Solidez defensiva, velocidade para contra-ataques, força física e bola aérea. São características geralmente associadas aos famosos times copeiros, aqueles que gostam de disputar competições mata-mata. São, também, um rápido e raso resumo do estilo das equipes de Antonio Conte, mas o importante treinador italiano da Internazionale nunca teve muito sucesso em palcos europeus. Nesta sexta-feira, encarará o Sevilla pelo título da Liga Europa. Sua primeira final continental.

Acontece que Conte não teve muitas oportunidades. Esta é apenas sua sexta temporada em um clube grande, o que parece maluco considerando que convivemos com ele durante quase toda a última década. A explicação é que passou dois anos na seleção italiana e outro em um sabático antes de chegar à Internazonale. E nas cinco temporadas que teve pela Juventus e pelo Chelsea, assumiu equipes que não estavam classificadas para competições europeias.

Por isso, esta é apenas a quarta aventura de Conte pelo continente europeu e em nenhuma delas passou das quartas de final da Champions League. Em sua última temporada em Turim, alcançou as semifinais da Liga Europa, mas não pode ser considerado um sucesso porque foi eliminado ainda na fase de grupos do principal torneio do continente, o grande objetivo da Juventus. E com o time que tinha em mãos, a uma ou duas peças de ser finalista da Champions com Allegri, não é grande mérito eliminar Trabzonspor, Fiorentina e Lyon.

A situação foi parecida nesta temporada. A Internazionale não chega ao mata-mata da Champions League desde 2011/12 e esperava conseguir ultrapassar essa barreira com Conte. Não deu muita sorte no sorteio, mas também não se ajudou ao abrir a campanha com um empate em casa contra o Slavia Praga. Perdeu do Barcelona e do Borussia Dortmund fora de casa, ganhou dos alemães no San Siro e se vingou dos tchecos na estrada.

Ainda chegou com chance à última rodada, por ter vantagem em relação o Dortmund no confronto direto, mas precisaria vencer o Barcelona, em casa, caso desse a lógica no outro jogo – como deu, com a vitória alemã sobre o Slavia Praga. Empatava por 1 a 1 até os 41 minutos do segundo tempo, quando Ansu Fati assegurou os três pontos aos catalães.

Como foram as outras campanhas? Quais foram um fracasso e quais Conte levou o time até onde tinha mesmo que levar? Como foram as eliminações? Estamos prestes a descobrir.

2012/13 – Quartas de final da Champions League

Conte contra o Bayern (Foto: CHRISTOF STACHE/AFP via Getty Images/OneFootball)

A temporada 2011/12 foi quando a Juventus voltou a impor sua autoridade sobre o futebol italiano. Conquistou seu primeiro scudetto desde 2003, desconsiderando os dois que foram cassados pelo escândalo do Calciopoli. Precisou de quatro temporadas depois do acesso para colocar a casa em ordem e encontrar o técnico certo. Antonio Conte havia subido com o Siena e tinha passado importante como ex-jogador da Velha Senhora. Ainda em começo de carreira, retribuiu a confiança com o título italiano e consequentemente a vaga na Champions League após duas temporadas de ausência.

Para 2012/13, não houve tantos sucessos no mercado de transferências, mas duas movimentações importantes. Uma de saída e uma de entrada. Seria a primeira temporada da Juventus sem Alessandro Del Piero em quase 20 anos e Paul Pogba chegava do Manchester United. A Velha Senhora também deixaria sair um jovem Ciro Immobile ao Genoa e Felipe Melo ao Galatasaray. Trouxe Lúcio da Juventus, Anelka, em janeiro, e algumas peças competentes de elenco, como Asamoah e Martin Cáceres.

Conte armava sua equipe no seu tradicional 3-5-2, com Andrea Barzagli, Leonardo Bonucci e Giorgio Chiellini na defesa. Cáceres ganhou minutos com a lesão de Chiellini. Andrea Pirlo e Arturo Vidal eram o coração do meio-campo, com a companhia de Claudio Marchisio e muitas oportunidades a Pogba. Stephan Lichtsteiner pela ala direita, Asamoah na esquerda.

Faltava um pouco de poder de fogo. O quarteto de atacantes tinha Mirko Vucinic, Fabio Quagliarella, Sebastian Giovinco e Alessandro Matri. Todos contribuíram com pelo menos 10 gols, mas nenhum passou de 14, e o artilheiro da temporada foi Vidal, com 15.

