* Por Emmanuel do Valle, jornalista e dono do blog Flamengo Alternativo

A campanha foi um papelão do início ao fim. Em crise técnica, tática e até física, a Holanda terminou as Eliminatórias para a Euro 2016 na quarta colocação do Grupo A, bem longe das duas vagas diretas e até mesmo da chance de ir à repescagem. A última vez em que havia ficado de fora do campeonato europeu havia sido na edição de 1984, ironicamente também disputada em solo francês. Se serve de alento para a estropiada Laranja, vale lembrar que foi durante aquela malfadada fase de classificação há pouco mais de 30 anos que surgiram vários dos maiores craques da história do país. Incluindo muitos que se redimiriam com o título da Euro em 1988.

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É verdade que a Holanda ainda não havia brilhado em Eurocopas como tinha feito em Copas do Mundo. Disputara somente as edições de 1976 (derrotada pela Tchecoslováquia nas semifinais, frustrando a expectativa geral de revanche contra a Alemanha Ocidental na decisão) e 1980 (eliminada na fase de grupos, de novo atrás de alemães e tchecos). Bem antes, lá nos primórdios do torneio em 1964, havia cometido a façanha de ser eliminada por Luxemburgo, mesmo fazendo as duas partidas em casa (pensaram que ficar de fora da próxima Euro era o maior vexame da história da Laranja? Inocentes…).

É fato também que a Holanda vinha de outro fracasso em fase de classificação, perdendo a vaga na Copa do Mundo de 1982 para França e a arquirrival Bélgica. Além disso, os clubes do país atravessavam péssima fase nas competições europeias. Entre 1982 e 1986, foram cinco eliminações consecutivas do campeão holandês na primeira rodada da Champions, e a única equipe a chegar na fase de quartas de final de um torneio continental foi o pequeno Fortuna Sittard, na Recopa de 1985. O cenário não era nada animador.

Mas as seleções de 1974 e 1978 ainda eram lembranças recentes para os torcedores, e esperava-se a qualquer momento pela grande ressurreição das camisas laranjas pelos gramados dos grandes torneios. Mesmo que este renascimento viesse sob o comando do mesmo técnico que não conseguira levar o time ao Mundial da Espanha: Kees Rijvers, 56 anos. Ex-meia que disputara os Jogos Olímpicos de Londres em 1948 pela Oranje e chegara a atuar no Feyenoord e no futebol francês nos anos 1950 e 60, Rijvers tinha feito bom trabalho dirigindo o PSV durante seis anos, durante os quais acumulara três títulos da liga, dois da copa e um da Copa da Uefa. Caberia a ele o trabalho de injetar sangue novo na equipe nacional.

A Holanda escalada com: em pé, Schrijvers, Gullit, Houtman, Erwin Koeman, Van Basten e Ronald Koeman; agachados, Wijnstekers, Vanenburg, Ophof, Boeve e Willy Van Der Kerkhof
A Holanda escalada com: em pé, Schrijvers, Gullit, Houtman, Erwin Koeman, Van Basten e Ronald Koeman; agachados, Wijnstekers, Vanenburg, Ophof, Boeve e Willy Van Der Kerkhof

Entre os novatos que tiveram sua primeira experiência de futebol competitivo pela seleção holandesa naquele período estavam nomes como Ruud Gullit, Frank Rijkaard, Marco Van Basten, Ronald e Erwin Koeman, Wim Kieft, Sonny Silooy e Gerald Vanenburg, todos entre os 18 e os 22 anos. No outro extremo, alguns veteranos seguiam com espaço, como o goleiro Piet Schrijvers, o zagueiro Hugo Hovenkamp e os gêmeos Willy e René Van Der Kerkhof (especialmente o primeiro), remanescentes do Mundial de 1978. Na faixa de idade intermediária estavam, entre outros, o capitão Benny Wijnstekers, o goleiro Hans Van Breukelen e o líbero Michel Van Der Korput.

Na primeira metade das Eliminatórias, disputada durante a temporada 1982/83, o treinador utilizou 22 titulares diferentes mais dois jogadores que atuaram apenas vindos do banco. Foi nesse começo atribulado de campanha, normal para um time em processo de renovação, que vieram os tropeços. Na estreia, em 1º de setembro de 1982, a Laranja teve que buscar o empate em 1 a 1 com a Islândia em Reykjavik dois minutos depois de ter saído atrás no marcador. O gol foi marcado de cabeça pelo meia Dick Schoenaker, após falta lateral cobrada na área por um zagueiro de 19 anos, chamado Frank Rijkaard. Naquele mesmo dia, um talentoso meia-armador daquele time completava em campo seu vigésimo aniversário: Ruud Gullit. E dali a 22 dias, o jovem marcaria com um chutaço de fora da área seu primeiro gol pela Laranja, o segundo do time na vitória de 2 a 1 sobre a Irlanda, em Roterdã.

