Em seus 50 anos, Schumacher nunca escondeu que é um apaixonado por futebol

Michael Schumacher cruzou a linha de chegada do Autódromo de Interlagos, 40 segundos à frente de David Coulthard. Era 26 de março, e aquela era a sua segunda vitória na temporada de 2000 (em duas etapas), a 37ª das 91 que colecionou na carreira. Terminaria o ano campeão mundial de Fórmula 1, seu primeiro título pela Ferrari, quebrando jejum de 21 anos da equipe de Maranello. No pódio, o troféu da vitória no Grande Prêmio do Brasil foi entregue por ninguém menos do que Pelé, tornando o momento ainda mais especial para o apaixonado por futebol que vive dentro do heptacampeão.

A verdadeira situação de Schumacher, que completa 50 anos nesta quinta-feira, ainda é um mistério. Em dezembro de 2013, o homem que testou os limites da velocidade sobre quatro rodas caiu enquanto esquiava e bateu a cabeça em uma pedra. O que se sabe como fato é que sofreu graves lesões cerebrais. Recupera-se em sua casa, na Suíça, sob sigilo quase completo da sua família. Às vésperas do seu aniversário, um raro comunicado foi publicado, limitando-se a dizer que o ex-piloto está “nas melhores mãos” e que “tudo que é humanamente possível” está sendo feito para ajudá-lo. Ratifica o pedido por privacidade.

A carreira de Schumacher na Fórmula 1 começou em 1991, a bordo da Jordan, apenas na sua corrida de estreia, no GP da Bélgica. Foi para Benetton, pela qual conquistou seus dois primeiros títulos. Em 1996, chegou a Maranello para tentar tirar a Ferrari da fila e, quando conseguiu, emendou cinco conquistas consecutivas do Mundial de Pilotos. Ainda é o recordista de títulos, com sete, e de vitórias, com 91. Aposentou-se a primeira vez, em 2006, quando também teve um encontro com Pelé, para receber um troféu em honra aos seus feitos. Voltaria à F1 em 2010, pela Mercedes, antes de parar de vez, em 2012.

Ainda bem que teve uma carreira razoavelmente bem-sucedida no automobilismo porque, se perseguisse outra das suas paixões, provavelmente não se daria tão bem. Em entrevista ao site da Fifa, publicada em agosto de 2000, Schumacher contou que, por mais que gostasse de futebol, muito cedo descobriu que não tinha talento suficiente para ser jogador profissional. E olha que, assistindo com atenção a vídeos do ex-piloto disputando peladas, ele estava longe de ser um grosso. Era meio estabanado, mas controlava bem a bola, raramente desperdiçava a posse, dava dribles curtos, tinha visão de jogo e, com o preparo físico de um atleta de elite, não perdia o fôlego.

“Era claro bem no começo quem era bom o bastante e quem não era, e eu, infelizmente, estava na segunda categoria”, afirmou. “(A paixão por futebol) começou com Toni Schumacher e Pierre Littbarski, dois ex-jogadores da seleção alemã. Quando eu era criança, eles eram os melhores jogadores para mim. E ambos estavam no Colônia, o clube que eu torcia. E como qualquer outro jovem garoto, eu também jogava bola. Não era tão bom quanto gostaria de ser, mas gostava de jogar mesmo assim”.

Para matar a vontade, depois da sua primeira aposentadoria, em 2006, Schumacher encontrou um pequeno clube suíço, cujo campo era próximo da sua mansão, às margens do Lago Genebra. O Echichens atuava na terceira divisão (atualmente está na quinta) e abriu as portas para o ex-piloto bater uma bola organizada. A participação dependia da sua agenda, como contou o ex-companheiro Paulo Vaz, ao site português Mais Futebol, em 2010. Vaz garante que o maior campeão da história da Fórmula 1 era “apenas mais um” entre os amadores do Echichens.