Não foi ruim a campanha na Champions League, no limite do que se poderia esperar de um time ainda em formação. Caiu em um grupo que poderia complicá-lo, ao lado do Chelsea, então o atual campeão, e o Shakhtar Donetsk de Fernandinho, Willian, Luiz Adriano e Douglas Costa. Iniciou a campanha com três empates e a terminou com três vitórias. Causou a queda de Roberto Di Matteo com o triunfo por 3 a 0 em Turim, na penúltima rodada, que eliminou os ingleses e confirmou o primeiro lugar aos italianos.

Cruzou nas oitavas de final com o Celtic. O clube escocês havia surpreendido na fase de grupos ao vencer o Barcelona em Glasgow e ficar à frente do Benfica. Fraser Foster, um dos destaques daquele time, saiu um pouco mal no primeiro gol, marcado por Matri, e talvez pudesse ter feito melhor no segundo, embora Marchisio tenha batido à queima-roupa. Vucinic fechou o placar no Celtic Park. Foster também deixou o rebote vivo para Matri fazer 1 a 0 no jogo de volta. Quagliarella selou a vitória por 2 a 0 que confirmou a Velha Senhora nas quartas de final.

.

E aí, não havia muito o que fazer. A Juventus tinha poucos recursos para incomodar um dos melhores times da década e que a Champions League já viu. E nem teve a chance de tentar porque Alaba marcou com um chute de longe que desviou e matou Buffon antes do primeiro minuto do duelo. O poderoso Bayern de Munique de Jupp Heynckes ampliou para 2 a 0 em Munique, com Thomas Müller. Na Itália, Mandzukic encerrou qualquer esperança, aos 19 minutos do segundo tempo, e Claudio Pizarro apenas deixou seu nome no placar, já nos acréscimos.

.

2013/14 – Semifinal da Liga Europa

Conte e Jorge Jesus (Foto: Gerardo Santos/Global Images/Imago/OneFootball)

Este foi o grande fracasso de Conte na Europa. Se faltava poder de fogo, a Juventus contratou Carlos Tevez, além de Fernando Llorente para ajudar. Esse time, um pouco reforçado e com Allegri, chegaria à final da Champions League na temporada seguinte. Com Conte, não passou da fase de grupos. E não era um grupo dos mais difíceis.

Tudo bem que caiu com o Real Madrid, que terminaria a temporada com La Décima na sua prateleira, mas era o claro favorito para o segundo lugar. O Galatasaray que pintava como um potencial competidor – e acabou ficando com a vaga – contava com Sneijder e Drogba e havia chegado às quartas de final na temporada anterior, mas terminaria o Campeonato Turco a nove pontos do Fenerbahçe, levou 10 x 2 do Real no agregado e causou poucos problemas ao Chelsea nas oitavas de final.

A campanha foi muito fraca. A Juventus conseguiu apenas uma vitória, contra o Copenhague, que ainda deu uma mãozinha ao derrotar o Galatasaray em um dos jogos. Mas não foi páreo para o Real Madrid, com uma derrota no Bernabéu e um empate em Turim, onde também não conseguiu vencer o Galatasaray. Com todos esses problemas, ainda chegou à rodada final podendo apenas empatar com os turcos para passar às oitavas de final.

Mas pereceu diante da dupla estrelar do Galatasaray e da neve de Istambul. A primeira meia-hora aconteceu em uma terça-feira, antes de o jogo ser paralisado por causa da neve. O complemento, no dia seguinte, seguiu zerado até os 40 minutos do segundo tempo, quando Drogba escorou de cabeça e Sneijder dominou com qualidade antes de bater cruzado para eliminar a Juventus da Champions League.

Paralelamente, a Juventus caminhava para bater recordes na Serie A, pela primeira e única vez chegando aos 100 pontos – marcou 102 no total -, com 33 vitórias, três empates e duas derrotas. Ainda havia Liga Europa, na qual a Velha Senhora caminhou bem. Passou sem problemas pelo Trabzonspor, com duas vitórias por 2 a 0, mas teve problemas contra a Firoentina. Mario Gómez empatou em Turim, a 11 minutos do fim, e o 0 a 0 era favorável à Viola, até Andrea Pirlo desfilar uma brilhante cobrança de falta.

Um gol chorado de Bonucci deu a vantagem para a Juventus contra o Lyon, na França, e bastou terminar o trabalho em Turim. Nas semifinais, o adversário seria o Benfica, treinado por um homem que viemos a conhecer muito bem aqui no Brasil. Lima desequilibrou o placar a favor do time de Jorge Jesus, aos 39 minutos do segundo tempo, após Garay e Carlos Tevez marcarem uma vez para cada lado. Em Turim, os Encarnados seguraram o 0 a 0 até o fim e foram à final para enfrentar o Sevilla.