Ainda em 1982, a Holanda faria sua terceira partida pelo Grupo 7 contra Malta, num jogo fora de casa em que a federação holandesa conseguiu transformar em um praticamente em casa, depois de a Uefa aceitar a transferência da partida do impraticável piso do Estádio Nacional Ta’Qali, em Valletta, para a cidade alemã de Aachen, bem ao lado da fronteira holandesa. Para aumentar o saldo de gols, Kees Rijvers não poupou força ofensiva: escalou logo três centroavantes: Pierre Vermeulen, do Feyenoord; o veterano Kees van Kooten, de 34 anos, do pequeno FC Zwolle; e o jovem René Hofman, 21 anos, revelação do Roda. E terminou o jogo com uma vitória fácil por 6 a 0, dois gols de van Kooten, dois de Schoenaker e dois de zagueiros (Ophof, de pênalti, e Hovenkamp, de fora da área).

Para a partida crucial contra a Espanha em Sevilha, em fevereiro de 1983, Rijvers mudou radicalmente o perfil da equipe. A formação ultraofensiva deu lugar a uma escalação com nada menos que sete defensores, incluindo os retornos do vigoroso zagueiro Johnny Metgod, do Real Madrid, e até do veterano líbero Ruud Krol, 33 anos, então no Napoli, disputando o que seria seu último jogo pela Oranje. Mais adiante, ficavam à espreita para puxar os contra-ataques o ponta René Van Der Gijp, o meia Dick Schoenaker e o centroavante Jurrie Koolhof. Mas a retranca não foi o suficiente para impedir a Espanha de abrir o placar no fim do primeiro tempo, com gol de pênalti do meia Juan Antonio Señor. Na etapa final, o esquema holandês foi desmanchado com as entradas de Gullit e do meia Michel Valke, do Feyenoord, nos lugares de Hovenkamp e Metgod. Medidas insuficientes, porém, para conseguir o empate.

Quase sete meses depois, em 7 de setembro de 1983, a Holanda voltou a campo pelas Eliminatórias. Nesta segunda metade, já dentro da temporada 1983/84, Kees Rijvers manteve uma base: apenas 14 jogadores foram utilizados entre os titulares e outros três atuaram vindos do banco. Mais coeso, o time venceu as quatro partidas que disputou. Com o descarte da maioria dos veteranos e de algumas apostas que não deram tão certo, abriu-se espaço no elenco para mais jovens, como os irmãos Ronald e Erwin Koeman, que haviam estreado na seleção em um amistoso contra a Suécia em abril e agora fariam seu primeiro jogo de competição pela Laranja contra a Islândia, no Estádio Oosterpark de Groningen. Também debutaria na seleção o atacante Marco Van Basten, 18 anos, destaque do Mundial Sub-20 disputado em junho daquele ano no México, no qual a Holanda empatou com o campeão Brasil e só parou na Argentina, nas quartas, com uma derrota de virada no minuto final.

A série de vitórias nos últimos jogos das Eliminatórias da Euro começou com um fácil 3 a 0 nos islandeses, placar construído em pouco mais de 20 minutos por meio de Ronald Koeman, Gullit e o estreante Peter Houtman. Em outubro, veio a difícil visita a Dublin para enfrentar a Irlanda, terceira força do grupo, no velho Dalymount Park. Com um esquema mais cauteloso, Kees Rijvers sacou Houtman e o meia Erwin Koeman para as entradas do estreante zagueiro Sonny Silooy (outro bom valor do time sub-20) e do lateral Adri Van Tiggelen, fazendo a função de meia-esquerda em sua segunda partida pela seleção. A Holanda foi para o intervalo em desvantagem de 2 a 0 – marcaram Waddock e Liam Brady de pênalti – e poderia ter sofrido até mais gols.  No retorno do intervalo, porém, a reação foi espetacular: Gullit descontou com um petardo aos seis minutos; Van Basten empatou de cabeça após escanteio aos 21 e de novo Gullit recebeu pelo passe e virou o jogo aos 31. Vitória épica dos garotos da Laranja.

