticos são aprovados pela Fifa – desde que estejam de acordo com as especificações da entidade. É preciso pedir uma certificação à entidade, que é feita por entidades especializadas nesse tipo de análise.

Os gramados artificiais são feitos baseados no desempenho dos gramados naturais, de modo a simular de forma mais precisa as características originais. “Principalmente em termos da interação jogador-grama e bola-grama, não existem diferenças de performance em tese”, afirmou Queiroz.

A pesquisadora ressalta, porém, que há outros fatores que podem interferir nessas relações dos jogadores e da bola com a grama artificial. “A questão do conforto térmico e tátil é um problema relevante, porque a grama sintética retém mais calor, ocorrendo consequentemente a sua transferência para o jogador, e também pode causar lesões na pele de queimadura por fricção”.

“O nosso compromisso é fazer o futebol ter a mesma qualidade do primeiro minuto até o fim do jogo. O grande gol foi trazer uma grama de ponta, que hoje é o que tem de melhor no mundo”, afirmou Alessandro Oliveira, CEO da Soccer Grass, empresa que fez a instalação da grama sintética no Allianz Parque. A declaração foi dada na quarta, quando o Palmeiras apresentou ao público o novo gramado, com uma coletiva de imprensa junto ao presidente alviverde, Mauricio Galliotti.

“A chuva que tivemos no domingo foi a mais forte dos últimos 37 anos, e o nosso sistema de drenagem funcionou perfeitamente. Creio até que poderíamos ter um jogo naquele momento. Todo o cuidado que havia antes com a grama natural continuará igual com a grama sintética. A grande vantagem é que, logo após um show, basta tirar a proteção e a grama voltará ao normal. Não existirá mais dúvidas se a grama estará boa ou não”, continuou o CEO da Soccer Grass.

A manutenção é a grande vantagem quando se fala em grama sintética. Ela é mais barata e simples do que o gramado natural, porque não há necessidade de irrigação ou reparos de jardinagem, por exemplo. “A economia de manutenção em um sistema como esse fica por volta de 75%. Precisa escovar, muita escovação. Logicamente um detalhe ou outro também. Agora é o inverso do que era antes… pise na grama, por favor (risos). Quanto mais jogos, teremos uma qualidade ainda melhor. Aos poucos o gramado vai criando corpo”, disse ainda Oliveira, na coletiva de apresentação do gramado do Allianz Parque.

A grama sintética é muito utilizada em países de clima temperado, onde a manutenção de um gramado natural é mais complicada pelas questões ambientais. A Fifa passou a reconhecer os gramados artificiais a partir de 2015 e criou duas certificações para os tipos de gramado, Fifa Quality e Fifa Quality Pro, sendo a segunda a maior possível.

“Principalmente em locais de invernos rigorosos, a manutenção da grama natural acaba sendo economicamente inviável”, afirmou Queiroz. As especificações da Fifa são pensadas para os modelos de gramado sintético que foram elaborados para a Europa e, por isso, não é garantido que as especificações atendam plenamente as questões climáticas de um país de clima tropical, como o Brasil.

“Quando se fala em alterações climáticas de uma região para outra, a durabilidade da grama em função à exposição ultravioleta (UV) é um dos principais impactos”, afirma a pesquisadora do IPT. A grama artificial precisa ser envelhecida por cinco mil horas, de acordo com a especificação internacional. Depois disso, o material é avaliado quanto à perda de resistência à tração. Caso atenda aos valores estabelecidos, é aprovada dentro do padrão da Uefa.

Há, porém, quem esteja fazendo o movimento contrário e saindo de gramados artificiais para naturais. Na Holanda, onde os gramados sintéticos se tornaram comuns pelo clima temperado e facilidade na manutenção, os clubes entraram em acordo desde a temporada passada para acabar com todos os gramados artificiais. Os grandes clubes do país aceitaram dividir uma parte das receitas de competições internacionais para os clubes da Eredivisie e exigiram como contrapartida que estes troquem o seu gramado para natural. As regras foram determinadas e serão reavaliadas após três anos.

Com o uso das arenas do Palmeiras e do Athletico para mais atividades do que o futebol, a tendência é que possam usar mais o estádio para jogos em um tempo muito menor quando houver outros eventos. E isso pode dar a esses clubes uma vantagem esportiva, além da economia de manutenção.