Triunfar em uma Champions League é para poucos. Levantar a Orelhuda sendo o protagonista do jogo final, então, nem se fala. Ser o dos principal condutor do time à decisão graças a uma aspiração que combina uma fome de gol insaciável e uma coleção de passes na medida para culminar em bola na rede também não é para qualquer um. Cristiano Ronaldo se encaixa em todas estas situações (e mais algumas) em 2016/17, uma temporada atípica para ele, embora o fim dela já tenha sido vivenciado pelo craque em um passado não tão remoto. Autor de dois gols na goleada por 4 a 1 sobre a Juventus, o português se sagrou campeão novamente com o Real Madrid, subindo ao topo da Europa pela quarta vez, e, mais do que nunca, individualmente, superando Lionel Messi na artilharia da Champions na temporada com seus incríveis 12 gols, dos quais dez foram decisivos, anotados na fase de mata-mata, e excedendo seus próprios limites para chegar à final melhor e maior do que em todas as outras temporadas.

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O dilema de Cristiano Ronaldo começou na Eurocopa, com a lesão no tornozelo que o obrigou a jogar a toalha na decisão ante a França. Por sorte, com muita competência média e esforço do atleta, ele conseguiu retornar aos gramados logo no início da temporada de La Liga, contra o Osasuna, na terceira rodada. E voltou já inspirado, sendo responsável por um dos tentos dos merengues naquela rodada. Alguns dias depois, porém, o camisa 7 teve que se afastar do grupo novamente. Pegou uma gripe. E lá se foram mais quatro dias sem treinar e mais um jogo perdido. Pode parecer pouco, mas para Cristiano Ronaldo é uma vida. Toda a preocupação que ele tem com sua condição física para estar sempre disponível para jogar, e, mais do que isso, para ser útil ao treinador e voar em campo, ameaçou se voltar contra ele em mais três pequenas contusões que ele sofreu ao longo da temporada. Foram, ao todo, sete jogos sem estar junto ao elenco merengue por conta de lesões, contando com o infortúnio da final da Eurocopa.

Esse cenário de contusões somados ao incentivo do professor Zinedine Zidane fizeram Cristiano tirar o pé em muitos momentos desta época para se poupar. Isso, porém, não o fez menos importante para o Real. Pelo contrário, foi o que derrubou as acusações que restaram mesmo depois do que ele fez na Eurocopa de que o português não é um jogador de grupo e que preza por seu sucesso individual antes do coletivo. Cristiano aceitou ser menos utilizado por Zizou (jogou quase 500 minutos a menos do que na temporada passada) e acabou sendo muito mais o homem do último passe do que definidor muitas vezes. Na fase de grupos da Champions, por exemplo, quando muitos o taxavam como omisso simplesmente porque ele não estava fazendo gols, ele foi bastante participativo e eficiente com suas três assistências contra o Légia Varsóvia (nos dois jogos) e contra o Sporting, bem como nas oitavas de final, com o camisa 7 servindo Álvaro Morata no San Paolo e Toni Kroos no Santiago Bernabéu, que foi quando ele se tornou o maior assistente da história da Champions League.

Seu posicionamento alternativo em campo com Karim Benzema caindo pela esquerda, Isco pela direita e ele mais centralizado o rendeu oito gols no mata-mata antes de encarar a Juve e uma boa recuperação para voltar ao seu lugar na decisão. Na finalíssima, o francês regressou ao meio do ataque, o camisa 22 continuou entrando no lugar de Gareth Bale, que ainda não está 100% de sua última lesão, e Cristiano voltou a explorar o corredor esquerdo com velocidade. O saldo foi o ponta esquerda com uma forma física melhor do que nunca para inaugurar o marcador e, depois, fazer o 3 a 1. Com esta vantagem no placar, aliás, Zidane tirou Benzema e lançou Bale ao jogo. Isso faltando pouco mais de dez minutos para o apito final. Assim, o camisa 7 voltou a atuar mais perto da área, como nas partidas anteriores, e o Real ganhou um gás extra pela beirada. No entanto, quem fechou a conta foi Marco Asensio, substituto de Isco aos 37 da segunda etapa, e o terceiro hat-trick na Champions de 2016/17 não aconteceu. Mas isso nada importou uma vez que a Orelhuda e a artilharia estavam garantidas e ele já era o único jogador a marcar em três finais.

Com seu ‘doblete’ diante de uma defesa que parecia impenetrável até este sábado, Cristiano ainda foi responsável pelo Real ter atingido a estatística dos 500 gols na competição.. Ele também havia feito o de número 400, há três temporadas, contra o Schalke 04. Esses números dizem muito sobre o time e sobre sua contribuição ao longo dos anos, ainda mais nesta temporada. Mais forte do que nunca em questão de peso, sendo a própria personificação de um raio e o grande cara do Real Madrid nesta campanha, o camisa 7 leva o mais especial e grandioso de seus quatro títulos da Champions. Ou, ao menos, o mais entre os três conquistados enquanto jogador merengue. A empreitada do bicampeonato seguido na era moderna da Champions League, algo que, aliás, é inédito, passa por todos da equipe e muito, mas muito pelo técnico, é claro. Mas fica marcada pelo ápice de Cristiano Ronaldo, pelos 105 gols e outros recordes e por ele não cansar de fazer história.


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