A revanche contra a Espanha viria em novembro, em Roterdã. Precisando vencer para seguir com as mesmas chances da Fúria, a Laranja abriu o placar com Houtman, após bonita jogada de Ronald Koeman. Os espanhóis empataram ainda na primeira etapa com o centroavante Santillana em sua especialidade, a bola aérea. Mas no segundo tempo, Gullit soltou uma bomba da intermediária que resvalou no zagueiro Goikoetxea e matou o goleirão Arconada, dando a vitória aos donos da casa.

Com o resultado, a Holanda agora dividia a liderança da chave com os espanhóis em pontos e tinha vantagem no saldo de gols (+11 contra +5). Ambos teriam o mesmo desafio em seu último jogo: Malta, em casa. Bastava vencer a fraca seleção mediterrânea por um placar impossível de ser alcançado pela Espanha para garantir a vaga. Foi o que, em tese, a Laranja conseguiu no dia 17 de dezembro, ao vencer por 5 a 0, com gols de Rijkaard (dois), Brocken, Wijnstekers e Houtman. Mas dali a quatro dias, uma das mais inacreditáveis vitórias do futebol em todos os tempos acabou com o sonho holandês: a Espanha aplicou sonoros 12 a 1 em Malta, dando-se ao luxo de desperdiçar um pênalti logo no começo da partida, superou o saldo de gols da adversária pela classificação e carimbou o passaporte para a França.

Mesmo com a improvável eliminação, a segunda no currículo de Kees Rijvers no comando da Laranja, o treinador seguiu no comando, levando adiante o processo de renovação. Em março do ano seguinte, num amistoso disputado em Amsterdã, a Holanda aplicaria 6 a 0 na “Dinamáquina”, que havia desclassificado a Inglaterra e seria a sensação da Eurocopa dali a alguns meses. Mas a derrota para a Hungria em casa no primeiro jogo das Eliminatórias para a Copa de 1986 custou o cargo ao treinador, propiciando o primeiro de inúmeros retornos de Rinus Michels ao posto. Uma cirurgia cardíaca de emergência ainda faria Michels ceder o posto a Leo Beenhakker, que levaria a Holanda até o fim da fase de classificação e a uma nova eliminação para os rivais belgas. Mas as bases para o título da Euro 1988 já haviam sido sedimentadas por Kees Rijvers.

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Dos 20 jogadores campeões da Eurocopa na Alemanha (novamente com Michels no comando), nove haviam sido lançados ou começaram a se firmar na seleção durante a fase de classificação da edição anterior: Van Breukelen, Van Tiggelen, Ronald Koeman, Rijkaard, Vanenburg, Erwin Koeman, Gullit, Kieft e Van Basten. Duas eliminações seguidas serviram para amadurecer a geração que conquistaria o único grande título da Laranja. No entanto, como acontece em toda grande fornada de jogadores talentosos que surge por volta de uma mesma época, houve também quem não aproveitasse o momento. Como nota final, lembramos os dois casos mais simbólicos: os de René Van Der Gijp e Peter Houtman.

Ponta-direita habilidoso, insinuante e bom passador, Van Der Gijp era cria do Sparta de Roterdã, mas defendia o modesto Lokeren belga quando estreou na Laranja. Suas atuações atraíram os grandes clubes europeus e ele chegou a ser emprestado à Internazionale para a disputa do Mundialito de Milão, realizado em julho de 1983 e que também contou com a participação de Milan, Juventus, Flamengo e Peñarol. Seu desempenho, assim como o dos nerazzurri, foi pífio e a empolgação em torno de seu futebol esfriou. Ainda assim conseguiu uma transferência para o PSV e teve grande atuação na goleada sobre a Dinamarca no amistoso de março de 1984. Mas acabou não segurando a onda.

Houtman, por sua vez, já tinha 26 anos quando da primeira convocação, mas estourara tardiamente e vivia grande momento. Artilheiro da liga pelo Feyenoord e Chuteira de Prata da Europa na temporada 1982/83, atrás apenas do portista Fernando Gomes, despontava como o principal rival do jovem Marco Van Basten para o papel de centroavante da seleção. Disputaria ainda as Eliminatórias da Copa de 86, mas acabou entrando e saindo do time e perdendo a parada, depois de entrar em campo apenas nove vezes pela Holanda. Entretanto, marcou expressivos sete gols, alguns deles importantes para manterem vivas as esperanças holandesas nos dois torneios, como o contra a Bélgica no jogo da volta da repescagem europeia para o Mundial do México.