2017/18 – Oitavas de final da Champions League

Conte contra o Barcelona (Foto: JOSEP LAGO/AFP via Getty Images/OneFootball)

Não ter conseguido ir longe na Champions League contribuiu para a saída de Conte da Juventus. Ele emendou um ótimo trabalho com a seleção Italiana e, após a Eurocopa de 2016, acertou com o Chelsea. O trabalho de Mourinho havia se deteriorado na terceira temporada – nove derrotas nas primeiras 16 rodadas da Premier League. O interino Guus Hiddink conduziu o restante e conseguiu uma boa recuperação, mas terminou em décimo lugar.

Não haveria, portanto, competições europeias na primeira temporada de Conte em Stamford Bridge. Foi bom para poder se concentrar na Premier League. Conte armou uma equipe muito equilibrada, com David Luiz, Azpilicueta e Gary Cahill na defesa, N’Golo Kanté e Matic destruindo no meio-campo, Marcos Alonso e Victor Moses nas alas e três jogadores na frente. Geralmente, Hazard, Diego Costa e mais um, entre Fàbregas, com um meio-campo mais recheado, Pedro ou Willian. O começou foi um pouco irregular, mas emendou 13 vitórias seguidas para encerrar o primeiro turno. Assumiu a liderança na 12ª rodada e nunca mais a deixou escapar.

Não foi uma caminhada sem percalços. A forte personalidade de Conte apareceu em um entrevero com Diego Costa em relação a uma proposta da China. Informou seu principal atacante por mensagem de texto que não contava com ele para a temporada seguinte. Mesmo assim, o Chelsea fez jogo duro nas negociações e acertou com o Atlético de Madrid apenas depois do fechamento da janela de verão. Costa teria que amargar seis meses de exílio antes de voltar aos braços de Diego Simeone.

E o Chelsea não conseguiu substitui-lo à altura. O alvo principal era Romelu Lukaku, que acabou fechando com o Manchester United, para o qual perdeu também Nemanja Matic. As reposições foram Álvaro Morata e Bakayoko, com outras peças para expandir o elenco e conciliar mais de um torneio importante: Antonio Rüdiger na defesa, Drinkwater para o meio-campo e Davide Zappacosta para as alas. Em janeiro, vieram também o lateral Emerson, o atacante Giroud e o meia Ross Barkley.

Uma boa vitória no Wanda Metropolitano contra o Atlético de Madrid, com gol de Batshuayi aos 48 minutos do segundo tempo, foi essencial para a passagem às oitavas de final porque o Chelsea arrancou apenas um ponto nos dois jogos contra a Roma. Terminou o trabalho goleando o Qarabag em Baku na penúltima rodada. O empate contra os colchoneros, porém, cobraria um preço. Os Blues empataram em pontos com a Roma e avançaram em segundo lugar. Nas oitavas de final, o cruzamento seria contra o Barcelona.

Não era um grande Barcelona. Era o time que havia acabado de perder Neymar e na fase seguinte seria eliminado em condições trágicas pela mesma Roma que ficara à frente do Chelsea. Mas também não era, ainda, um Barcelona que leva oito gols em uma semifinal. E os sinais de desgaste do trabalho de Conte também se expandiam além das rusgas com Costa e das cobranças públicas pela falta dos reforços que queria. Os duelos contra o Barça foram realizados em um período no qual o Chelsea perdeu cinco em sete rodadas da Premier League.

E não é que foi bem contra o Barcelona? Criou mais chances do que o mais pragmático Barça de Ernesto Valverde. Willian acertou duas bolas na trave no primeiro tempo em Stamford Bridge. Estava calibrando o pé porque, no começo da etapa final, bateu rasteiro da entrada da área e abriu o placar para os Blues. Mas Andreas Christensen errou a saída de bola, Iniesta interceptou e rolou para Messi anotar um importante gol fora de casa aos catalães.

A dinâmica no Camp Nou foi parecida. O Barcelona segurou o Chelsea com uma forte organização defensiva e contou com Messi inspirado para aproveitar as chances. No terceiro minuto, recebeu um bom passe de Suárez e, quase sem ângulo, bateu de direita entre as pernas de Courtois. Aos 20, Messi pressionou no círculo central, roubou a bola, driblou dois e rolou para Dembélé bater cruzado para ampliar e basicamente matar a eliminatória. Messi fechou o placar com outro chute entre as pernas do goleiro belga. Conte não conseguiu corrigir o curso da temporada do Chelsea, terminou apenas em quinto lugar e foi demitido. Entrou em um importante sabático antes de assumir a Internazionale.

.

.

.