Jogar futebol é um sonho de muitas crianças que vestem suas chuteiras pela primeira vez. Para alguns, o sonho acaba quando é preciso escolher uma profissão. Para outros, o sonho continua, mesmo depois do trabalho. Quantos casos vemos de jogadores que, no início, tinham que trabalhar em outra profissão para manter o sonho vivo? O zagueiro Índio, que anunciou a aposentadoria pelo Internacional, chegou a ser boia fria. Rildo, atualmente no Santos, foi entregador de pizza.

No caso do Auckland City, o campeão da Oceania, cerca de metade do elenco vai disputar o Mundial de Clubes, sonho de muitos dos profissionais de futebol que almejam glória e títulos. Eles sonham apenas em conseguir um emprego como jogadores profissionais de futebol. Em um continente ainda dominado pelo amadorismo, o Auckland City é o mais perto que os jogadores neozelandeses chegam do profissionalismo. O time treina todos os dias à noite e tem alguns jogadores profissionais que reforçam o time. Como diz o ditado, em terra de cego, quem tem olho é rei. Ou quem tem um time semiprofissional domina os campeonatos amadores.

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O Auckland City tem cinco participações em Mundiais. Só uma vez passou pelo jogo inicial, em 2009, quando venceu o Al Ahli, dos Emirados Árabes,mas perdeu para o Atlante por 3 a 0. A fraqueza do time quando entra no Mundial não é por acaso. O time não é profissional, ou, ao menos, não completamente profissional. O futebol neozelandês é amador com os times sem condições de ter muitos jogadores totalmente profissionais. Por isso que o único time profissional, de fato, é o Wellington Phoenix, que não joga a liga da Nova Zelândia, e sim a da Austrália, que, esta sim, é profissional.

Para se ter uma ideia, o Campeonato Neozelandês tem oito times, sendo um deles uma equipe sub-20 e outra o time B do Wellington Phoenix. O mais louco disso é que os adversários do Wellington Phoenix podem escolher quais jogadores poderão entrar em campo. Como os times são amadores e o Wellington Phoenix é profissional, há algumas regras: o time pode entrar em campo com quatro profissionais, além de dois jogadores sub-20. Ah sim: mesmo assim, os escolhidos devem ser aprovados pelos adversários. O que é estranho, se pensar que os times querem vencer.

Há ainda o Wanderers FC, um time formado com os jogadores da seleção sub-20 da Nova Zelândia. Foi uma forma encontrada pela federação do país de treinar o time para a Copa do Mundo da categoria, que será disputada justamente na Nova Zelândia em 2015. É uma forma de fortalecer e dar entrosamento ao time que disputará o torneio e fazer um bom papel. O problema é que cria uma situação para lá de estranha na liga.

O Auckland City é um dos times de melhor estrutura na Nova Zelândia, que, por sua vez, é o país com mais força na Oceania. O time não é completamente amador, é semiprofissional. Com isso, ganha força diante de alguns dos times do próprio país e do continente. Com ao menos alguns jogadores como profissionais, comoo capitão Ivan Vicelich, zagueiro de 38 anos e jogador da seleção da Nova Zelândia, ou o atacante Emiliano Tade, atacante argentino que foi o artilheiro do time na Liga dos Campeões da OFC, e o português João Moreira, outro atacante, este machucado. Tade, aliás, foi o Bola de Ouro da competição.

Com mais dinheiro que os concorrentes, o Auckland consegue contratar jogadores estrangeiros profissionais, o que eleva o nível do time. Tanto que contratou, para o Mundial de Clubes, o atacante Sanni Issa, do time que jogou a final da Liga dos Campeões da OFC, o Amicale. O nigeriano era um dos poucos estrangeiros na equipe. Mas o time ainda é amador. Cerca de metade do elenco tem empregos fora do futebol e trabalham cerca de 40 horas por semana, além de treinar à noite com o time.

É o caso de Tamati Williams, o goleiro do time, que tem 30 anos. Em entrevista ao jornal New Zealand Herald, em maio, antes da final da Champions League da OFC, ele falou sobre o sonho. “Eu ainda sonho em jogar profissionalmente. Eu tenho outras coisas para focar caso não aconteça, porque eu não sou mais tão jovem. Mas eu acho que a maioria das pessoas que veste chuteiras e começa a jogar tem o sonho de se tornar profissional e eu não sou diferente”.

É atrás desse sonho que os jogadores do Auckland vão a campo nesta quarta. Sonhando em ser profissional, enquanto jogam o Mundial de Clubes. Por isso é difícil imaginá-los indo além do primeiro jogo. Contra o Moghgreb Teoutan, o Auckland City vive o sonho.