“Ele não treinava sempre. Mas aparecia regularmente e chegou a fazer muitos gols. Era uma pessoa simples e solidária. Às vezes, não aparecia durante algumas semanas, pois tinha compromissos com a Ferrari. Mas regressava curioso e pronto para ajudar. Mostrou sempre um comportamento correto”, afirmou. “Era muito rápido. Tinha uma preparação física incrível e detestava perder. A vitória está no seu sangue. Para o nosso nível, acho que possuía uma qualidade muito interessante. Para um patamar profissional, não, mas, em um clube como o Echichens, destacava-se”. Ao retornar à Fórmula 1, naquele ano de 2010, a convite de Ross Brawn para reinaugurar o projeto da Mercedes, Schumacher passou ao quadro de veteranos do Echichens, segundo o Mais Futebol.

Schumacher era presença constante em peladas beneficentes. Em 2004, por exemplo, participou ao lado de outros pilotos de Fórmula 1 da época, de um jogo em homenagem a Ayrton Senna, às vésperas do Grande Prêmio de San Marino, no qual o brasileiro havia morrido dez anos antes. O adversário? Parte da seleção campeã mundial em 1994. Jogadores como Dunga, Jorginho, Leonardo e Taffarel. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo daquela semana, 6 mil pessoas estiveram no estádio, e a renda foi doada para o Instituto Ayrton Senna. A partida terminou 5 a 5 e foi bem difícil para os pilotos.

Dunga marcando Michael Schumacher, em amistoso em homenagem a Senna, em 2004

Viviane Senna, irmã de Ayrton, deu o pontapé inicial e, ao fim do primeiro tempo, os brasileiros venciam por 5 a 1. A análise da partida é cortesia de Michael Schumacher, um potencial bom comentarista de futebol, se todo o resto desse errado. “Tínhamos uma espécie de posicionamento para os nossos jogadores e, depois de dois minutos, eu vi o jogo e disse para todos os bons jogadores, como Fernando (Alonso) e alguns outros, que eles precisavam recuar, não poderiam jogar no ataque. Não havia jogo na frente para nós no começo. Nós apenas defendemos contra os profissionais. Mas foi divertido, particularmente o segundo tempo, quando trocamos os jogadores”, explanou, segundo a ESPN Internacional, em matéria publicada naquela semana.

Uma das atuações de gala de Michael Schumacher com a bola nos pés aconteceu em um amistoso beneficente organizado entre a Fundação Luis Figo e a Unicef, em 2003, outro eletrizante 5 a 5. O alemão começou atuando no time da Unicef, ao lado de nomes como Zidane, Laurent Blanc e Van Nistelrooy. Da entrada área, aos 32 minutos do primeiro tempo, soltou uma bomba. O máximo que o goleiro do time de Figo conseguiu fazer foi espalmá-la ao travessão com a ponta dos dedos para evitar o golaço de Schumacher, e isso é dizer alguma coisa considerando que aquele goleiro era Gianluigi Buffon. No rebote, Sérgio Conceição empatou em 1 a 1.

No segundo tempo, Schumacher virou a casaca e foi para o time de Figo. Como um clássico ponta direita, aterrizou a defesa adversária e mostrou um grande preparo físico. Nos minutos finais da partida, continuava correndo sem parar. Foi nesse momento que encontrou dois lindos passes nas costas da defesa para deixar Pauleta cara a cara com o goleiro. O atacante português não decepcionou e concedeu duas assistências para o atacante que, profeticamente, atuava com a camisa 7, embora, naquela época, ainda possuíse “apenas” cinco títulos mundiais, lutando pelo seu sexto.

Tradicionalmente antes do Grande Prêmio de Monaco, os pilotos de Fórmula 1 reúnem-se em um time de futebol para enfrentar estrelas organizadas pelo príncipe Albert. Schumacher era presença certa, capitaneando os seus colegas. Em maio de 2014, na primeira edição do evento depois do acidente, a ausência do heptacampeão foi sentida. As placas de publicidade nas laterais do gramado trouxeram uma mensagem: “Michael, sentimos sua falta! Não vemos a hora de vê-lo neste gramado ano que vem”. Mas isso não aconteceu. Nem no ano seguinte. Nem no seguinte. E nem no seguinte.


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