Em sua estreia pela seleção francesa principal, Camavinga provou que nenhum palco intimida seu talento

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O relógio marcava 18 minutos do segundo tempo quando Eduardo Camavinga entrou em campo no duelo entre França e Croácia, pela Liga das Nações, na terça-feira (8). Aos 17 anos, 9 meses e 29 dias, o garoto se tornava o mais jovem jogador a estrear pela seleção francesa no período pós-Segunda Guerra Mundial. Mais novo que ele, apenas Maurice Gastiger, que no longínquo 1914 começou sua trajetória aos 17 anos e 128 dias. Tão impressionante quanto a marca em si foram a tranquilidade e o nível demonstrados por Camavinga.

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Sete minutos depois de entrar, o meio-campista do Rennes rouba a bola em seu próprio campo, começa o contra-ataque tocando para Martial, recebe de volta, dá uma finta no marcador e finaliza com qualidade, para defesa de Livakovic. Aos 39 do segundo tempo, faz ótima jogada individual dentro da área e coloca a bola no pé de Martial, que é travado na hora do chute.

Entre esses lances de destaque, vários outros ajudam a pintar a bela atuação do garoto em sua meia hora de jogo de estreia pela seleção francesa. Atuando pelo meio e caindo pela direita, é calmo em todas as situações, ocupa bem os espaços, usa sua qualidade para se livrar da marcação e encontrar o melhor passe e também ganha duelos físicos para manter a posse da bola aos Bleus.

A altivez que Camavinga demonstrou em sua estreia pela seleção impressiona, mas não é novidade na curtíssima carreira do jogador. Há mais de um ano, em maio de 2019, com apenas 16 anos, jogara com a mesma calma quando dominou o meio de campo ao longo do duelo contra o PSG e deu a assistência para o gol da vitória por 2 a 1, já no fim do confronto, marcado por Romain del Castillo.

Naquela oportunidade, Camavinga, que havia estreado apenas um mês antes, deixava sua marca na elite francesa, sendo eleito o melhor em campo e surpreendendo a todos que não acompanhavam de perto sua progressão nas categorias de base. O desempenho, no entanto, não era grande surpresa para quem convivia com o garoto.

“Descobrimos na temporada passada durante os treinamentos como Eduardo é bom. Ele é um jogador muito jovem, mas já bastante maduro. Tem muito talento. É muito bom tecnicamente e fisicamente, além de escutar o que falamos a ele”, comentou Clément Grenier após o jogo com o PSG. Julien Stéphan, seu técnico, completou: “Ele é muito bem construído intelectualmente, sabe como se questionar e faz a si as perguntas certas”.

Naquele encontro com o PSG, Camavinga, então com 16 anos, fez o contrário do que esperaríamos de um jogador de sua idade, atuando contra a principal equipe do país, repleta de craques mundiais: chamou a bola a todo instante, sendo o atleta do Rennes com mais toques na bola. Devido às circunstâncias do jogo, além da influência na construção das jogadas e na bola que serviu a Del Castillo para o gol do triunfo, teve destaque defensivo, mas desde então tem provado também sua eficiência no terço final.

Contra a Croácia, esse bom trabalho ofensivo ficou claro em poucos minutos. Já neste início de Ligue 1 2020/21, temporada em que passa a utilizar a camisa 10 do Rennes, tem tido impacto importante e ainda mais acentuado na busca por gols. Na estreia da campanha, jogou também por apenas 30 minutos, mas foi o suficiente para dar a assistência que garantiu o empate fora de casa contra o forte Lille. No jogo seguinte, contra o Montpellier, foi a vez de deixar o seu gol, em lance de pura inspiração e habilidade, enfileirando adversários antes da finalização cruzada.

As atuações de Camavinga contra Lille, Montpellier, Croácia, PSG ou qualquer outra equipe que enfrentou em seus 45 jogos como profissional tem em comum uma coisa: o garoto joga com a tranquilidade de um veterano e uma taxa de acerto de jogador de destaque já estabelecido. É do tipo que faz o futebol parecer fácil, sempre com o ar de quem ainda está enfrentando os adversários locais da Bretanha, de quando defendia o modesto Drapeau-Fougères.

A essa altura, o talento de Camavinga com a bola nos pés é inegável. Além das circunstâncias externas que não se pode controlar, a única coisa que hoje poderia separá-lo de ter um futuro grandioso pela frente é talvez a mentalidade e a forma como possa levar sua carreira. Neste sentido, no entanto, parece também estar bem encaminhado.

Equilibrado em suas redes sociais, fala pouco com a imprensa e, quando o faz, soa tão maduro quanto parece em campo. Após a estreia pela França na terça-feira, destacou a alegria e o orgulho para a sua família e, questionado sobre sua continuidade nos Bleus, preferiu pensar no próximo desafio imediato à frente: “Voltar, sim, mas primeiro vou me concentrar no clube, porque temos uma partida no domingo e, depois, me concentrarei na seleção se for chamado”.

Eduardo Camavinga (Jean-François Monier/AFP via Getty Images/OneFootball)

Este perfil promissor não passou despercebido pelos grandes clubes europeus. Já há vários meses, os rumores são fortes sobre uma possível investida do Real Madrid. Durante a temporada passada, a impressão era de que a proposta poderia chegar até mesmo neste verão europeu, com Zidane um admirador confesso de seu futebol. Seja pelas circunstâncias financeiras do mundo mergulhado em uma pandemia ou por escolha própria, Camavinga passará mais uma temporada no Rennes. E a longo prazo? Só tem um desejo.

“O que eu sei sobre o meu futuro é que vou para o Fougères de graça e vou terminar minha carreira lá. Só vou pedir uma bebida grátis no bar de refrescos depois dos jogos. Um suco de maçã, melhor dizendo”, disse em entrevista ao jornal Ouest-France em maio.